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OMBUDSMAN: Fonte, apuração e entrevista como matéria-prima no jornalismo

Desempenho dos colegas da Beta Redação da editoria de Geral é analisado pelas escolhas de fonte, apuração e entrevista ao longo do semestre

Amanda Cunha, Dominique Nunes, Guilherme Rossini e Paloma Griesang

Todo texto jornalístico depende de suas fontes para existir. Independente de quais tipos elas sejam, só há notícia se houver a informação para construí-la. Por vezes, o comunicador engana-se em pensar que as aspas de um entrevistado sustentam um conteúdo por inteiro. Também é necessário que o repórter realize a apuração prévia, pesquise sobre o tema da pauta, escolha criteriosamente suas fontes, sejam elas pessoas ou dados de instituições, por exemplo. Igualmente, a interpretação das respostas é essencial para simplificar a leitura.

O jornalista Nilson Lage em seu livro A Reportagem: Teoria e Técnica de Entrevista e Pesquisa Jornalística define as fontes independentes como as desvinculadas de uma relação de poder ou interesse específico. Já as fontes primárias são aquelas em que o jornalista se baseia para colher o essencial de uma matéria. Fornecem fatos, versões, números. As fontes secundárias são consultadas para a preparação de uma pauta ou construção das premissas genéricas.

Quanto às fontes testemunhais, Lage recomenda que os jornalistas considerem que há o envolvimento da emoção, que pode modificar a perspectiva. Segundo o autor, o testemunho mais confiável é o imediato. Tem-se como princípio ouvir pelo menos três testemunhos e selecionar o mínimo comum aos três relatos. As fontes experts são, geralmente, fontes secundárias que o jornalista procura em busca de versões ou interpretações de eventos.

De acordo com o autor Mauro Wolf, no livro Teorias da Comunicação, segundo a perspectiva do newsmaking, um jornalista escolhe as fontes considerando a oportunidade antecipadamente revelada, a produtividade, a credibilidade, a garantia e a respeitabilidade. Do ponto de vista dos procedimentos jornalísticos, as fontes institucionais prevalecem porque são as que melhor atendem a esses fatores.

Em seu blog, O Xis da Questão, o Jornalista Manuel Carlos Chaparro relata que a relação do jornalismo com a construção do conhecimento está na sua capacidade de tornar socialmente compreensíveis os fatos, na complexidade da sua ocorrência e das suas significações. Assim, mostra-se a importância do bom uso das fontes.

Ao longo do semestre de 2016/2, os alunos da Beta Redação da editoria de Geral entrevistaram inúmeras fontes e apuraram muita informação. Nosso trabalho neste Ombudsman é resgatar e analisar alguns trabalhos que despertaram nossa atenção.

Grande reportagem requer profundidade de fontes

Na reportagemMergulho na história: 10 anos da tragédia no Sinos, dos colegas Leonardo Vieceli e Thomas Bauer, vemos um bom uso de fontes. Isso porque são diversificadas, que fornecem uma significativa quantidade de informações. Não são muitos entrevistados, mas são pontuais e trazem um conteúdo suficiente e embasado para construir este relato histórico de um momento marcante.

São cinco fontes que podemos classificar. Para isso, recorremos às classificações apresentadas pelo professor de Jornalismo Aldo Antônio Schmitz em seu artigo Classificação das fontes de notícias. Três delas podemos encaixar como fontes primárias e testemunhais, conforme a explicação de Schmitz. As fontes primárias são aquelas que estão diretamente envolvidas com os fatos.

Há 10 anos, quando ocorreu o desastre ambiental no Rio dos Sinos, Adolfo Klein, Jackson Müller e Luiz Ruppenthal estiveram ligados ao fato, cada um à sua maneira. Eles podem ser definidos ainda como fontes oficiais, institucionais e empresariais, afinal, sua ligação com o fato se dá por estarem à frente de duas instituições e uma empresa envolvidas na situação.

O Comitesinos por realizar o controle e estudos do Rio e ter acompanhado a situação. A Fepam por ser a Fundação Estadual responsável pelo controle ambiental. E a empresa Utresa, que deveria fazer o recolhimento e recondicioamento das substâncias das empresas.

As fontes também são complexas e podem se encaixar em mais de uma classificação. Por isso podemos dizer ainda que estas três fontes primárias são testemunhais, afinal estiveram presentes no acontecimento. Já Luis Ruppenthal além de representar a Utresa, na matéria representa a si mesmo, pois foi condenado pela Justiça e consta sua versão.

