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OMBUDSMAN: Uma nova cara para Beta

Estudantes analisam publicações da editoria Geral

Ombudsman produzido por Henrique Standt, Leonardo Vieceli, Thomas Bauer e Vinícius Bühler

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Títulos, subtítulos, linhas de apoio e formatação

Quando o assunto é fazer o feijão com arroz, a Beta Redação vai muito bem. Isso é um fato que se percebe em grande parte das 52 publicações realizadas por São Leopoldo no segundo semestre de 2016. Os títulos, linha de apoio e subtítulos estão bem formulados dentro do padrão ao qual fomos acostumados no impresso. Aliás, essa é a dinâmica de formatação dos conteúdos. Um diagramador poderia tranquilamente dispor todas as publicações do site nas páginas de um jornal sem ter a preocupação de perder informações. Com os recursos de diagramação disponíveis, ele poderia até mesmo apresentar melhor esse texto em uma folha de papel.

Isso é um problema grave, tratando-se de uma  proposta para redação experimental online. Ex-repórter da Beta, Francine Malessa aponta que, apesar da noção de espaço online, as matérias eram pensadas de maneira analógica quando produzia conteúdos para o site, em 2015. “As narrativas já eram montadas na lógica do impresso”, recorda.

A utilização de longos blocos de texto, com espaçamentos irregulares e quebrados vez ou outra por um subtítulo ou uma palavra em negrito, é a realidade atual da Beta. A formatação dos textos ocasionalmente conta com um ou dois hiperlinks.

Essa perspectiva é considerada por Thaciane de Moura como falta de ousadia dos alunos. Integrante da primeira turma da Beta, ela aponta que houve melhora em relação aos conteúdos e relembra que, mesmo com recursos disponíveis, havia medo muito grande de errar.  “A gente não ousava muito em plataformas, abordagens e apresentação. Era tudo muito novo, a gente não sabia até onde podia ir. Apesar de termos muita liberdade, criamos nossas próprias privações”, pontua.

Essa falta de experimentação se nota muitas vezes pelos títulos:

Grupo difunde o vegetarianismo e veganismo no interior do Estado

– “Alimentação é protagonista na prevenção do câncer

– “Contar histórias para mudar vidas

– “Tradições do interior viram conteúdo e fazem sucesso nas redes

Manchetes como essas expressam atenção maior em sua elaboração e refletem a falta de força das próprias pautas. São sentenças longas, que caem em uma vala comum, sem chamar atenção ou expressar a essência do conteúdo. Muitas vezes, as linhas de apoio repetem a mesma ideia da manchete, quando deveriam servir como complemento. A presença da linha de apoio como descrição na capa seria muito importante para criação de chamadas melhores.

Em 2015, Diogo Rossi, repórter da Rádio Grenal, foi um dos alunos responsáveis por ajudar a promover mudanças importantes na Beta, como a organização dos estudantes em grupos. O jornalista acredita que o fluxo de produção melhorou muito com essa alteração. Porém, repara que a carência de recursos na formação das matérias ainda se mantém. “As matérias são muito monocromáticas. Texto, foto e vídeo. Quando chegamos à Beta, disseram que teria um professor que iria ajudar só a fazer infográficos e coisas do tipo, mas ele não ajuda a construir tantas coisas diferentes”, relata.

Poderíamos elencar uma série de fatores que faz com que as matérias não sejam formatadas segundo a forma ideal. Embora a rotina dos alunos seja um desses fatores, a falta de motivação pesa. Como se dedicar para uma matéria que pode não ser lida por muitas pessoas? Como formatar um texto em uma plataforma pouca atrativa visualmente e que apresenta uma série de falhas em sua estrutura? Talvez, se a Beta pudesse oferecer uma “camisa” mais bonita e com mais Ibope, os alunos sentiriam vontade de vesti-la com mais vigor.

É lógico que o WordPress serviu muito bem para a fundamentação da Beta. Mas chega um momento em que é necessário avançar e não se prender à mesmice. Fábio Porchat, talvez um dos criadores de mídia mais inovadores e importantes no país atualmente, aponta essa necessidade. “Para quem está fazendo, acaba tendo uma obrigação de ter que se reinventar, de fazer diferente. Não pode fazer a mesma coisa, não pode fazer igual”, disse em entrevista ao jornalista Alberto Dines.

Há melhores opções disponíveis para publicar sob a lógica atual de produção. Uma das que mais se destacam é o Medium, uma rede que gira os conteúdos internamente através de um misto de curadoria humana com curadoria por algoritmo. Mesmo que um conteúdo não seja disseminado em outras plataformas, tem muito mais chances de ser lido.

A dinâmica do Medium também é mais justa do que o SEO dos sites comuns. Os conteúdos são impulsionados por indicações dos leitores e não por uma leitura puramente robótica do algoritmo. Esse fator tira o fardo da escrita de um texto baseado na repetição de palavras-chave, deixando o texto mais fluído, com mais qualidade.

Compare uma matéria publicada na Beta Redação e no Medium.

