Política

OPINIÃO: Política e futebol – uma combinação imprevisível

Ex-jogadores estão encontrando na política a maneira prolongar a carreira vinculada ao esporte

Poucas coisas mexem tanto com a paixão das pessoas como o futebol e a política. Maragato ou chimango, gremista ou colorado, de direita ou de esquerda – e às vezes de centro. O fato é que, quando combinados, os dois temas costumam deixar as pessoas à flor da pele.

Um fenômeno recente ganha cada vez mais espaço na pauta política: o crescimento da “Bancada da Bola”. Ex-jogadores estão encontrando na vida política a possibilidade de prolongamento da carreira, ainda ligada ao esporte. Para isso baseiam suas campanhas e atuações nas Câmaras e Assembleias em ações que envolvam diretamente seus antecedentes dentro de campo.

Embora com representantes ativos na Câmara dos Deputados – Danrlei (PSD) e Deley (PTB) – e no Senado – Romário (PSB) -, a bancada ligada ao futebol não alcançou os mesmos resultados nas últimas eleições que outrora. Nas Assembleias Legislativas, nomes como Jardel (RS), Bebeto (RJ) e Bobô (BA) alcançaram cadeiras com expressiva votação, mas são casos isolados, que fugiram de uma tendência em 2016.

Romário foi o candidato mais votado para Deputado Estadual no Rio de Janeiro (Crédito: Reprodução Internet)

Romário foi o candidato mais votado para senador no Rio de Janeiro (Crédito: Reprodução Internet)

Tarciso, o Flecha Negra, é um destes exemplos de ex-atletas que unem as duas paixões. Vereador eleito em Porto Alegre (PSD) com um pouco mais de 7 mil votos nas eleições de 2016, o ex-atleta foi campeão Brasileiro e mundial pelo Grêmio – e tem uma relação de proximidade com o clube e com a torcida. Não é raro vê-lo nas confortáveis cadeiras da Arena gremista, circulando entre os torcedores e posando para fotos com os fãs. Essa proximidade – declarada pelo político – o fez até mesmo tentar alçar voos mais altos, como a candidatura a Deputado Estadual (acabou não sendo eleito).

tarciso_camisa7

Tarciso não esconde a identificação com o Grêmio (Crédito: Reprodução Internet)

Mas o que explica a migração do campo para a política? Especialistas e cientistas políticos apontam diferentes fatores. O sociólogo e psicanalista Jackson César Buonocore (51), estudioso do comportamento humano, destaca: “O futebol é uma paixão nacional e tem um forte apelo emocional e político, mas não partidário e ideológico. É por isso que alguns ex- jogadores são convidados pelos partidos, que buscam na fama dos ex-atletas a possibilidade de eleger mais vereadores, deputados e senadores. Entretanto Isso não garante que os ex-jogadores serão parlamentares éticos e atuantes”.

Um claro exemplo disso foi o caso envolvendo o deputado estadual Mario Jardel. No fim de sua carreira, já com problemas extracampo (assumiu em 2008 o uso de cocaína), Jardel perambulou por diversos clubes brasileiros antes de encerrar sua trajetória em 2011. Três anos depois, se arriscando na política, foi eleito deputado estadual no Rio Grande do Sul, pelo Partido Social-Democrata (PSD), com mais de 41 mil votos. Já em 2016, alegando depressão, o ex-atleta pediu afastamento temporário de suas funções na Assembleia Legislativa. No dia 22 de dezembro do mesmo ano, Jardel foi condenado por acusações reveladas pelo Ministério Público na operação denominada Gol Contra. As denúncias apuradas deram conta de que Jardel estaria exigindo parte do salário dos funcionários — vídeos comprovaram a irregularidade —, teria falsificado diárias e comprovantes de reembolso de combustível, além de financiar o tráfico de drogas com dinheiro público.

Jardel sucumbiu em sua carreira política (Crédito: Reprodução Internet)

Jardel sucumbiu em sua carreira política (Crédito: Reprodução Internet)

Foi a falência de um ídolo de dentro do campo, que não levou o mesmo comprometimento e sucesso para seu mandato político. Outra explicação possível para este movimento – das quatro linhas para as sessões plenárias – está na formação acadêmica e cultural dos ex-jogadores. Estes, muitas vezes, abrem mão dos estudos em troca de uma carreira no esporte. Logo que abandonam os gramados sentem-se sem rumo profissional definido, devido à falta de qualificação e de preparação para o momento do adeus aos gramados. Então, cientes de que nosso país tem uma relação social com o futebol, um fenômeno gerado em crianças, adolescentes e adultos, numa visão romântica de que por meio do esporte poderão melhorar de vida e serem famosos, acabam mantendo-se vinculados ao esporte, dessa vez via carreira política. Portanto, os ex-jogadores possuem condições competitivas para ganhar os votos de torcedores, pois os grupos fanáticos se identificam socialmente com estes políticos.

A exposição constante na mídia, além dos recursos financeiros decorrentes da carreira no futebol, utilizados para bancar as campanhas eleitorais, fazem destes ex-jogadores candidatos em potencial para todos os partidos. Não é por acaso que a bancada da bola é uma das que mais cresce no Congresso Nacional. O resultado deste movimento, assim como as partidas dentro de campo, é uma caixinha de surpresas.

Lida 916 vezes

Comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Por favor resolva a equação * Time limit is exhausted. Please reload the CAPTCHA.