Política

OPINIÃO: Diferenças narrativas de veículos alternativos sobre o impeachment

Em um momento de instabilidade política, econômica e social, o posicionamento das mídias, transparecido através de seus discursos e abordagens, é capaz de moldar o imaginário social e direcionar o pensamento coletivo em determinado sentido. No histórico dia 17 de abril de 2016, uma votação performática na Câmara dos Deputados deu prosseguimento ao processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff.

Nesse contexto, é preciso refletir acerca das narrativas produzidas pelos veículos informativos, das motivações de determinadas manifestações, por exemplo, serem exaustivamente noticiadas e repercutidas, e outras simplesmente não acontecerem midiaticamente. Porém, as revoluções tecnológicas têm proporcionado múltiplas opções de consumo, ofertadas principalmente através da internet, possibilitando que informações e abordagens renegadas pelos grandes meios cheguem à população.

Como avalia Francisco Karam, em seu livro “Jornalismo, ética e liberdade”: “O jornalismo trabalha com valores e significados contraditórios. Expressa-se em uma ou outra direção, dependendo do profissional que executa determinada pauta, da estrutura de controle informativo de um meio, dos critérios de noticiabilidade e de vários outros fatores […]”. Dessa forma, é preciso que todos tenham consciência de que as mídias produzem seus enredos, na grande maioria dos casos, principalmente quando a pauta é política, de acordo com interesses empresariais, econômicos e, talvez principalmente, políticos.

No domingo (17) em que se aprovou a continuidade do processo de impeachment na Câmara, acompanhamos três fontes de informação que circulam fora do espectro dos oligopólios midiáticos do país: Brasil de Fato, Jornalistas Livres e Mídia Ninja.

Começamos pelo site noticioso Brasil de Fato. É notável o uso da palavra golpe para descrever o processo de impeachment, evidenciando seu direcionamento político. Na capa principal do site, foram destacadas as manifestações populares em apoio à manutenção do governo vigente, além de opiniões de especialistas sobre o processo e também fotos sobre as diversas manifestações a respeito do tema pelo Brasil. A linguagem e abordagem das reportagens demonstra claramente o posicionamento do veículo: a favor da manutenção do governo.

O site Jornalistas Livres trazia 32 matérias em sua capa que abordavam o processo de impedimento de Dilma Rousseff. Também usava a palavra golpe para descrever o processo de impeachment. Trazia várias reportagens sobre as manifestações em diferentes locais do país e relatos de pessoas envolvidas nelas, dando destaque para a pluralidade dos discursos, concedendo voz  aos militantes de diversos movimentos sociais. Também é evidente o posicionamento do veículo: claramente a  favor da continuidade do governo.

O coletivo Mídia Ninja, uma rede de comunicadores que trabalham de forma colaborativa, também teve uma abordagem claramente anti-impeachment. Trazia imagens, vídeos e relatos dos protestos a favor da manutenção do governo, em várias partes do Brasil e do mundo.

Levando-se em consideração essa amostra, é possível perceber o abismo de discursos praticados por meios alternativos e meios convencionais. Nota-se que as narrativas pró e contra impeachment basicamente se dividem entre os que defendem o afastamento da presidente nos grandes meios e os que pedem a manutenção do governo nos veículos alternativos. Essa polaridade demonstra a situação da mídia deste país e os interesses que defendem.

Em tese, todos os meios deveriam trazer o máximo de fontes e prezar pela diversidade de aspectos a serem abordados, fomentando a discussão e reflexão dos sujeitos comunicantes, que atualmente não agem apenas como receptores. Nesse contexto é possível perceber que os meios alternativos funcionam como um contrapeso na balança midiática, trazendo à tona assuntos que geralmente são marginalizados nos grandes veículos, mesmo sem ter as mesmas condições estruturais e financeiras que seus gigantes rivais possuem.

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