Esporte

OPINIÃO: Chape, a tragédia que se viu

Informações desencontratas e falta de apuração marcaram a cobertura da imprensa

Para quem acompanha futebol, a data de  29 de novembro de 2016, uma terça-feira, vai ficar marcada como o dia mais triste para o esporte nacional. Enquanto os torcedores da Associação Chapecoense de Futebol sonhavam com o título da Copa Sul-Americana de 2016, o sonho dos jogadores terminava na travessia dos céus da Colômbia, e junto com eles se foram muitos profissionais da imprensa que lá estavam para registrar a conquista do título continental.

A negligência é a hipótese mais plausível, mas o que se tem certeza é que 71 pessoas morreram. Ainda é necessário tempo para que isso seja realmente descoberto. O que provocou a perda de tantas vidas? O que fica nesse momento é a consternação. Até quem não gosta de futebol sentiu um nó na garganta diante da imagem dos 50 caixões perfilados no gramado da Arena Condá, em Chapecó.

Em meio às demonstrações de solidariedade aos brasileiros, a do adversário da Chapecoense na final, o Clube Atlético Nacional de Medellín, foi sem dúvida a mais tocante. Além de abrir mão do título da Copa Sul-Americana para a equipe catarinense, levou mais de 40 mil pessoas ao estádio Atanasio Girardot no momento em que o jogo aconteceria, quando todos vestiram branco e carregaram flores e velas homenageando a vida de quem partiu.

Mas se os gestos de amor pelos que se foram e a solidariedade pelos que ficaram com a dor da perda foram tão belos e sensíveis, não se pode afirmar o mesmo sobre a cobertura feita pela imprensa nacional. Diante da crise, a atuação da imprensa foi uma grande desorganização: exposição dos familiares, informações desencontradas e desmentidos circularam no noticiário nacional.

Ainda na madrugada do dia 29 de novembro começaram a ser divulgadas as primeiras notícias. As autoridades colombianas não tinham muitas informações, e os veículos brasileiros não tinham equipes no local para apurar os boatos que foram surgindo nas redes. O que se viu foram fatos desencontrados divulgados sem qualquer apuração. Era o noticiário dado sem a mínima confirmação, ainda que acompanhado da frase “informações ainda não confirmadas”. Durante um dia inteiro foi um desencontro contínuo. Ainda pela manhã, o número de sobrevivente e mortos mudou inúmeras vezes, levando em conta que as autoridades ainda não haviam sequer terminado as buscas, tanto que o último sobrevivente foi encontrado já no fim das operações de resgate dos corpos. O goleiro Danilo Padilha esteve morto e voltou à vida várias vezes – fontes oficiais se contradiziam, sendo esse apenas um dos aspectos negativos.

Depois de confirmados os nomes dos sobreviventes, começaram as especulações sobre o estado de saúde deles, sem boletins médicos divulgados, ainda com as buscas acontecendo no local do acidente. É evidente que o fato pegou de surpresa todos os veículos de comunicação e que o envolvimento de um time de futebol inteiro elevou ainda mais a importância do que aconteceu, já que este é o país do futebol e o esporte estava em luto. A tragédia da Chapecoense é a maior da história envolvendo um clube esportivo e isso já torna o fato relevante perante o mundo todo. Mas a falta de cuidado na divulgação de informações e de imagens que envolviam vidas tornou a espera dos familiares e amigos mais dura. A divulgação de algo apenas para ter o que divulgar foi o que mais se viu. O profissionalismo deu lugar ao desespero por informações, que, mesmo incorretas ou sem confirmação, foram propagadas como verdades.

A tragédia ainda não chegou ao fim e vai demorar. A lição que fica disso tudo é que os limites foram ultrapassados na busca pela informação. Precisam haver parâmetros éticos quando se trata de vidas ou, nesse caso, de mortes.

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