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OPINIÃO: A Cracolândia é o mundo

Recentemente, grande parte da mídia noticiou o suposto caso de racismo envolvendo um neurocientista negro que teria sido barrado na entrada de um hotel em São Paulo. O acontecimento, que chegou a ser desmentido pelo próprio cientista – o americano Carl Hart, 48 anos -, ofuscou o mais interessante da sua visita ao Brasil: a confirmação de que a política de combate às drogas está falida no país.

Hart cresceu na periferia e foi usuário de drogas na juventude. Entretanto, seu futuro foi diferente da maioria de seus conhecidos, conseguindo acesso ao ensino superior e se tornando o primeiro neurocientista negro formado pela Universidade de Columbia. Hoje, é um dos maiores especialistas em consumo de drogas nos EUA, com pesquisas que focam no crack. Depois de anos pesquisando a droga, Hart chegou a uma polêmica conclusão, mas que faz sentido: a droga não é o principal problema, e sim o que leva a ela.

Em testes com ratos e pessoas usuárias, Hart descobriu que os efeitos devastadores do crack – como o vício na primeira tragada – não são o que pintam por aí. O vício pode ser comparado ao álcool, por exemplo. Outras informações foram desmistificadas. Para o professor, não há uma epidemia da droga, já que o número não se alastra. Os usuários não podem ser vistos como zumbis ou pessoas sem vontade própria; eles são capazes de superar o vício se tiverem oportunidade. E mais, os usuários não são incapazes de obter prazer com algo que não seja a droga. Muito pelo contrário, eles são, sim, capazes de buscar alternativas, se houver algo que os atraia.

No Brasil, a Cracolândia virou sinônimo de lar dos perdidos. A imagem trazida pela televisão é a de pessoas em processo de desumanização. São homens tornando-se animais. Tudo por causa da droga. Se a droga só é priorizada quando não há outras fontes de prazer, é fácil compreender o porquê de tantos caindo para ela. Em um país como o Brasil, em que a periferia é segregada, difícil é pensar em algo que possa rivalizar com o crack para um viciado. A desumanização acontece porque deixamos acontecer. Nós mesmos a criamos, ao virar as costas para parcela da sociedade.

Como um jovem nascido na periferia, com família ausente, sem grandes expectativas para o futuro, consegue encontrar forças para rivalizar com a única coisa capaz de lhe proporcionar prazer? Claro, Hart conseguiu, mas somente após se destacar como atleta – segundo ele, o treino diário era fugir da polícia – e conseguir a bolsa de estudos na universidade. Ele próprio garante que foi “sorte”. Sorte essa que não chega para todos. É fácil condenar sem compartilhar da vivência.

A histórica mania que nossa sociedade tem de “remediar” problemas – porque para de fato solucioná-los teria de focar na causa, e não na consequência – cria essas situações. Cria, por exemplo, uma Cracolândia como sintoma do crack e não o contrário. Porque a Cracolândia sempre esteve lá, assim como a pobreza, a falta de emprego, a ignorância e até mesmo a esquiva da própria ciência nos assuntos que dizem respeito às drogas – de acordo com Hart, dados como esses são sabidos há décadas pela ciência, que se abstém de divulgá-los devido ao financiamento das pesquisas.

Em vez de receberem alternativas, os viciados são ainda mais segregados, ou internados contra a vontade em uma forçosa e traumática tentativa de recuperação. O problema é que, nesse estado, muitos já não querem voltar – ao menos não para a antiga vida de horizonte vazio. A droga representa o conforto que não foi encontrado em nenhum outro lugar. E quando a violência gerada pelo vício alcança os níveis considerados alarmantes, não é a droga que o mundo combate, e sim o fruto do futuro que não foi capaz de garantir.

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