Política

OPINIÃO: Um Deus Branco e um futuro obscuro

Foto: Magnolia Pictures


Quando ouvi falar sobre Deus Branco (
Fehér isten) pela primeira vez, em uma pequena nota em algum site sobre cinema, me convenci de que era o tipo de filme obrigatório diante da realidade atual. Premiada em Cannes, a metafórica história de um cão liderando uma revolta contra seres humanos na Hungria é por demais atraente em um cenário em que imigrantes são combatidos e tratados como animais – ou menos que isso.

O diretor, Kornél Mundruczó, confessou em entrevistas que os cães representam os grupos minoritários, sempre vítimas de uma sociedade que se considera superior. No longa, o cão Hagen é abandonado pelo pai de sua dona, que não quer pagar uma taxa pela presença de animais mestiços no apartamento. Ele passa a viver na rua, onde encontra outros animais em situação semelhante e é caçado pela “carrocinha” húngara. Hagen passa por um sem número de dificuldades – incluindo ser alvo de um treinamento forçado para participar de lutas em que cães se enfrentam até a morte – que o levam a se revoltar contra os humanos e liderar outros cães em sua revolução.

Aliás, é disso que o filme trata em sua essência: revolução. A primeira nota é dada quando Hagen entra com sua dona na sala da banda da escola, onde é recebido por um trompete que ensaia a Internacional Socialista. O hino, que clama na letra por uma terra sem senhores, dá o tom da revolta que o futuro reserva ao personagem canino. Abandonado e usado por pessoas a quem estava acostumado a amar, respeitar e servir, ele acaba por reunir seus iguais em um ataque pontual contra aqueles humanos que o maltrataram. E, aqui, o ataque é real. O filme chega ao momento mais sombrio quando a matilha de Hagen toma as ruas de Budapeste caçando os personagens que fizeram mal ao cão mestiço. Os 250 cães de abrigos que foram treinados especialmente para a produção – e posteriormente adotados – travam uma verdadeira batalha em cena, sendo contidos pelas forças policiais da mesma forma que vemos os manifestantes de diversas partes do mundo nos noticiários.

A particularidade dos cães (todos mestiços) deixa ainda mais clara a crítica. São os cães que não servem para colos de madames ou exposições. São os que se criam nas ruas e fogem da equipe do controle de animais, que representa o cruel destino de perder a liberdade e até a vida. São a sombra dos deslocados; aqueles que, se representados por humanos, seriam os que não seguem o padrão étnico ou social vigente.

Indo além da ótica da injustiça social contra as minorias, na relação política homem x homem, é explícita a crítica homem x natureza. O pensamento humano é retratado com fidelidade: é visível, através dos atos, notar o homem se colocando como a grande estrela de um universo em que os outros seres são apenas pequenos planetas orbitantes. A primeira cena já deixa claro o tratamento reservado aos outros animais, mostrando o pai da dona de Hagen acompanhando o corte de carnes bovinas – com uma máquina que desmembra o boi inteiro – em um frigorífico. O próprio Deus Branco do título faz essa menção. A expressão foi tirada do livro sul-africano “Desgraça”, de J. M. Coetzee, ganhador do Nobel de Literatura. Na história, o Deus Branco é o ser humano visto sob a perspectiva dos cães, que o veem e amam como se fossem um deus.

A crítica do longa pode não ser sutil – ao menos para quem já leu sobre e absorveu a ideia antes de assisti-lo -, mas dá um tom de esperança no final, em uma cena que coloca cães e humanos frente a frente, como iguais. A tristeza que fica é a dificuldade de enxergar essa igualdade fora das telas, em um futuro cada vez mais nebuloso. Em meio a notícias de ataques a refugiados em diversas partes do globo – inclusive no Brasil – e o empenho de governantes em dificultar ainda mais nosso acesso a direitos básicos – como no caso do atendimento para vítimas de estupro, que gerou polêmica nas redes recentemente -, nos resta lembrar a lição de Hagen: é preciso nos unir. Essas minorias, juntas, têm mais poder do que o Deus Branco que ainda rege o mundo. Falta apenas a revolução.

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