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Ombudsman: Títulos merecem mais atenção

As chamadas das matérias são determinantes para os leitores clicarem - ou não - no conteúdo

Por Ana Paula Zandoná, Bárbara Bengua, Roberto Caloni e Thais Ramirez

Foto: Flickr / Fredrik Walløe

Foto: Flickr / Fredrik Walløe

O mês de junho começou com significativas mudanças no cenário do jornalismo, quando o The New York Times, um dos veículos de maior referência mundial, anunciou o fim da função de ombudsman em sua redação. Eles alegam que darão mais voz aos leitores e aumentarão as possibilidades de interação. No Brasil, por sua vez, os profissionais encarregados dessa função não foram – pelo menos até agora – afetados.

Nós, enquanto estudantes de Comunicação, também acreditamos na necessidade de existir um jornalista crítico que traga a opinião dos leitores. E, aqui na Beta, consideramos de extrema importância conferir um olhar mais apurado frente às produções feitas pelos alunos.

Por isso, decidimos dar atenção aos títulos e linhas de apoio publicados no portal, que são muito relevantes para a produção de uma matéria e funcionam como uma “porta de entrada” para as notícias. No entanto, pela nossa experiência, percebemos que é dada pouca importância à criação deles.

A Beta Redação possui um Manual de Redação para orientar os alunos na produção de suas matérias. Nele, sugere-se:

Em títulos: não use ponto, ponto-e-vírgula, dois pontos, ponto de interrogação, ponto de exclamação, reticências, travessão, parênteses, exceto em reportagens ao estilo de revista. Quando o título tiver duas ou mais linhas, jamais divida a sílaba numa linha, dando continuidade na seguinte. Evite a reprodução literal da primeira frase do lead. Evite verbo no condicional. Use siglas em títulos, mas de forma comedida, e se for bem conhecido do público. Mas não use duas siglas num título. Os textos noticiosos devem conter verbo, de preferência na voz ativa e no presente. Em textos opinativos pode-se usar frases nominais em títulos.

Contudo, pela amostragem que analisamos – cerca de 20 títulos e linhas de apoio -, essas orientações não são seguidas à risca.

Vale destacar, ainda, algumas observações feitas pela ombudsman da Folha de S. Paulo, Vera Guimarães Martins, em relação a títulos em entrevista à TV Brasil, no programa A Voz dos Ouvidores. Ela ressalta que as chamadas não devem ser redundantes e deve-se evitar aspas, uma vez que elas serão reafirmadas no texto depois.

Além disso, é importante trazer para a discussão a ideia de que há títulos voltados ao marketing e estratégias para conseguir cliques. Fábio Porchat, também em entrevista à TV Brasil no programa A Voz dos Ouvidores, constata que é preciso ter cuidado para evitar o “click-baiting”, ou seja, os títulos “caça-cliques”, que funcionam apenas para aumentar o ibope de uma matéria.

Professor avalia o desempenho das chamadas

Coordenador do curso de Jornalismo da Unisinos e professor de Jornalismo Impresso, Edelberto Behs analisou criticamente a amostragem que lhe foi apresentada. Seguindo a linha do Manual de Redação da Beta e concordando com Vera, ele afirma: “Os títulos não devem apresentar aspas, só se for um caso muito bombástico”. O professor também acrescenta que não há necessidade de colocar pontos de exclamação, interrogação ou dois pontos, e destaca que se deve-se usar apenas vírgulas. “Porém, se for um texto mais ‘arrevistado’, esses artifícios podem ser utilizados”, reforça.

Outro ponto levantado por Behs é o fato de que, muitas vezes, o nome do veículo é citado nos títulos e/ou linhas de apoio e isso, segundo ele, deve ser evitado. O professor pontua, ainda, que as chamadas das matérias são de responsabilidade do editor. “Claro, o trabalho não é apenas do editor, mas uma de suas responsabilidades é revisar e garantir um ‘padrão’ mínimo, para que não fique uma bagunça”, pondera.

Porém, o coordenador avisa que o Manual de Redação não precisa ser visto como uma “jaula” que aprisione o jornalista, pois ele tem possibilidade, sim, de inovar.  “Pode haver criatividade mesmo com regras editorias. Elas são uma padronização, um consenso editorial”, complementa.

Com a palavra, os alunos

Questionamos os alunos de Jornalismo quanto a sua percepção crítica em relação aos títulos e linhas de apoio da Beta Redação. Confira, abaixo, a opinião deles.

“Alguns títulos atraem, mas a maioria tu nem lembra o que estava escrito dois segundos depois de ler. Quando o título não é bom, dou uma chance à linha de apoio. Se essa também for ruim, não vou nem abrir a matéria” – Verônica Torres

“Eu gosto dos títulos porque, na maior parte, eles têm a ver com a matéria. Acredito que são atrativos, pois chamam a atenção do leitor. A linha de apoio também induz à leitura” – Milena Ferreira

 “Acho que os títulos são relevantes e alguns chamam a atenção. Confesso que leio as matérias que têm um título interessante. No entanto, na minha opinião, o design da Beta poderia ser mais atrativo e um pouco mais arrojado” – Mirian Centeno

Um olhar diferenciado

Nosso grupo discutiu acerca do tema e concorda que títulos e linhas de apoio são, de fato, extremamente importantes para o sucesso de uma matéria. Portanto, devem ser pensados de forma cuidadosa e estratégica. Ou seja: eles precisam ser planejados previamente e não feitos apenas como uma forma de concluir o trabalho mais rapidamente. Inclusive, notamos que, muitas vezes, as chamadas e subtítulos repetem o que já foi trazido no lead do conteúdo – algo que deve ser evitado.

Por fim, destacamos que cada repórter possui um estilo próprio de redação, mas é imprescindível que haja mais atenção a algumas questões, especialmente à padronização. “A princípio, não observo que haja cuidado com a estrutura do título, parece que não há um consenso entre eles. Alguns têm duas linhas, outros uma, outros poucas palavras”, avalia Behs. Assim sendo, acreditamos que esse assunto deve ser discutido de maneira mais aprofundada durante as aulas da Beta e o Manual de Redação deveria estar mais presente em sala de aula.

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