Esporte

OPINIÃO: Paralimpíada e representatividade

Como uma campanha para visibilidade roubou a representação dos paratletas

cleo pires e paulinho vilhena (Foto: Reprodução/Instagram)

Cléo Pires e Paulo Vilhena protagonizaram a campanha Somos Todos Paralímpicos. Foto: Reprodução/Instagram

 

Há duas semanas assistíamos aos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. Mais do que acompanhar os atletas em suas superações, vimos uma verdadeira festa da diversidade. Além de conferir o placar das medalhas, o mundo viu uma mulher negra e favelada ganhar a medalha de ouro no judô, feito inédito para o país. As reações de crianças negras vibrando por verem na TV atletas negros conquistando o pódio viralizaram na internet. Poderia escrever sobre os incentivos que esses atletas tiveram, sua dedicação e história. Mas a contribuição imensurável está nos meninos e meninas que se viram neles. Que se sentiram representados!

No filme A menina que roubava livros (2013), história que se passa na Alemanha nazista, um dos coadjuvantes é o menino alemão chamado Rudy, melhor amigo da protagonista Liesel. Rudy adorava correr. Um dia, pintou-se de carvão, pois queria ser como Jesse Owens. Ele foi repreendido. Imagina, um alemão não poderia querer ser um negro. Jesse Owens foi um dos principais nomes do atletismo mundial, ganhou quatro medalhas de ouro nos Jogos Olímpicos de 1936, em Berlim. Sambando na cara dos nazistas, inclusive na de Hitler, que teve que assistir suas vitórias. Rudy queria ser Jesse Owens. Pintar-se de preto era uma forma de se aproximar do ídolo. Aqui no Brasil, os Jogos Olímpicos devem ter inspirado muitos Rudys por aí.

No dia 7 de setembro inicia mais uma edição dos Jogos Paralímpicos. As expectativas são boas, pois os paratletas brasileiros se destacam nas competições. Nos Jogos Parapan de Toronto (2015), o Brasil encerrou a competição com 34,3% das medalhas de ouro (109 medalhas!), batendo o recorde de aproveitamento da história dos jogos. Nossos paratletas são demais!

Infelizmente, o espírito que tomou conta das crianças que comemoraram e imitaram vários atletas dessa edição das Olimpíadas, como Rudy tentou fazer, não atingiu a revista Vogue Brasil. Em uma frustrante campanha para divulgar os Jogos Paralímpicos, a revista usou dois modelos globais e efeitos de Photoshop para transformá-los em paratletas. O resultado foi a Cléo Pires sem um braço e o Paulo Vilhena sem uma perna. O objetivo foi dar visibilidade. Ora! A visibilidade tem que vir daqueles que têm legitimidade. Se quiserem falar de Paralimpíada, que tragam e mostrem paratletas.

Há uma grande diferença entre se pintar inocentemente de preto para se aproximar de seu ídolo e tirar uma parte do seu corpo em um editor de imagens. Afinal, ninguém deseja ficar deficiente. Aqueles que o são, e transformam suas dificuldades em combustível para se superar, merecem nossa admiração. Merecem ser vistos. Para que meninos e meninas possam se ver neles também!

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