Esporte

OPINIÃO: Prejuízo padrão FIFA

Devido às exigências da instituição, hoje o país conta com um déficit

A Copa do Mundo de 2014 veio para entrar na lista de melhores copas do mundo. Apesar de toda a saudade que deixou nos brasileiros, a competição também transformou várias cidades em verdadeiros canteiros de obras nos anos que a antecederam. Algumas, como é o caso de Porto Alegre, ainda têm obras inacabadas que tinham prazo inicial de entrega para a data do evento. A “Copa das Copas” foi um paraíso coletivo imaginário para o público, mas deixou prejuízos nos cofres públicos.

As únicas obras que precisavam, obrigatoriamente, e ficaram prontas até o início dos jogos foram os estádios. Dos 12 estádios que sediaram jogos da Copa, seis foram construídos do zero. Os outros seis passaram por reformas, como foi o caso do Beira-Rio e do Maracanã. Todos foram entregues a tempo de sediar o evento – e apenas isso, para alguns, que depois ficaram às moscas.

Quando alguns desses estádios foram planejados e anunciados, muitos já previam o “nascimento” do elefante branco. Prevendo ou não, a FIFA exigia um padrão que custou muito dinheiro e, hoje, não podemos desfrutar dessas estruturas incríveis que estão abandonadas.

Hoje, parte desses estádios recebe apenas shows, eventos particulares, e há aqueles que até viraram sede de secretarias de governo, como é o caso do estádio Mané Garrincha, localizado em Brasília.

 

Brasilia, DF, Brasil, . (Foto: Andre Borges/ ComCopa)

Estádio Mané Garrincha, em Brasília. Foto: Andre Borges/ComCopa

 

O local recebeu cerca de 28 eventos depois da Copa de 2014 e – pasmem! – apenas 12 deles eram relacionados ao futebol. Mesmo assim, o estádio nunca esteve perto da lotação máxima (72 mil lugares) nessas ocasiões: o evento mais cheio foi o desafio Brasil x Argentina de futsal, com público de 56.578. Reflitam comigo: um clássico de futsal foi o responsável pelo maior público do estádio. Foram gastos milhões para construir um estádio, num local onde não há tradição no futebol, nem grandes times para disputar partidas nele. Padrão FIFA a que preço?

Outro caso apavorante é o da espetacular Arena da Amazônia, em Manaus.

 

Arena da Amazônia (Foto: Washington Lins)

Arena da Amazônia, em Manaus. Foto: Washington Lins

 

O Estado não tem times representantes no futebol para utilizar o local e, além disso, a Arena não foi privatizada, ou seja, todos os custos e gastos saem de contas do governo do Estado – são cerca de R$ 700 mil por mês. O estádio arrecadou pouco mais de meio milhão de reais em 2015 e gastou mais de R$ 7 milhões com manutenção. O saldo, R$ 6,5 milhões negativos, é o preço que o amazonense paga anualmente por causa da Copa de 2014. O cidadão paga por um espaço subutilizado, que poderia ser usado em benefício próprio, como sede para ações sociais e escolas de futebol.

Já a Arena Pantanal, em Cuiabá, custa R$ 300 mil por mês em manutenção ao governo do Mato Grosso.

 

Arena Pantanal (Foto: Paulisson Miura)

Arena Pantanal,  em Cuiabá. Foto: Paulisson Miura

 

O estádio recebeu apenas 15 jogos de futebol em 2014 após a Copa, somando os das séries A, B, C e D. O lucro foi pequeno, já que a arena cobrou apenas R$ 50 mil de aluguel para os jogos da primeira e segunda divisão.

O fluxo de receitas para cobrir os custos foi interrompido no fim de janeiro de 2015, depois que a arena de 42 mil lugares foi interditada por conta de irregularidades. Construída para sediar quatro jogos da primeira fase da Copa, a Arena Pantanal está interditada para reparos. Que tipo de reparos pode ter uma obra que tem pouco mais de dois anos de sua inauguração? Provavelmente, a origem desses problemas foi a corrida contra os deadlines da FIFA, onde alguns estádios foram finalizados às pressas e em débito com alguns arremates. “Tudo culpa da FIFA…”

A Arena das Dunas, localizada em Natal, foi a única aqui citada construída através de parceria público-privada.

 

Arena das Dunas (Foto: Leonardo Stürmer)

Arena das Dunas, em Natal. Foto: Leonardo Stürmer/Beta Redação

 

Atualmente, a OAS, responsável pelas obras, administra o local. A concessão vale por duas décadas, e o Estado pagará por ela nos próximos 17 anos. Nos primeiros 11 anos, o governo arcará com uma prestação de R$ 9 milhões mensais; do 12º ano ao 14º, serão R$ 2,7 milhões; e nos últimos três anos, R$ 90 mil.

A média de público nos jogos de futebol foi de pouco mais de 9 mil pessoas – a capacidade é de 31.375 lugares. Ou seja, mais um estádio (que custou R$ 423 milhões) está sendo subutilizado. O valor destinado para sediar apenas quatro jogos da Copa do Mundo poderia ter sido melhor investido, convenhamos. O dinheiro – mal – gasto, poderia ter sido investido em educação, infraestrutura e até mesmo saúde.

O único desejo é que a situação não fique irreversível como a da África do Sul, que tem estádios completamente abandonados, acumulando mato e sujeira.

Poucos estádios foram construídos com recursos particulares dos clubes e parcerias público-privadas. Sendo assim, muito dos cofres públicos foi gasto para atender exigências de uma instituição privada, que não faz ideia do quanto o país precisaria dessa quantia (ou menos) para proporcionar uma vida melhor para muitos brasileiros.

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