Esporte

OPINIÃO: Novelletto, eterno demais

Federação Gaúcha de futebol tem o mesmo presidente há 12 anos, sem perspectivas de renovação

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Novelletto ficará 16 anos à frente da Federação Gaúcha de Futebol

Francisco Novelletto Neto. O nome é associado há tanto tempo ao cargo de presidente da Federação Gaúcha de Futebol (FGF) que você pode achar que a mesma família está no poder há três gerações. Porém, há apenas uma foto com este sobrenome na galeria de presidentes.

Desde 2004, o mesmo Novelletto ocupa a liderança do futebol no Rio Grande do Sul e não sairá antes de 2019, quando acaba o atual mandato. Isso, se não mudar de ideia e concorrer novamente. Eleito por aclamação nas quatro vezes em que concorreu, Novelletto já disse que iria se aposentar em 2015. Entretanto, após a construção de uma nova sede que “custou muitos milhões e duas internações hospitalares”, ele tem “o direito de curtir mais um mandato”. Com isso, ele completará 16 anos no cargo.

Nada impede que Novelletto se reeleja para mais um mandato. Em 11 de junho, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) realizou uma assembleia onde limitou o número de reeleição de seu presidente. No entanto, a alteração não fala nada quanto a essa regulamentação nas federações estaduais. A legislação permite também que o presidente determine o próprio salário. Porém, o cartola, que é dono da cadeia de lojas Multisom, abriu mão de receber, justificando que o salário que ele merece “a federação não pode pagar”.

As declarações de Novelletto foram dadas à série “Os Coronéis do Futebol”, da Rádio Gaúcha, que denuncia o esquema no qual as mesmas pessoas se perpetuam no poder do futebol no Brasil. O presidente afirmou na mesma entrevista que a FGF abriu mão dos repasses da CBF, apesar de constar o valor de R$ 1,245 milhões em “outras receitas” na prestação das contas da Federação. A justificativa é atribuída novamente ao patrimônio de Novelletto. Segundo ele, o ex-presidente da CBF, Ricardo Texeira, afirmou que Novelletto já era muito rico e, por isso, não precisaria dos repasses. Teria Novelletto se tornado mais importante que a própria Federação?

Ele acredita que nunca tenha tido oposição por realizar um bom trabalho à frente da Federação Gaúcha e afirma que a oposição nunca foi proibida. Porém, Novelletto prefere omitir que ir contra sua gestão é reunir forças para uma revolução suicida. Afinal, como correr o risco de perder o apoio da Federação ao se opor a Novelletto, que detém a maioria dos votos de outros clubes, que se mantém omissos provavelmente pelo mesmo motivo? Nem mesmo o Grêmio ousou realizar tal feito. O clube tricolor se limitou a demonstrar a sua insatisfação não assinando a chapa que elegeu Novelletto por aclamação em 2015.

Por que não mudar?

Como justificar a permanência de Novelletto? Um profissional que não recebe, mesmo em um cargo político, não me parece ter motivações para realizar seu trabalho. Ou talvez seja benéfico para sua empresa, a Multisom, que domina os espaços publicitários do Gauchão. As declarações e ações do presidente se contradizem. Se ele ficou estressado e doente em seu último período de gestão, por que querer mais um?

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Nova sede de luxo da Federação Gaúcha foi construída com parceria da iniciativa privada

A construção do prédio luxuoso erguido na Avenida Ipiranga, próximo à orla do Guaíba, em área nobre de Porto Alegre, irá de fato trazer negócios que beneficiem a evolução do futebol gaúcho? Ou seria apenas para ele apresentar um símbolo concreto de sua gestão e servir a interesses comerciais da parceria com Capemisa/Aplub, que propiciou a construção do prédio e irá explorar a fachada com publicidade por 15 anos, além de ser a seguradora exclusiva em todos os jogos disputados no Rio Grande do Sul?

O cenário de perpetuação do poder na federação gaúcha se repete em vários estados. A lógica é simples, os presidentes das federações estaduais elegem o presidente da CBF. Se eles forem sempre os mesmos, a cadeia do poder se torna cíclica e permite a eles que façam o quiserem com o futebol brasileiro. O resultado, são escândalos de corrupção que envolvem os últimos três presidentes da CBF, dois deles, Ricardo Teixeira e José Maria Marin, foram presos no exterior. O mais estranho nisso tudo é que os clubes deixam que as coisas continuem como estão; do contrário, se mobilizariam para montar chapas de oposição e quebrar a dinastia que rege o futebol.

Mudanças no Campeonato Gaúcho

Seria mentira dizer que nada mudou no futebol gaúcho durante a gestão Novelletto, o que não significa que tenham sido mudanças construtivas. Em 12 anos, o Gauchão não consolidou uma forma de disputa. Entre 2002 e 2008, o estadual foi decidido em uma série de variações que se resumem numa fase eliminatória, com semifinais e final em jogos de ida-e-volta.

Em 2009, o Campeonato Gaúcho adotou o sistema carioca de duas “taças” independentes, cada uma delas decidida de forma eliminatória, após uma fase de dois grupos, e uma decisão final em ida-e-volta se houver dois vencedores. Em 2014, devido à disputa da Copa do Mundo no Brasil, o formato com dois turnos foi deixado de lado, mas o sistema de dois grupos com eliminatórias foi mantido. Já no ano seguinte, houve uma nova mudança: em vez de dois grupos, apenas um, com todas as equipes. Tantas alterações impedem que o campeonato cresça e atraia mais público e, consequentemente, mais patrocinadores.

Com o possível crescimento da Primeira Liga, a fórmula de disputa deve mudar mais uma vez. A dupla Gre-Nal entraria apenas na fase final, para poder disputar mais jogos da competição nacional. Resta saber se os clubes irão mesmo abrir mão dos R$ 7,5 milhões que cada um recebe e se essa verba proveniente dos direitos de transmissão do campeonato será mesmo repassada aos clubes do interior.

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