A utilização dessas fontes foi fundamental para recontar a história do desastre. Afinal, para contar o que aconteceu é preciso ouvir quem esteve presente. Além disso, outro ponto positivo é que cada um contribuiu com a sua versão, construindo um quadro com uma perspectiva muito maior do que foi e como se desdobraram os fatos daquele fatídico episódio. Os colegas foram muito felizes ainda em, além de ouvir o que as fontes diziam, interpretá-las. Não foi apenas um costurado de aspas dentro do texto, mas ideias articuladas e enquadradas através de outros dados e fatos.

Aqui está uma quarta fonte: a fonte secundária. De acordo com Schmitz, essas são fontes que servem para contextualizar, analisar ou complementar uma fonte primária. Muito dados históricos são inseridos no texto e nos fazem recordar a dimensão daquele fato, dando a entender sua importância. Além de contar para quem talvez não saiba o que foi aquele acontecimento. Há também informações provenientes do relatório ambiental feito na época que ajudam a dar embasamento para o conteúdo jornalístico. Analisando estes fatores, podemos afirmar que houve um bom uso das fontes para reconstruir o cenário do que aconteceu há 10 anos, problematizando e relembrando a questão. Finalizando, temos a presença de uma fonte secundária que analisa a situação. É o biólogo Uwe Schulz que comenta os impactos e causas ambientais, além de falar os resultados dos laudos técnicos utilizados da condenação.

Poderiam, quem sabe, terem utilizado de mais fontes testemunhais. Por exemplo, pessoas comuns que vivenciaram o desastre, desse um lado mais “humano” dos acontecimentos relatados e uma cara menos “oficial”. Porém, não faria sentido ouvir as fontes apenas para falar do passado, afinal isso já foi contado. Ao relembrar o desastre é preciso olhar para presente e futuro. E isso é feito de maneira bastante positiva com a fonte Adolfo Klein que projeta a situação atual do rio, e revela que quase nada mudou em 10 anos. Aqui ele passa a ser também uma fonte especializada, por ser um estudioso das características do rio. Seu conhecimento é utilizado para fazer um alerta de que, caso nada mude, podemos ter outro desastre ambiental. Isso é uma das funções primordiais de uma reportagem desse tipo. Afinal, 10 anos depois a história já foi contada inúmeras vezes, precisa-se agora olhar para o futuro para que o passado não se repita. Isso demonstra a grande importância da utilização das informações fornecidas por essas fonte.

Em geral, o uso da apuração e entrevista nesta reportagem foi bastante adequada. Foram escolhidas fontes variadas, porém todas relevantes ao contexto do tema. A forma com que elas foram inseridas também fez com que o texto além de interessante tivesse um papel importante de alerta. Poderiam ter sido utilizadas outras, como a de pessoas que vivenciaram o desastre, ou questionando pessoas sobre a preocupação com um novo acontecimento desse tipo. Ficaria mais rico, mas ainda sim, uma matéria bastante completa.

Outra reportagem que destacamos o bom uso de fontes, apuração e entrevista, é a dos colegas Mailsom Portalete e Michelle Oliveira, Fuga das abelhas: proteção contra insetos é importante no verão. O principal entrevistado do texto é o biólogo e mestre em ecologia de abelhas Ney Telles, de 34 anos, que traz uma contextualização histórica da origem das abelhas no Brasil. As aspas utilizadas contam histórias relevantes para a reportagem. Percebe-se que informações dadas durante a entrevista foram contextualizadas, interpretadas e colocadas em discurso indireto também, não apenas deixando para a fonte explicar.

Os repórteres utilizam aspas inteiras de um caso que ocorreu com a fonte. Ele relata como seu trabalho pode ser perigoso e o tipo de cuidados que toma para não atingir ou atingir o menor número de pessoas possível. Além disso, o entrevistado revela dicas preciosas para afastar as abelhas de casa. Nesse caso, é perceptível que os alunos seguem a dica do jornalista Chaparro em seu blog O Xis da Questão, quando indica que o bom repórter não é aquele que pergunta, mas aquele que sabe perguntar. “Saber perguntar significa, em primeiro lugar, ter lucidez quanto ao que  não sabemos e precisamos saber. Em segundo lugar, saber quem tem ou onde está a resposta pretendida. Portanto, saber o quê e a quem perguntar”, explica.

Destacamos também a inserção de um comovente e assustador relato da fonte Stephanie Jacobsen, 20 anos, neta de Eduardo Witchman, 78 anos, vítima de um ataque de abelhas em seu sítio. O modo como foi retratada no texto aparenta ter respeitado a fonte e traduziu o momento. A descrição faz com que o leitor imagine a situação. Ainda, a história da entrevistada Brenda Fernández, 21 anos que viu um dos seus cachorros não resistir a um ataque dos insetos abre precedente para ser abordado outro assunto dentro do texto: a questão legal em matar ou não abelhas. Classificamos como um bom gancho.

