Geral

Ombudsman: por que ainda não investimos na multimidialidade?

Uma análise sobre os caminhos do jornalismo e o mergulho no aprendizado

Por Alessandro Garcia, Franciele Arnold, Mariana Blauth, Priscila Boeira e Victória Silva 

O mundo conectado em rede oferece cada vez mais recursos para que histórias sejam contadas. Afinal, na internet, temos acesso a conteúdo multimídia, que nos estimulam auditiva e visualmente em uma única plataforma. Por que, então, o jornalismo resiste a esse tipo de produção, se contentando com a lógica da mídia impressa?

É o que nos perguntamos ao final da Beta Redação na editoria de Geral. Trabalhamos com um ambiente que nos permite a criatividade e o uso dos recursos midiáticos conforme suas potencialidades para informar. Apesar disso, a maioria de nossas produções se contenta com o texto ilustrado por fotografias. O que está faltando para que a lógica multimídia seja incorporada em nosso cotidiano, ou melhor, em nossas mentes?

O fato é que o jornalismo na internet ainda não atingiu todo seu potencial, pois vive em fase de experimentações e descobertas. Como estudantes, seguimos a lógica do jornalismo impresso porque a lógica digital demanda mais tempo, produção e, fundamentalmente, um exercício de pensar a informação a partir de múltiplos recursos.

Teóricos, como João Canavilhas, afirmam que essa utilização do texto como elementos principal na construção das narrativas ocorre, principalmente, em função de uma herança da imprensa escrita. Esta, segundo afirma Canavilhas, ainda é o modelo de referência do webjornalismo.

Marlise Brenol, jornalista, professora da disciplina de Editoração em Novas Mídias e Narrativas Transmidiáticas, credita à dificuldade dos jornalistas em formação em pensar multimídia a escassa produção de conteúdo utilizando outros formatos de narrativa. “Eu acho que assa é grande questão que a gente tem de trabalhar com futuros profissionais de jornalismo” analisa. Marlise aponta que o texto não é o vilão, ao contrário, “mesmo no ambiente digital, é a espinha dorsal”, citando Ramón Salaverría, um dos autores de “As 7 características que marcam o webjornalismo”.

Para Marlise, o grande desafio dos comunicadores é trabalhar o texto cruzado com outros formatos de narrativa. “Este é o pensamento do jornalista: como contar histórias não lineares? Porque nós já temos uma vida totalmente não-linear, nós somos influenciados pelos computadores. Então como transpor isso para nossa prática profissional? Como trazer isso para contar histórias mais criativas e informativas e com diferentes estímulos de formatos para os nossos públicos? Acho que essa questão que as Betas e as demais disciplinas precisam desenvolver”, questiona.

Na prática, nos agarramos à ideia de que texto e fotografia são suficientes. Essas escolhas são feitas por um conjunto de razões. Identificamos que uma delas é o curto prazo que temos para finalizar nossas produções, embora temos consciência de que ser jornalista é lidar com deadlines apertados. Também falta engajamento em relação à disciplina, mais devido à escassez de tempo do que à vontade de se comprometer. Triste realidade: ainda relutamos em desenvolver pautas que exigem tanta produção em diferentes formatos quando sabemos que o bê-á-bá do jornalismo consolidado ainda é tão predominante.

Somado a isso, estudamos por quatro anos as técnicas da imprensa de ontem. O ensino direcionado ao contexto atual do jornalismo ainda não é suficiente, justamente porque também a universidade está aprendendo. É por isso que, como estudantes, é necessário aprendermos a observar tendências no mercado e a identificar bons exemplos de produções multimídia na internet. “Nós precisamos de mais jovens trabalhando nas redações, antenados com o que está acontecendo no ecossistema digital. Tem todo um ecossistema do qual os jornais estão muito longe, estão dentro desse sistema de uma forma quase automatizada, sem raciocinar.” – Caio Túlio Costa, primeiro ombudsman da Folha de São Paulo

Entretanto, o mais crucial é o fato de que precisamos aprender a incorporar a lógica multimídia em nossas mentes. Ainda pensamos no formato impresso, mesmo inseridos no ambiente digital. A internet nos demanda uma compreensão diferente sobre as dinâmicas do conteúdo. “O jornal vive essa fase em que ele é digital, mas ele é papel, e o casamento dessas duas culturas e o que um imbrica no outro é um processo que a gente está trabalhando todos os dias ainda. A gente não tem uma receita e não sabe como fazer, se erra muito e se erra todos os dias, porque são linguagens muito diferentes.” – Vera Guimarães Martins, ombudsman da Folha de São Paulo

Mais do que nunca, temos que nos esforçar para pensar em pautas multimídia, identificar os porquês de determinados conteúdos serem mais adequados a determinados formatos. Nossa pergunta central, enquanto jornalistas, deve ser: qual é a melhor forma de transmitir a informação que temos em mãos aos leitores?

