Economia

OPINIÃO: Formação de cartel online

Você quer comprar um produto pela internet e começa a buscar preços no Google. Minutos depois, seu Facebook começa a oferecer justamente o que você estava procurando, com promoções e preços extremamente acessíveis. Sim, Mark Zuckerberg está querendo lhe ajudar a comprar sua nova geladeira, ar condicionado ou jogo de videogame, mas não se iluda, ele não é seu amigo. Estima-se que a receita gerada pelo Facebook através de anúncios ultrapasse a marca de U$ 1,2 bilhão ao ano, segundo consultoria recente de uma empresa especializada norte-americana.

Mas como o Face sabe que você quer comprar aquele forno vermelho com bandeja inox antiaderente e tampa transparente que você achou lindo procurando no Google no dia anterior? Essa mágica tem nome: cookies (e estes você não coloca no forno). Em uma explicação bastante reduzida, um cookie é um arquivo de texto gerado quando você entra em um site. Ele armazena informações como localização, o idioma que você está navegando, cores, resolução do seu navegador, nomes de usuários, lembretes de senha, enfim.

Quando você visita um site pela primeira vez, ele gera um cookie com as suas preferências e armazena esse arquivo. Dessa forma, se você voltar ao site algum outro dia, ele vai “lembrar” de você. Mas não se engane, cookies vão muito além disso. Hoje, sua principal função na Internet é geração de renda! Sim, eles podem valer muito se forem bem utilizados. O Google foi o primeiro site a usar a ferramenta para direcionar anúncios. Em 2013, o Facebook revolucionou o mercado digital ao fornecer o mesmo serviço para qualquer usuário. Com ele, você pode anunciar um produto diretamente para o seu público alvo, sem perder tempo (e dinheiro) com aquelas pessoas que seriam atingidas mas que não fariam parte do seu target (se você fizesse uma panfletagem ou anúncio em jornal, por exemplo).

Diante dessa realidade as maiores empresas do mundo passaram a estudar cookies – dentre elas, companhias aéreas. Semana passada acessei o site da Aerolíneas Argentinas para procurar o trecho Buenos Aires – Porto Alegre. Minha primeira visita foi apenas para fazer pesquisa de preço: R$ 700, ida e volta. Além da Aerolíneas, busquei o mesmo voo na Gol e na TAM. Após verificar todas as alternativas, fechei o navegador e, cerca de duas horas depois do primeiro acesso, voltei ao site da companhia argentina, onde eu tinha encontrado o preço mais interessante. A mesma passagem estava custando R$ 900, e o pior, as opções no site da TAM e da Gol também tinham subido. Evidentemente fiquei muito descontente e também um tanto desconfiado. Como um preço pode variar desta maneira em um intervalo de 120 minutos? E variar em todos os sites? Estranho, não?

Liguei para o call center da Aerolíneas e a atendente me explicou que os preços podem variar a qualquer momento, sem prévio aviso. Perguntei se existia alguma lógica para a tabulação dos preços e ela não soube explicar. Fui para o Google e encontrei uma discussão em um fórum chamado HangarNet (veja aqui: http://forum.hangarnet.com.br/index.php?showtopic=139148). Nele, os usuários relatavam que limpando os cookies do computador ou navegando em modo anônimo as passagens poderiam custar menos.

Segui os passos orientados pelos usuários, limpei todo o meu histórico de navegação, reiniciei o computador e entrei no Google Chrome no modo anônimo. Entrei diretamente no site da Aerolíneas e para a minha surpresa (e raiva por quase ter me atirado no primeiro preço) a passagem tinha voltado a custar R$ 700. Seria mera coincidência devido à tal variação de preços, conforme me “explicou” a atendente, ou realmente os cookies me estavam cobrando “comissão”? Muito estranho. Em menos de seis horas (entre o primeiro acesso e a finalização da compra), o preço variou R$ 200.

Não existe um órgão fiscalizador de uso de cookies. As empresas podem usar nossas informações como bem entenderem. Para um comprar um eletrodoméstico isso pode até ser bom: as diversas lojas do varejo podem batalhar pelo cliente, oferecendo um melhor preço. Agora, para um mercado tão fechado quanto o aéreo, onde as opções se limitam a quatro empresas (no caso de voos internos no Brasil), essa prática pode ser extremamente perigosa (e desagradável para o cliente). Todas sobem o preço ao mesmo tempo a partir do momento em que sabem que você quer viajar. A tecnologia pode ser controversa por invadir a “privacidade” do usuário – se é que existe privacidade na internet –, no entanto é impossível não admitir que se trata de algo extremamente eficaz e inteligente: formação de cartel online.

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