Política

OPINIÃO: Impeachment demonstra mazelas políticas

Agosto, que por vezes se revela amargo neste nosso falho sistema presidencialista, aparece mais uma vez na história da nossa política

No ano de 2016 se chegou ao capítulo final do processo de impeachment. Após uma reeleição conturbada e vencida por uma pequena margem de votos, Dilma Rousseff não teve sossego algum para comandar o país, neste que deveria ser seu segundo mandato.

Coalizão com partidos de origens diversas e a entrega da Comissão dos Direitos Humanos ao deputado federal Marco Feliciano foram duas das atitudes tomadas pelo governo para manter a tão sonhada governabilidade. Não funcionou. Eles queriam mais, queriam o cargo que ela havia sido eleita para exercer. Queriam eles tomar as medidas necessárias para que o grande empresariado brasileiro conseguisse aumentar sua lucratividade.

Durante o oitavo mês do calendário gregoriano, já ocorreram ao menos três rupturas de governos. Todos de maneira melancólica, com um precedente político de alto risco nacional. O primeiro ator da trilogia é Getúlio Vargas, que com uma bala no peito, encerrou uma longa crise política que enfrentava, essa tendo como representantes Afonso Arinos e Carlos Lacerda. Sete anos mais tarde, no dia 25 de agosto de 1961, o então presidente eleito Jânio Quadros, renuncia ao mais alto cargo da nação, gerando um enorme transtorno para o seu sucessor natural, João Goulart.

Pois bem, seis décadas se passaram desde tais acontecimentos. O Brasil passou por uma rigorosa ditadura militar. A política nacional passou várias reviravoltas, mas o agosto e seus traumas continuam agindo. Desta vez, tudo foi feito aos olhos da população. Aliás, ela apoiou em grande parte tudo aquilo que está acontecendo. Desencontros estruturais e falta de um empenho em melhorar o sistema político por parte da esquerda (ou ex-esquerda) contribuíram de maneira preponderante para o impeachment.

Dilma se colocou à disposição para tomar algumas medidas, as menos amargas. Mas não, eles não confiariam este papel a quem sempre construiu programas sociais e tentou diminuir a desigualdade. Isso é imperdoável. O que a oposição precisava era um motivo para que a destituição acontecesse. Tentou-se anular o resultado da eleição. Não conseguiram.

____

Parte do muro que foi utilizado na esplanada dos ministérios para separar apoiadores e opositores do impeachment. Fonte: Agência Brasil

Parte do muro que foi utilizado na esplanada dos ministérios para separar apoiadores e opositores do impeachment. Fonte: Elza Fiúza/Agência Brasil

____

“A partir de agora vai ser difícil permanecer em um cargo executivo sem fazer muitas negociações com o legislativo”

Eis que surge uma brecha: Dilma fez uma operação de crédito nos bancos públicos, afim de manter os programas sociais e criar uma cortina de fumaça na situação econômica do país. Além disso, casos de corrupção envolvendo integrantes do governo (aqueles mesmos que serviriam para manter a governabilidade) alardearam ainda mais aqueles que gritavam por fim da corrupção.

Mas no meio disso tudo havia um grave problema:  sob o ponto de vista jurídico, tomar créditos de bancos públicos não se configura como crime de responsabilidade. Isso não é apenas a opinião de alguém que discorda de todo o processo. Isso é o que o Ministério Público do Distrito Federal concluiu.

É inegável que o momento vivido é fruto de algumas falhas anteriores. Também não podemos negar que abrirá um precedente preocupante para o futuro do  Brasil. Segundo Sirlei Gedoz, doutora em história pela PUCRS, os cargos executivos serão marcados ainda mais por negociatas com o poder legislativo, afim de manter uma certa capacidade de poder.

“Esse processo abriu um precedente perigosíssimo para a sequencia dos mandatos executivos. Aquele prefeito, governador ou presidente que não conseguir barganhar o legislado, correrá um grande risco no seu cargo”, afirma.

Sobre os erros cometidos pelo PT durante 14 anos de governo, Sirlei diz que um dos mais graves foi o fato de que as políticas de governo não foram transformadas em políticas de estado. Segundo ela, isso ocorreu para que se pudesse ter uma capacidade maior de barganha. Outro ponto citado pela doutora é o fato de não haver uma fomentação maior aos meios de comunicação alternativos, como rádios comunitárias. Ela afirma que isso propiciou o fato de o jornalismo brasileiro ficasse na mão de poucos.

____

Painel do Senado no último dia 31, mostrando o resultado final do processo. Fonte: Agência Brasil.

Painel do Senado no último dia 31, mostrando o resultado final do processo.  Fonte: Agência Brasil.

____

Discurso autoritário preocupa

Na noite do dia 31, após ser empossado como Presidente, Michel Temer fez um pronunciamento de cinco minutos em cadeia de rádio e TV. Na fala, Temer afirma que tomará medidas para recuperar o Brasil da crise. Cita o fato de que o brasileiro está sempre disposto a acordar cedo e ir dormir tarde (seria um aviso de aumento de jornada de trabalho?) e diz que reformas na previdência deverão ser feitas. “Um sistema que proteja os idosos e não puna os mais jovens”, disse ele.

Sob o ponto de vista da doutora em história, a fala de Temer é ameaçadora, pois demonstra um claro autoritarismo, como quem fala de forma acima de todos os poderes. Para Sirlei, o objetivo sob o aspecto de política internacional será concretizado agora. A pretensão seria deixar de se relacionar com os países do Mercosul e voltar a atender os desejos dos Estados Unidos, no que é chamado “verticalização da economia”.

De agora em diante, o caminho que o Brasil percorrerá  ainda é desconhecido. Porém, se não tomarmos muito cuidado, o ostracismo da nossa sociedade poderá se converter em rotina novamente.

Lida 629 vezes

Comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Por favor resolva a equação * Time limit is exhausted. Please reload the CAPTCHA.