Esporte

Onde os fracos não têm vez

Cego e melhor ultramaratonista do mundo, o gaúcho Vladmi dos Santos percorreu 46 km na areia da Praia do Cassino sem atleta guia

Já pensou –  em um período de 30 dias – ir perdendo gradativamente a visão até o momento de escuridão total? Pois Vladmi dos Santos, 45 anos, viveu esta experiência há pouco mais de uma década.

Por medo de ouvir o que não queria, o hoje ultramaratonista adiou o encontro com o médico. O choque abrupto com a carroceria de um caminhão, enquanto corria de volta para casa, após o trabalho, deu o diagnóstico que ele tanto temia: a partir de então não veria mais a rosto da filha e nem de sua esposa.

Vladmi é casado com Márcia dos Santos e tem duas filhas: Marcela dos Santos, 21 anos, e Fernanda dos Santos, de cinco. A menor, conhece apenas pelo cheiro, pelo carinho e pela fala mansa e doce com que o trata. “Minha maior frustração é não ver o rosto da ‘Nanda’”, lamenta. E completa cheio de emoção: “Minha filha é uma gota de felicidade, que vou guardar para o resto da vida”.

Vladmi, a esposa Márcia, e as filhas Marcela e Fernanda (Crédito: Reprodução Facebook)

Vítima de uma doença degenerativa na mácula ocular, o riograndino passou a conviver com a deficiência visual em seu dia a dia. Quando começou a perceber o que estava ocorrendo, tratou logo de tentar, dentro do possível, adaptar-se à situação futura. “Comecei a escovar os dentes de olhos fechados, a andar pela casa com as luzes apagadas. E principalmente fiz questão de olhar muito para minha esposa e minha filha. Queria ter a imagem delas na minha mente”, lembra.

À primeira impressão isto representaria o fim. Até um possível estado depressivo não seria descartado. Mas não para Vladmi – que fez desse limão uma limonada. “Não tive tempo para me vitimizar. Precisava seguir como exemplo para a minha filha”, relata.

(Crédito: Reprodução Facebook)

E ele cumpriu o prometido. Vladmi acaba de bater o recorde mundial em distância, sem atleta guia, para um cego total. Foram 46 km nas areias da Praia do Cassino, no Extremo Sul do Brasil. O acompanhante para esta aventura: o som do mar. Com o apoio de sua bengala, ele tocou a água e conseguiu localizar a direção correta e enfrentar um dos locais mais inóspitos do País, que sofre com tempestades de verão e com ventos que podem ultrapassar a marca dos 80 km/h.

A prova, realizada no mês de novembro – num total de 226 km – já se colocou no radar das principais ultramaratonas do mundo. Competidores de diversos estados brasileiros e de alguns países como Portugal, Chile e Equador, estiveram na segunda edição da prova.

Sandra Costa, 42 anos, amiga de Vladmi e organizadora de provas ao redor do mundo, tem no paratleta uma inspiração: “A determinação com que ele assume as metas e a coragem que tem em ir em frente me chama a atenção. Não teme desafios e isso eu sei desde o primeiro dia que falei com ele, no ano de 2015. Rapidamente aceitou o desafio de correr na maior praia do mundo, hoje Extremo Sul Ultramarathon, e rapidamente assumiu que a faria sem guia. Não o fez para ser melhor que os outros, faz para mostrar ao mundo que é possível, com trabalho, dedicação e muita força de vontade”, conta.

A paixão de Vladmi pelo esporte vem de infância. “Sempre gostei de fazer as aulas de Educação Física na escola. Era o primeiro a puxar a corrida”, relembra. Após ser aposentado por invalidez, encontrou na sua condição a chance de trazer um novo sentido à vida. Começou então, aos poucos, a se adaptar aos treinamentos. O primeiro foi com sua filha Marcela, na época com nove anos. Por meio de uma guia acoplada ao volante de uma bicicleta, a dupla percorria, diariamente, cerca de 12 km nas ruas de Rio Grande, onde sempre moraram. Ela em cima da bicicleta e ele acompanhando, intercalando corridas e caminhadas. Com o passar do tempo e com a ajuda de amigos, Vladmi foi para a pista de corrida. Depois de centenas de voltas guiadas, estava pronto para treinar sozinho. Era o começo do futuro.

