Esporte

OPINIÃO: Por que eu tenho que amar futebol?

Como cresci em um país obcecado pelo esporte

Eu deveria ter uns 12 anos. O sol forte havia deixado o piso de piche do campinho insuportavelmente quente para os pés de uma criança que não estava acostumada a andar descalça, mas eu decidi não reclamar. Não naquele dia. Airton foi quem me convidou para a partida. Topei pela sensação de fazer alguma coisa com meu irmão mais velho, não pelo esporte propriamente dito. Obviamente, fiquei no time do Mano, muito mais pela sua influência sobre os outros garotos do que pela minha habilidade futebolística. Durante o jogo, o desempenho dos outros jogadores foi melhor do que o meu. Com o passar dos anos, percebi que, na verdade, os outros garotos não eram tão bons, eu que era ruim. Bem ruim. Ruim no nível de chutar as canelas de todos, mandar a bola para fora e fazer passes perfeitos… para o time adversário.

Quase no final daquela que era a minha primeira disputa, meu irmão pediu tempo e reuniu todos os meninos. Eu fiquei de fora da conversa, pois tinha que buscar a bola que estava bem longe. Quando eu voltei, a partida recomeçou e, estranhamente, os garotos passaram a perder a bola pra mim. Cheguei perto do gol duas vezes, mas no momento final, chutei para fora. Eu estava frustrado. Meu irmão também. Estava na cara que ele queria um gol. Até que o meu irmão chutou a bola para o Leitão (Jonathan, segundo o RG), que fez um passe perfeito para mim. Nesse momento, era eu e o gol. Os outros garotos estavam imóveis no meio do campo – é, eu estava impedido -, e o gol saiu. Meu primeiro gol. Lembro que o Mano me pegou no colo e comemoramos aquele gol com mais euforia do que meu pai naquela vez que o Grêmio ganhou do Náutico. Pela primeira e última vez, senti a emoção de ver a bola balançar a rede. E me emocionei porque meu irmão estava emocionado. Fiquei feliz porque meu irmão estava feliz. Comemorei porque é isso que todos os garotos fazem quando conseguem marcar um gol. Afinal, quem é o garoto que não joga futebol, né? Eu.

futebol

Esse poderia ser o relato de superação de um garoto corpulento que encontrou no esporte uma forma de vencer o sedentarismo e ganhar condicionamento físico. Poderia ser uma bela história sobre um menino que descobriu, aos 12 anos, que o futebol é o melhor esporte do mundo, mas não. Nunca gostei de jogar futebol. Na escola, eu era o último a ser escolhido pelos times, invariavelmente. Assistir jogo pela televisão? Alguém me explica se existe algo mais chato do que ficar 90 minutos assistindo uma bola ir de um lado para o outro com um cara narrando, bola vai, bola vem, gol, quase gol, mais um gol, empatou. Sério que isso é legal? Fora que aquele coro da arquibancada no fundo da transmissão me faz bocejar. Futebol me dá sono.

O problema é que a nossa sociedade separa os garotos em quem gosta de futebol e quem não gosta. Mais do que isso: não se pode apenas gostar de futebol ou torcer para algum time, é preciso ser um especialista nisso para se enturmar na pré-adolescência. No colégio, a turma era dividida em meninos que jogavam/amavam/só falavam sobre futebol e meninas que falavam/amavam/só falavam de novelas, questionários e meninos. E eu? Eu era como águas internacionais: não era de grupo algum. Pela primeira vez, fiz a burrice de tentar adaptar a minha vida aos moldes que a sociedade me impunha. Eu precisava entender de futebol. Comecei a ler o caderno de esportes todos os dias e a estudar a tabela do brasileirão. Quem vai para a Libertadores? O que é o tal “SG” ? (Saldo de gols, hoje eu sei). Quantas partidas que o Grêmio precisa vencer para passar o Inter na tabela? (Naquela época, o Inter ainda vencia mais que o Grêmio). Óbvio que não funcionou, porque por mais que eu conseguisse falar sobre futebol, tinha a impressão que os meus colegas estudavam da mesma forma em casa. Todos os dias, eles vinham com termos e jogadores que eu não conhecia. E eu sempre acabava virando chacota por dizer bobagens. Foi aí que eu desisti.

É engraçado perceber que todos nós, meninos, quando crescemos, continuamos falando sobre futebol e usando o esporte para nos enturmar. Não é nada raro ouvir um “e o teu time?” quando dois amigos se encontram. Ou se deparar com um jogo de futebol rolando na televisão da casa do tio ou do avô. Ou quando um amigo te convida para bater “aquela pelada” no final de semana. Esses dias, enquanto cortava o cabelo, me vi respondendo a clássica pergunta dos homens para quebrar o gelo:”Hoje não teve jogo, né?”. Por alguns instantes pensei em responder: “Não sei, por que diabos eu saberia?”. Mantive a calma e usei a clássica resposta seguida de um largo sorriso amarelo: “Ah, parece que não teve nada. Eles jogam quarta, não é?”. Eis que um outro cliente do barbeiro, que parecia entretido com uma revista velha, gritou de longe: “Não, é na quinta! Hoje jogou a Ponte Preta”.

 

Foto Luis Felipe Matos

Foto: Luis Felipe Matos/Beta Redação

 

Sempre haverá outro entendedor de futebol para responder a pergunta que você não soube responder. Diferente do garoto de 12 anos que tentou praticar o esporte para agradar o irmão mais velho, eu não ligo mais para o que os outros vão pensar sobre a minha não paixão pelo futebol. Percebi que eu não preciso entender de futebol, pois sempre vou ter um amigo para me explicar o que é “SG” ou uma namorada que me faça entender o que é um impedimento (fato verídico). Cada um pode e deve gostar do que quer, assistir o que bem entender e viver a vida da forma como melhor lhe parecer.

Depois de alguns anos do meu primeiro e último gol, lembrei de um detalhe que fez toda a diferença na história. Após a partida, meu irmão pagou refrigerante para todos os meninos do campinho. Lembro de ter pensado que meu irmão era o melhor por ter feito isso. Hoje, entendo que foi o meu primeiro contato com a corrupção e compra de resultados de jogos. Meu irmão nunca deixou de ser um dos melhores caras do mundo. Mesmo tendo comprado meu primeiro gol.

Em uma palestra que assisti, o convidado dizia que todo o garoto estudante de Jornalismo “ou quer fazer jornalismo esportivo, ou quer mudar o mundo”. Sem querer ser pretensioso, fico com a segunda opção. Acho que é mais fácil mudar o mundo do que gostar de futebol.

 

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Comentários

Um comentário sobre “OPINIÃO: Por que eu tenho que amar futebol?”

  1. rodrigo aguiar disse:

    que maravilha deparar com um texto assim. tava por aí, displicentemente, e acabei aqui.
    que talento pra contar uma história, Vinicius. valeu!!!

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