Além disso, os repórteres disponibilizam o artigo V da Lei nº 9.605, Lei de Crimes Ambientais na íntegra para todos acessarem no texto, mas é interpretado e resumido pelos repórteres de forma clara e objetiva. Frisamos também a presença do biólogo especialista em entomologia urbana (ramo da zoologia que estuda os insetos) Sérgio S. Bocalini, que esclarece ainda mais sobre espécies e explica o que pode ser feito caso a residência seja invadida. É a palavra de mais um especialista que valida o assunto.

Fontes oficiais e cases constroem textos com credibilidade

Ainda, na Beta Redação de Geral temos também materiais mais “simples”, por assim dizer. Não são reportagens tão complexas como a citada anteriormente. São textos mais diretos sobre ações pontuais, notícias factuais. É o caso da matéria “Ação promove Natal Solidário para crianças em Gravataí”. Nela,  temos um texto sobre um projeto que beneficia crianças. Contamos com uma fonte principal, que é a educadora Gabriele Machado, que podemos considerar como primária e institucional, conforme a classificação de Schmitz. Isso porque ela está envolvida diretamente com o caso e representa a escola que está realizando a campanha.

Temos também o casal Luis Antônio e Marli, que são primárias por serem um dos doadores, mas são individuais pois representam eles mesmos. Analisando a forma com que essas duas fontes foram utilizadas, podemos pensar que elas poderiam ter sido mais exploradas. Apesar de ser um conteúdo pontual, poderia ter sido mais aprofundado. As fontes não foram bem exploradas, visto que poderia ter dado maiores detalhes sobre essa ação solidária. Daniele poderia ter falado mais sobre a origem da ideia e sobre como está sendo o apoio da comunidade ao projeto. É citado, mas muito brevemente. O casal de doadores complementa o texto, o que é interessante, mas poderia haver a fala de outros doadores também. Ficaria bem mais completo.

Além disso, poderia ser complementado com outros entrevistados. Alguém da diretoria da escola poderia fornecer um outro olhar. Seria ainda uma fonte envolvida com o fato e institucional, mas seria um outro ponto de vista. Ouvir as famílias que vão ser beneficiadas daria também uma perspectiva complementa diferente do caso. As fontes representam apenas um lado da história: o do que doam. Mas e os que recebem? Não seria interessante ouvi-los? Poderiam ser fontes não-identificadas, caso haja a preocupação de exposição da situação de carência. Mas faria com que o material fosse muito mais completo e rico.

Um ponto positivo vem de fontes secundárias e referenciais utilizada na complementação da matéria. A parte do texto que traz informações sobre outras ações enriqueceu a temática e abriu um leque de mais opções de entidades a serem apoiadas e de pessoas que precisam serem alcançadas.

Na matériaMedicina Integrativa: o poder da cura vem de dentro podemos contar com a maioria das fontes. O Ministério da Saúde e o Instituto Israelita de Pesquisa, de São Paulo são consideradas fontes oficiais. É com elas que estão as informações principais e são reveladas na primeira parte do texto para explicar o que é a medicina integrativa. Fontes como os médicos que estão dando opinião sobre a doença são consideradas as fontes secundárias, pois se mostram que são outra parte genérica para compor a matéria.

O texto é muito bem informativo e percebe-se que mesmo o jornalista contando os fatos e explicando sobre como funcionam, as informações são das principais fontes. Destacamos dados sobre a medicina, políticas nacionais e até as especializações. Todas as fontes bem inseridas no texto, só fez a falta de uma fonte que pudesse relatar um fato, um case.

Na matéria “Nomofobia: a mais nova doença tecnológica” notamos faltas de fontes oficiais. Não identificamos as especializadas, empresariais ou institucionais. Apenas as de indivíduos. Contém somente os relatos de pessoas que sofrem algumas doenças relacionada com a tecnologia, faltando explicar o porquê. Apesar disso, o texto é bem estruturado e com as informações relevantes para explicar o assunto.

Por vezes nos deparamos com fontes que podem ser sinalizadas como “definidoras primárias”, ou seja, que tem ascendência sobre os jornalistas, que ficam em segundo plano. Com isso, o jornalista, de certa forma, acaba “conduzido” pela palavra de fontes, principalmente oficiais, explica Schmitz. O que vemos na matéria “Programa leva orientações para mães em Gravataí” é que, de certa forma, não que quem escreveu fosse conduzido, mas que a história fosse conduzida pelas fontes oficiosas. Sendo assim, sendo duas fontes as integrantes do programa municipal explicado na matéria, pode-se dizer que, essas fontes podem ser generalizadas como primárias.

