Economia

OPINIÃO: Picolés e batatas fritas

Ninguém gosta de viver em momentos de crise. Não existe pessoa no mundo que comemore quando o dinheiro acaba, o grande amor vai embora, o cabelo começa a cair, o joelho insiste em fraquejar e a indústria começa a demitir. Entretanto, é hora de encarar os fatos: o mar, antes farto, não está para peixe. A chuva, que chegou de maneira cruel nas últimas semanas, afogou as ideias e os ideais. Sobraram apenas o medo e o pânico da tão falada recessão. Admito que me surpreendo com o temor alheio. Quantas vezes a vida nos provou que é na adversidade que as grandes ideias surgem?

Veja um exemplo: em 1905, os Estados Unidos viviam um dos mais rigorosos invernos de sua história. Um garoto de 11 anos chamado Frank Epperson brincava na varanda, na cidade de San Francisco, na Califórnia. Na mão fria e pequena, apenas um palito para misturar água e refrigerante em pó dentro de uma xícara. Da voz de sua mãe, surge a bronca. Era a hora de entrar e fugir do vento forte. “Faz frio lá fora, pegue um casaquinho.” Coisas de progenitora. A mistura ficou na rua, esquecida pela crise que os poucos graus causaram. Na manhã seguinte, a magia aconteceu: o líquido da xícara havia se tornado um gelo doce em uma haste. O picolé surgiu em meio ao inesperado. Assim como as ideias que foram deixadas na geladeira por receio.

Não se convenceu ainda? Outro exemplo, caro leitor: em 1681, na região onde hoje é a Bélgica, as famílias pobres costumavam fritar peixes no óleo, sendo esta a opção mais barata de alimentação na época. Durante um período de temperaturas baixas – novamente, o frio – os rios e lagos congelaram e secaram a volumosa produção de peixes. Qual foi a opção? Substituir o peixe por batatas e fritá-las. Surgia ali uma unanimidade cultuada por todos: as batatas fritas.

Depois desses exemplos, é possível acreditar que nem o mar revolto que acabou com os peixes na Bélgica, nem o frio de San Francisco que obrigou o garoto a interromper a brincadeira irão cessar suas ideias em momentos de dificuldade. É hora de tirar a letra S do caminho e fazer a “crise” virar uma palavra tão esquecida nos dias de hoje: “crie”.

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