Laboratório

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Lançando um olhar sobre as produções do semestre, observamos que as primeiras publicações foram mais tímidas. Desenvolvemos pautas individuais e, na maioria das vezes, caímos na relação texto-fotografia. Foi o que aconteceu, por exemplo, com as produções Maçons, símbolos e cidades, Criminalidade preocupa moradores de Novo Hamburgo e De São Leopoldo a Bento Gonçalves: como economizar no combustível. Na matéria Hipnose como parceira da Psicologia e da Odontologia, percebemos a inclusão de vídeos, mas eles não abusam dos recursos audiovisuais. São trechos de uma entrevista. Já a publicação Criações em casal ganham audiência na internet avança, porque agrega fotografia, ilustração e vídeo – embora não sejam produções da Beta, foram uma alternativa coerente para a matéria.

Ao longo do semestre, também investimos em pautas em conjunto, justamente para termos mais folêgo na produção de conteúdo multimídia. Foi o que aconteceu com as reportagens A voz que grita nos muros e Morador de rua: a vida sem paredes, em que nosso foco era a produção audiovisual, e o texto servia apenas como apoio. Na primeira produção, ficamos satisfeitos, porque era nossa primeira experiência com um vídeo elaborado na Beta Geral. Já na segunda, ficamos descontentes com o resultado: o esperado era que fizéssemos um minidocumentário, mas, ao final, não tínhamos imagens suficientes. Não chegamos à narrativa que desejávamos. Isso demonstra que ainda não sabemos o suficiente sobre a multimidialidade na internet.

Na última semana de produção da Beta Geral, identificamos que duas matérias utilizaram um recurso diferente, o infográfico. Conheça o que corre em suas veias e Mitos e verdades sobre a segurança da transfusão aproveitaram esse formato para informar dados que, em formato textual, seriam menos compreensíveis.

Essa análise da produção semestral nos fez perceber que evoluímos, incluindo aos poucos recursos multimídia diferentes. Entretanto, chegamos à conclusão de que o resultado de nossas publicações sempre poderiam ter sido melhores, pois ainda não entendemos completamente a produção que abarca a lógica da internet.

Ambientação com ferramentas multimídia

Um ponto relevante á analise do porque o uso de recursos multimídia foi escasso ao longo do semestre é falta de familiaridade do próprio repórter com ferramentas de elaboração nesse âmbito. Essa falta de habilidade em comunicar por elementos além do texto teria raízes profundas o suficiente a ponto de tornar-se regra na produção de um semestre?

O próprio currículo do curso de jornalismo acaba não aportando conhecimentos mais técnicos acerca de tais ferramentas. Softwares de edição, aqui estendidos a elementos audiovisuais (foto, áudio e vídeo) em combinação ou em separado, no que tange a produção e tratamento, acabam sendo um conhecimento alvo de busca fora do curso.

Outra questão a ser considerada é o quão a aquisição deste conhecimento técnico é julgada importante pelo próprio repórter. Também no que diz respeito a sua combinação com os demais elementos da construção narrativa ainda na elaboração da pauta. Essa ignorância, por vezes, torna-se uma sentença auto infligida pelo repórter: replicar no resultado final o não aproveitamento de elementos mais condizentes com o ambiente digital.

Cada vez mais o jornalismo insere-se num contexto multimídia, onde plataformas, suportes e a própria linguagem são repensados. Nesse ecossistema em mutação se torna papel do jornalista dominar o uso das ferramentas emergentes, cuja a dinâmica de uso obedece a mesma máxima de velocidade das mudanças em que, e, em como se consome a informação.

