Geral

OPINIÃO: Os juízes da internet

Estamos cada vez mais chatos e com mais vontade de falar besteira nas redes sociais

Reprodução G1

Reprodução, G1

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Mesmo que o comentário do “Stifler” tivesse sido extraído de uma matéria de política do G1, ainda sim ele poderia ter usado o espaço de comentários para promover o debate de ideias. Mas “Stifler” não apenas foi bastante agressivo em seu texto como também o fez em uma matéria que pouco tem a ver com “coxinhas ou petralhas”. A reportagem sobre a qual “Stifler” resolveu opinar era esta aqui:

 

 

Reprodução G1

Reprodução G1

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Uso “Stifler” grafado entre aspas porque este é o nome de um personagem do filme American Pie. Na comédia estilo besteirol que dá destaque para mulheres de seios de fora em detrimento de um bom roteiro, Stifler é o personagem principal, interpretado pelo caricato Seann William Scott, sujeito meio abobalhado que vive “zoando com os amigos”. Por que alguém escolheria justamente o pseudônimo de Stifler para emitir uma opinião? Justamente porque a opinião em questão é abobalhada e reafirma velhos preconceitos, tal qual a franquia de filmes norte-americana. Esconder-se atrás de personagens para postar todo o tipo de asneira é justamente uma das características mais marcantes dos juízes da internet.

Já faz algum tempo que eu tento não ler a seção de comentários dos portais de notícias. É difícil encontrar um comentário positivo, elogiando o texto do repórter ou a iniciativa da empresa em apurar a pauta. Via de regra, quem vai para a seção de comentários de uma matéria vai para brigar, propagar o ódio ou, no jargão cibernético, “tretear”. Mesmo não querendo ler, às vezes meu dedo arrasta demais a tela para baixo e os olhos sangram com a quantidade de barbaridades que alguém teve a capacidade de escrever. Xenofobia é tão comum na seção de comentários como carrapato em cachorro de periferia (olha ela aí).

 

 

jr-funeraria

 

 

 

 

 

 

 

“Jr Funilaria” também comentou sobre a matéria da possível sonegação de impostos da banda Aviões do Forró. O Nordeste é, com toda a certeza, a região do país que mais sofre com a xenofobia, mas está longe de ser a única. Atentem para esta matéria sobre um banheiro químico que voou em Santa Catarina com o vendaval:

 

reprodução g1

Reprodução G1

 

 

 

 

 

 

 

 

A matéria rendeu, em pouco mais de cinco horas no ar, mais de 100 comentários como o da Fernanda:

 

sul

 

 

 

 

 

 

 

Fernanda, acredito que a ideia de separação do Sul deve ser discutida sim, nas redes sociais, nos espaços públicos, seja onde for! Mas tu não achas que a matéria sobre vasos sanitários portáteis voadores seja um péssimo lugar para essa discussão? O comentário de Fernanda foi rejeitado 93 vezes pelos internautas e, nos comentários dos comentários – o senhor tem 140 caracteres para tréplica, senhor candidato -, os internautas discutiram ferrenhamente o tema abordado por Fernanda. Pelo menos ela usou, aparentemente, o próprio perfil para expor suas opiniões.

Eu poderia ficar aqui horas e horas e mais horas mostrando os prints dos portais de notícias e seus comentários preconceituosos, mas vou poupar os olhos dos leitores. Até porque todas as pessoas que possuem um perfil no Facebook sabem exatamente do que eu estou falando. É impressionante a nossa euforia por comentar e opinar sobre qualquer assunto que rola na nossa timeline. Eu não sei o que vocês faziam antes da internet, mas a “geração touch screen” está passando dos limites.

Um pouco antes das Olimpíadas, ouvi uma conversa no ponto de ônibus que me fez refletir muito sobre tudo o que anda acontecendo, inclusive sobre este texto. A mulher conversava com outro passageiro sobre a ex-presidenta Dilma e como ela era “culpada por toda a falcatrua do país”. O que me chamou a atenção foi a raiva com que ela falava sobre aquilo. Ódio. No olhar, no tom de voz, nas palavras. O ódio dela era tamanho que, embora eu não seja esotérico ou supersticioso, senti a energia do ambiente cair. Ela falava que os terroristas deveriam atacar o Rio de Janeiro durante os Jogos e “matar meia dúzia de pessoas” para que o mundo percebesse o caos que o nosso país está. Tá, ok, mas e essas seis pessoas que morreriam? E as famílias dessas seis pessoas? E se um dos seis fosse um parente? Um amigo? A gente anda muito sem noção no que fala, e a internet é a grande culpada por isso. O que me assusta, de verdade, é perceber alguns excessos fora dela. Quando os caracteres saem da tela e viram ações. Más ações.

Andamos muito chatos nas redes sociais, nos comentários dos sites e nas paradas de ônibus. Nossas frases estão cada vez mais maldosas. Sabemos que a justiça é falha e, por isso, nos escondemos atrás de perfis fakes para falar besteiras. Ah, é tão chato ver tudo isso. Será que essas pessoas estão beijando na boca? Bebendo uma cerveja na beira da praia ou tomando um vinho em volta da lareira? Abraçando os filhos antes de dormir? Será que sobra tempo para assistir a um bom filme? Uma peça de teatro? Ler um livro? Será que os comentaristas de Facebook, os juízes de matérias do G1, conseguem encontrar tempo para cuidar da própria vida? Estão rindo o suficiente, transando o bastante? Sendo felizes o quanto precisam? Será que todo esse ódio não poderia ser canalizado em amor? Em sentimentos bons? Enquanto as pessoas não aprenderem a usar os espaços para o bem, prefiro fazer como o Cícero e não comentar. Não estou a fim.

 

naoestouafim

Lida 1041 vezes

Comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Por favor resolva a equação * Time limit is exhausted. Please reload the CAPTCHA.