No entanto, há uma terceira fonte, que pode ser classificada como “informal”, segundo Chaparro. O autor explica que essa fonte serve para humanizar a narrativa jornalística. Sendo assim, da forma que a matéria foi escrita, a beneficiada pelo programa municipal foi entrevistada de forma a trazer o lado humano da matéria. Contudo, acredito que tenha faltado alguns dados sobre os índices de mortalidade infantil quando a autora cita que a cidade diminuiu os números no último ano. Sendo assim, Chaparro, classifica esse tipo de fonte como “referência”, ou seja, “de origem confiável e claramente identificada”, e essa serviria para confirmar o que foi escrito pela jornalista.

Na matéria Teste Beta: Supermercado online com drive-thru, o propósito é simplesmente testar um produto/serviço. No entanto, analisando a construção desde a pauta, é notório que, há a falta de fontes que possam explicar algumas questões citadas no texto. A primeira seria uma fonte de caráter primário, que pudesse oferecer questões fundamentais à matéria, como fatos, versões e números, como explica Lage. Talvez o responsável pela distribuição do mercado pudesse ter dado alguma explicação sobre o atraso na separação dos produtos ou na falta de uma embalagem apropriada para congelados. Lage explica que essa seria uma fonte empresarial, responsável por demonstrar os interesses daquela organização.

Outra fonte que poderia ter sido abordada seria um especialista em e-commerce, que pudesse enriquecer com algumas assertivas sobre a atual situação dos supermercados online. Trata-se de pessoa de notório saber específico (especialista, perito, intelectual) ou organização detentora de um conhecimento reconhecido. Normalmente está relacionada a uma profissão ou área de atuação. Tem a capacidade de analisar as possíveis consequências de determinadas ações ou acontecimentos. O jornalista pode não saber, mas conhece quem sabe e recorre ao especialista para estabelecer conexões e analisar a complexidade do tema a ser noticiado”, conforme citado pelo autor.

Na matéria Alimentação é protagonista na prevenção do câncer, percebemos o bom uso de fontes oficiais, mas a falta de cases. O texto começa com dados do Instituto Nacional de Câncer (INCA), o que o credibiliza logo no início. Destacamos a utilização de pesquisas para contextualizar e tensionar aspectos da matéria, como o estudo publicado na edição de dezembro de 2011 do British Journal of Cancer e uma pesquisa divulgada pela OMSem 2015. As pesquisas em contexto mundial revelam a dimensão do assunto.

O nutricionista Breno da Silva Lozi, é a primeira fonte especializada para afirmar o que já está sendo dito desde o início do texto sobre os alimentos auxiliarem na prevenção do câncer. Além disso, as respostas expressam que a repórter questiona quais alimentos e vitaminas são essenciais para a saúde.

Através das perguntas da aluna, a fala do nutricionista se aprofunda em questões de dietas alternativas, prós e contras, faz indicações e chama a atenção em alguns momentos. Apesar de ser necessária esta fala, talvez fosse importante que a repórter ressaltasse que as dicas e explicações do nutricionista não substituem uma consulta e que não é seguro realizar dietas por conta própria como as citadas.

Ainda, a repórter aciona o presidente da Sociedade Brasileira de Cancerologia, Dr. Robson Moura, outra fonte especializada que traz dados relevantes para o assunto, como as principais causas o câncer e como elas poderiam ser evitadas. Mais uma vez, o profissional faz ressalvas e indicações de como manter uma vida saudável, o que pode demonstrar a preocupação da repórter em enfatizar e “provar” que a alimentação é parte essencial da prevenção da doença. A endócrina Dra. Giovanna Carpentieri é mais uma especialista para seguir afirmando, com o seu ponto de vista, sobre a alimentação saudável. Também traz dados em números, o que valida sua fala.

Entretanto, sentimos falta de uma abordagem pelo lado de alguém que adota este tipo de alimentação. Um case que relatasse a melhora em sua vida após consumir alimentos mais saudáveis. Nesse caso, poderia auxiliar o leitor a interpretar a situação pela ótica da pessoa comum, não somente dos especialistas.

Ao todo, percebemos nos materiais que analisamos a preocupação dos repórteres em trazer primeiramente fontes oficiais para os textos. Nas grandes reportagens, percebemos grande envolvimento na apuração e na contextualização e apresentação dos dados levantados. Nos textos mais curtos, identificamos a falta de cases para humanizar os assuntos, mas igualmente o conteúdo está claro e objetivo. Acreditamos que os repórteres da Beta Redação da editoria de Geral do semestre de 2016/2 tenham cumprido com a função de escolher cuidadosamente seus entrevistados e de interpretar as entrevistas, trazendo fontes diferenciadas textos interessantes.

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