Experiência pessoal: é dever da universidade aprofundar? Por *Priscila Boeira

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Se tudo sair conforme o previsto, me formarei neste semestre. Estou segura e sei que posso explorar com segurança quase todas as habilidades inerentes à profissão. Porém, até o semestre passado eu não fazia a menor ideia de como executar uma edição de vídeo. Aprendi “na marra” devido à exigência de uma produção nesse formato na cadeira de Jornalismo Televisual II. Ninguém do grupo sabia editar, inclusive dois formandos. Comprei o desafio e passei a assistir televisão, filmes e séries com olhos atentos e críticos. Aos finais de semana pesquisava tutoriais e me matriculei em um curso online com o editor da TV Folha. Um novo mundo começou a ser revelado.

Neste último semestre, a cadeira de Beta Geral expôs novamente a dificuldade que nós, alunos, temos ao elaborar uma proposta audiovisual. Foi nosso desejo profundo oferecer materiais que falem a linguagem de nossa geração, no entanto, nossas duas pautas não chegarem nem perto de um documentário, como havíamos proposto. Esbarramos na desorganização e conhecimento limitado em edição. Chegamos ao final do semestre nos perguntando, se o mundo caminha para uma proposta mais audiovisual em função da reinvenção dos jornais e rádios em redes sociais, por que a Unisinos não oferece mais cadeiras relacionadas? Ademais, é dever da Universidade ensinar consistentemente todas as mídias ou cabe ao próprio aluno se aprofundar?

Foi o que perguntei ao coordenador do curso de Jornalismo da Unisinos São Leopoldo, Edelberto Behs. A resposta que objetive é que trabalhar com reforma curricular é mexer em colcha de retalhos, de tamanho curto. Alguém sempre vai achar que falta algo. “Até a reforma do currículo 4, faltavam cadeiras de assessoria de imprensa. Introduzimos duas ênfases, uma de assessoria de imprensa, com 5 atividades acadêmicas, mais uma introdutória nos semestres iniciais. Mais de 90% dos alunos escolheram a outra ênfase, a de jornalismo multimeios. Nas diferentes reformas curriculares realizadas, procuramos observar as tendências do jornalismo. Passamos a enfatizar bastante a área digital, que também permite a realização de produções audiovisuais”, explicou.

Atualmente, no currículo 6, há duas cadeiras de audiovisual no curso, além do projeto eletivo em Televisão, que fica a critério da escolha do aluno. Do currículo anterior para este, foi retirado telejornalismo III e introduzida área digital. A justificativa é que na Beta Redação, por exemplo, o aluno também pode desenvolver matérias audiovisuais. “Não tenho tanta certeza de que a produção de vídeo é a mídia que mais cresce. Tenho minhas dúvidas. A Universidade deve ser o espaço de formação ética, estética, crítica, reflexiva e, em última instância, formação de manipulação técnica. Então, com duas, três atividades na área visual, o aluno sai do curso com suficientes elementos e conhecimentos para trabalhar na área audiovisual”, opinou Behs.

Fiz os mesmos questionamento para a coordenadora do curso de Jornalismo da Unisinos Porto Alegre, Débora Lapa Gadret: “O audiovisual é realmente uma das apostas da produção de conteúdo no jornalismo em ambiente digital, em especial nas redes sociais. O fluxo de audiovisual tem crescido muito nos últimos anos, mas ainda não se sabe ao certo o quanto ele consegue engajar os usuários neste ambiente. O que eu vejo é que agora há muito mais oportunidade para os alunos produzirem audiovisual em outras atividades, de forma transversal. Grupos de fotojornalismo, de jornalismo digital e até mesmo de rádio e impresso estão produzindo conteúdo em vídeo, gravando materiais no estúdio. Ou seja, acho que a produção audiovisual acabou se espalhando para outras atividades e o aluno tem muito mais oportunidade hoje de captar imagens, fazer edição do que há alguns anos atrás, no currículo anterior”, destacou.

Débora acredita que o papel da graduação em jornalismo é formar profissionais competentes na área, capazes de pensar e desenvolver projetos de forma ética e crítica, de acordo com os preceitos profissionais. “O foco do bacharelado em jornalismo nunca deveria ser apenas tecnológico, pois as tecnologias se transformam e muito rapidamente. Não é um curso técnico. Ou seja, deve ensinar as melhores estratégias para se contar uma boa história em vídeo, a linguagem do jornalismo audiovisual e mostrar as operações técnicas básicas. Se o aluno deseja se aprofundar em alguma área específica, pode pedir auxílio aos professores e funcionários e exercitar essas questões tanto em sala de aula, como fora dela”, concluiu.

 

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