Esporte

OPINIÃO: O desacerto que deu certo

Falta de acordo com Rede Globo levou dupla Atletiba a transmitir clássico pelas redes sociais e pode provocar uma mudança de comportamento - nos clubes e nos torcedores

O dia 1º de março deste ano representou muito mais que a 370ª edição do clássico Atletiba – um dos principais do Brasil. Atlético Paranaense e Coritiba estiveram envolvidos diretamente na primeira transmissão ao vivo, via sites de redes sociais, de um jogo válido pela primeira divisão do futebol brasileiro.

E este fenômeno, ainda incipiente no Brasil, me interessa de uma maneira bem pessoal: meu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) tratou de como o Facebook Live – ferramenta de streaming deste site de rede social – está sendo utilizado por veículos de comunicação para produção de conteúdo jornalístico.

Estamos em um caminho sem volta. No Brasil, em 2016, já éramos mais de 93 milhões de usuários de redes sociais, segundo a agência eMarketer. Só o Facebook registra quase 100 milhões de contas brasileiras. E ao que tudo indica o futebol, e outros esportes, estão vislumbrando neste caminho uma alternativa para garantir mais visibilidade às suas atividades.

Mas antes de avançarmos, precisamos entender o porquê deste momento ser tão significativo. Há mais de 20 anos a Rede Globo de Televisão detém os direitos de transmissão dos campeonatos estaduais de futebol – incluindo o Paranaense. Porém, em 2017, a dupla da capital não chegou a um acordo com a emissora e com a Federação Estadual, pois considerou os valores abaixo do almejado. Dessa forma, Atlético e Coritiba não têm seus jogos transmitidos em televisão aberta. Os valores pagos aos clubes paranaenses são os mais baixos da história em relação aos principais estaduais do Brasil.

campeonato_estadual_2017_cota_de_tv_560_6

Marcado inicialmente para o dia 20 de fevereiro, o clássico não chegou a ser realizado, pois a Federação Paranaense de Futebol (FPF) impediu o início da partida, alegando que os profissionais de imprensa indicados pelas equipes para a transmissão da partida não estavam devidamente credenciados. Desta forma, o clássico foi remarcado para o dia 1º de março, e novamente com transmissão pelas redes sociais.
A transmissão via streaming não chega a ser uma novidade, e neste momento ganha ainda mais força no Brasil e no exterior. A Liga Espanhola de Futebol, uma das mais poderosas do mundo e que têm estrelas como Messi, Neymar e Cristiano Ronaldo, anunciou em fevereiro que pretende transmitir os jogos das sextas-feiras em suas páginas oficiais nas redes sociais. Recentemente, aqui no Brasil, a Confederação Brasileira de Voleibol (CBV) passou a transmitir alguns jogos da Super Liga em sua página no Facebook devido à falta de visibilidade na grade das emissoras de canais abertos e fechados.

Crédito: Do autor

(Imagem: Luiz Gustavo Schenkel, Reprodução)

Até mesmo o Circuito Brasileiro de Vôlei de Praia – modalidade esquecida pelas emissoras tradicionais – vem ganhando destaque na página da CBV, com transmissão de alguns jogos.

volei de praia

(Imagem: Luiz Gustavo Schenkel, Reprodução)

O momento nunca pareceu tão propício para um debate mais amplo sobre as formas como as pessoas estão consumindo informação e entretenimento. As maneiras “tradicionais” com as quais estivemos acostumados historicamente vêm perdendo espaço na preferência e no dia a dia das pessoas. A televisão, o rádio e especialmente o impresso estão buscando alternativas mais conectadas e integradas com as plataformas digitais: tudo isso para dialogar com o novo consumidor.

Neste cenário, até mesmo os anunciantes parecem ter entendido e identificado a “migração” do espectador para os espaços digitais e têm redirecionado grande parte de seus investimentos para o ambiente digital. E é nesse processo que enxergo uma oportunidade única de virada para os clubes de futebol e para equipes de outros esportes: a possibilidade de dialogar diretamente com seu público-alvo, sem a mediação de veículo de imprensa e ainda com a alternativa de isso ser rentável financeiramente.

O sucesso do Atletiba e desse movimento está refletido nos números: no Facebook, o jogo teve mais de 3,5 milhões de visualizações até a manhã de 2 de março – dia seguinte ao clássico . Ao todo, 2,1 milhões de pessoas assistiram à partida pelo canal do Atlético Paranaense e outras 881.00 pelo espaço do Coritiba. No YouTube, os números, no dia seguinte ao jogo, foram mais modestos: 375.000 visualizações no canal atleticano e mais de 242.000 no canal do Coritiba. Além disso, segundo dados oficiais, o jogo manteve uma audiência constante de 35 mil pessoas.

Como entusiasta do tema e consumidor assíduo de transmissões via internet, torço fortemente para que o fenômeno Atletiba não tenha sido uma exceção e que muito em breve possamos acompanhar eventos esportivos, de maneira gratuita, em qualquer lugar, e não apenas em frente à uma televisão.

Lida 742 vezes

Comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Por favor resolva a equação * Time limit is exhausted. Please reload the CAPTCHA.