A independência de Vladmi chama atenção de quem não o conhece. Faz todas as tarefas da casa sozinho. Lava roupa, varre o chão, passa pano nos móveis. “Adoro lavar louça, me tira o estresse”, conta cheio de orgulho. Outra válvula de escape para aflições do dia a dia é o canto. Não raramente ele está cantarolando pelas ruas e corredores por onde passa. “Quando estou aflito costumo cantar para me acalmar. O pessoal reclama um pouquinho, mas faz parte do jogo”, diverte-se.

Paulo Alexandre, 49 anos, que é amigo do atleta e parceiro na organização do Extremo Sul, lembra animadamente de algumas histórias inusitadas com Vladmi: “Quando estive em Rio Grande para a Extremo Sul, o Vladmi naturalmente veio me receber, falar da sua cidade e mostrar o melhor que ela tem. Foram mais de 20 dias por Rio Grande guiados por ele. Ele me dizia ‘agora dobramos aqui; aqui é o parque, aqui a escola, ali a Polícia, aqui a loja’. Ao longo dos dias era assim que me guiava. Foi assim que conheci Rio Grande”.

Paulo e vlad 3

No ano passado, Vladmi, que agora espera a homologação do seu recorde da Extremo Sul no Guiness Book, viveu uma de suas maiores emoções: carregou a Tocha Olímpica durante a passagem por Rio Grande. “Foi sem dúvidas o dia mais feliz da minha vida”, conta. Tanto que decidiu eternizar este momento na pele. Tatuou o símbolo máximo dos Jogos Olímpicos no braço.

Desde 2005, quando começar a participar de maratonas (42 km), Vladmi coleciona mais de 50 vitórias em provas no Brasil e no exterior, com destaque para o bicampeonato na Maratona de Lisboa e para os títulos em Genebra, na Suíça, e em Trieste, na Itália. Aos 45 anos, Vladmi é um dos principais maratonistas do mundo em sua categoria, a T11, para pessoas sem nenhum grau de visão.

Porém, em 2012, Vladmi sentiu que precisava de desafios ainda maiores. Veio então a vontade de participar de Ultramaratonas – provas que desafiam os limites físicos e psicológicos dos participantes. Os 250 km percorridos em pleno deserto do Atacama, um dos mais quentes do mundo, no Chile, mudaram sua realidade. O Atacama, inclusive, é utilizado pela NASA – Agência Espacial Americana – para pesquisas sobre a vida em Marte. “Quando estou nos desertos me sinto livre, vivo e desafiado. Sou igual a todos. Penso nas minhas filhas e na minha esposa e crio coragem para seguir em frente”, conta.

Incansável, Vladmi também percorreu os desertos do Saara, no Norte da África e de Gobi, na China. Este último o mais gelado do mundo, com temperaturas na casa dos – 30°C.

Nas viagens pelo mundo, que inclui provas na África, China, Turquia e em diversos países europeus, Vladmi quase sempre tem a solidão como companhia. “É muito caro levar dois atletas para essas provas. Então quase sempre conheço meu guia pouco antes das provas. Fui obrigado a aprender a ter independência”, lamenta.

Melhor ultramaratonista do mundo entre os deficientes, Vladmi está preparado para novas emoções: agora sonha em completar o roteiro dos quatro grandes desertos do mundo. Na rota para 2017 estão o frio e a neve da Antártida e uma maratona em plena floresta Amazônica. Como ingredientes, temperaturas negativas, onças, rios com piranhas e treinamentos específicos em câmaras frias que podem chegar a -40°C: tudo isso para se tornar o único deficiente visual do mundo a cumprir essa façanha.

Vladmi no Deserto de Gobi, na China (Crédito: Divulgação)

Vladmi no Deserto de Gobi, na China (Crédito: Divulgação)

Mas Vladmi não correrá sozinho. Ao seu lado estarão todos que enxergam nele um exemplo de vida e de superação. O homem que aprendeu a ver a vida com o coração, sem rótulos e preconceitos, está disposto a mais uma vez encantar o mundo, assim como encanta quem passa pelo seu caminho.

Aos que têm o interesse de contatar o Vladmi, o endereço de email é o [email protected], para conversar, tirar dúvidas ou mesmo para interessados em patrocinar o atleta.

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