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OPINIÃO: Faz tempo que não vejo a Força Nacional

Mesmo com a Força Nacional, violência segue assustando no RS.

Todos os dias lemos, ouvimos e assistimos notícias de pessoas que foram encontradas mortas, de trocas de tiros entre policiais e bandidos, de prisões por conta do tráfico de drogas. “Mais um crime em um dia cheio de crimes”, no qual nós podemos nos tornar a próxima vítima. Aliás, já se pode afirmar que boa parte da população já foi ou conhece alguém que alguma vez sofreu com a criminalidade que nos rodeia.

Uma campanha já foi criada. A força nacional já foi chamada. Três meses se passaram e seguimos vendo diariamente as editorias policiais cheias de fatos novos a serem explorados. Segundo dados da Secretaria de Segurança Pública do Rio Grande do Sul, no primeiro semestre de 2016, 81.059 mil furtos foram realizados aqui no Estado. Foram 81 mil vezes que um bandido levou algo que não lhe pertencia, 81 mil vítimas que terão que correr atrás para recuperar um bem que lhes foi levado por culpa de um governo que não consegue oferecer nem o básico à sua população: a segurança.

Não bastasse isso, 89 famílias ficaram menores em 2016. 89 vidas foram perdidas em latrocínios – roubo seguido de morte. 89 pessoas que a criminalidade não poupou no primeiro semestre deste ano.

Ainda entre os dados deste primeiro semestre, pode-se incluir as 7.608 mil vítimas de estelionato, os 9.960 mil condutores que tiveram seus veículos roubados, os 44.490 mil gaúchos ou não, que foram roubados em solo gaudério e as 1.276 mil vítimas de homicídio doloso. O que dizer depois dessa enxurrada de altos números da violência? 

Força Nacional durante operação no Rio de Janeiro. (Foto: Agência Brasil)

Força Nacional durante operação no Rio de Janeiro. (Foto: Agência Brasil)

Há quem defenda que reagir à violência seria o melhor caminho. Não, essa não é a melhor opção. Aliás, não é algo que se deva cogitar.  Em um pensamento lógico, reagir é ter menos chances de sobreviver, menos chances de sair bem de uma situação de extrema tensão entre você e o criminoso. Basta um segundo de insegurança para que ele dispare a arma, empurre a faca, machuque você. E sim, falo por experiência própria, pois já fui assaltado a mão armada mais de uma vez. Eu compreendi vivendo na pele o trauma que é sentir-se impotente em meio a algo completamente inesperado e que gera um profundo sentimento de ódio e raiva dos criminosos, da polícia que não estava por perto, dos governantes.

E aí nesses momentos nos perguntamos: por que ninguém faz nada sobre a violência? E a única resposta que me veio a mente até hoje é a de que é difícil resolver um problema tão grande quanto esse quando você só o relaciona ao setor de segurança. Eu não acuso apenas os responsáveis pela segurança de se omitirem quando se fala em violência. Essa conta tem que ser dividida, bem dividida, e acrescentada a outros fatores. A educação é um deles. A falta de investimentos em educação, a precariedade das estruturas escolares públicas, as baixas remunerações concedidas aos professores, são exemplos daquilo que deixam as crianças a margem, sem vislumbrar um futuro em que seja possível viver com condições básicas de vida.

A corrupção se encaixa bem nessa história. E corrupção não se trata apenas de política, mas de pequenas ações que as pessoas cometem às vezes, pensando na solução rápida, fácil. Comprar um produto roubado, usar substâncias ilícitas, essas ações, por menores que sejam, incentivam o tráfico, a criminalidade.

É por isso que quando vemos ações como o chamado da Força Nacional ao Estado, medida emergencial após a morte de Cristine Fonseca Fagundes, 44 anos, uma mãe que buscava seus filhos na escola e que sem reagir foi atingida por disparos na cabeça, é que devemos desatar as mãos e fazer aquilo que nos cabe: fiscalizar. Os números da criminalidade ficam disponíveis a qualquer cidadão, é necessário apenas buscar por eles.

A Força Nacional chegou ao Estado no dia 28 de agosto de 2016. Começou sua atuação no dia 29 e, três meses depois, pouco podemos dizer que vimos dessa medida paliativa para nos aliviar, um pouco, da violência. Há bastante tempo realizo o trajeto entre Canoas, Porto Alegre e São Leopoldo quase que diariamente. E posso dizer que vi estes agentes apenas em três ocasiões: voltando do trabalho, ao meio dia – bem próximo de um importante grupo de comunicação gaúcho, trafegando na BR-448 e trafegando na BR-116. Sempre em ocasiões muito pontuais, logo nas três primeiras semanas deste reforço policial nas ruas. Sei que muitas pessoas também viram, mas sei também que a violência segue crescendo, que quem deveria estar ciente desses números – a população – não está tão por dentro assim e que, de todas as medidas tomadas até agora, essa é uma das mais ilusórias de todas. Mascara a violência que segue acontecendo, não a modifica na raiz da questão.

Não acredito que seja a Força Nacional a solução que tanto necessitamos. Ela é, sim, importante. Mas é temporária. Assim que ela se for, estaremos novamente à mercê de nos tornarmos a próxima vítima. O que realmente precisamos é de mais educação, de mais saúde, mais cultura,  de mais condições de viver dignamente. Talvez, se conseguirmos combater a corrupção que vem de dentro da própria sociedade, se conseguirmos ter salários melhores para os servidores da segurança, da educação, da saúde, consigamos reduzir os índices quando o tema é violência.

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