Ex-professor do curso de Comunicação Digital da Unisinos, Hélio Sassen Paz concorda que o Medium seria uma boa opção. Ele aponta que a edição dentro da plataforma WordPress, embora flexível, acaba sendo muito aberta e confusa, pois há muitas opções. Através de experiências profissionais, como um período no Terra, Hélio afirma que a utilização de plataformas HTML requer a presença constante de programadores.

Quanto ao Medium, o professor acha positivo poder contar com uma plataforma que facilite marcar trechos do texto para citações na criação de novos posts de terceiros, bem como para pautar mais claramente os comentários. Ele também avalia que a plataforma pode aumentar a qualidade e a produtividade da Beta. “É a primeira interface em tela digital que traz ao redator uma adaptação mais familiar à da máquina de escrever. Torna o jornalista mais com jeito de jornalista e não de internauta”, menciona.

Vídeos e gráficos

Nem todas as matérias da editoria Geral – principalmente no segundo semestre de 2016 – contemplam vídeos e animações visuais. Na verdade, a grande maioria dos repórteres não produz vídeos para suas publicações, talvez por conta do tempo ou da falta de prática na hora da entrevista. Enfim, fato é que os recursos audiovisuais são pouco utilizados.

Segundo o ex-aluno e agora jornalista Pedro de Brito, que já passou pela Beta Redação, os primeiros dias de produção são animadores pela possibilidade de criar conteúdos diferenciados, em vários formatos. Porém, com o passar do tempo e o aumento da demanda de outras disciplinas, trabalho de conclusão e estágio, o ritmo das produções vai diminuindo gradativamente, o que causa desinteresse pela criação por parte do aluno, que efetua as tarefas da forma mais simples e apresentável possível. “Se eu tivesse mais tempo ou tivéssemos demanda menor de material, acho que teria curtido mais e conseguido pensar em coisas diferentes, mas a urgência acabou meio que interrompendo o processo”, completa.

Dos vídeos produzidos, a qualidade da resolução de alguns destoa bastante de outros. Temos vídeos em formato 3GP e vídeos em full HD 1080p, por exemplo, o que demonstra desequilíbrio. Como sugestão para os próximos semestres, essa questão poderia ser padronizada (dentro das limitações logísticas, de tempo e afins) para que tivéssemos certa equivalência. Poderia ser estabelecido que ao menos uma produção ao longo de cada grau comportasse um vídeo de um minuto ou um minuto e 30 segundos, o que faria com que os alunos explorassem mais essa área. Por consequência, tornariam seus trabalhos mais atrativos ao público em geral. Ao observarmos as postagens de matérias na página da Beta Redação no Facebook, as publicações de vídeo atingiram bons resultados de alcance e engajamento.

As questões técnicas e operacionais também são destacadas por ex-alunos que passaram pela Beta e que hoje estão no mercado de trabalho. A jornalista Bárbara Müller relata que uma das principais dificuldades encontradas por ela no período em que esteve na universidade foi a estrutura de computadores para edição dos vídeos. “A máquina não suportava os programas. Muitas vezes, levávamos o dobro do tempo (para edição)”, conclui.

Quanto ao conteúdo dos vídeos, na maioria dos casos, os conteúdos apresentados são interessantes, informativos e atrativos. Talvez poderiam conter carga maior de trabalho de edição, para casos de grandes reportagens e afins. No entanto, entendemos que às vezes o tempo se torna um grande inimigo para que o trabalho se desenvolva da melhor forma possível.

Bárbara destaca ainda que participou da Beta Redação desde sua “inauguração”, no segundo semestre de 2015. Segundo ela, os alunos tinham receio de produzir vídeos, principalmente por não haver aula específica para edição, a não ser os encontros das disciplinas de jornalismo televisual. “No primeiro semestre deste ano, as produções em vídeo aumentaram. Acho que tudo o que estava rolando na época ajudou. Fizemos mais vídeos factuais, principalmente na editoria de Política, e especiais. E foi dando super certo! O engajamento nas redes sociais aumentou com a publicação de mais material multimídia, e a Beta ficou mais conhecida”, completa.

Fotos e legendas

Mesmo no fim da graduação, muitos estudantes não têm experiência de campo com câmeras digitais. A Beta funciona como um teste para exercícios com esses aparelhos, mas, uma vez que não conta com fotógrafos com mais experiência e tempo para a cobertura dos eventos, entrega poucas reportagens com excelentes imagens. No site, há muitas de profissionais da grande mídia, arquivos de órgãos públicos, agências e acervos pessoais.

Para exemplificar, trazemos duas matérias com fotografias produzidas totalmente pela Beta Redação: “Começa a revitalização do Parque Linear Mauá, em São Leopoldo” e “Porto Alegre e as chuvas”. Nas matérias, os repórteres estiveram nos locais. Na primeira reportagem, que informa sobre a revitalização de um parque em São Leopoldo, há boas fotos, mas todas horizontais e de ângulos parecidos. Já a segunda matéria traz uma imagem de uma das ruas centrais de Porto Alegre. Nas duas há a presença do repórter no local, mas não há esforço para fotografar as fontes das matérias.

Apesar da ausência das fotos das fontes, matérias em que o repórter vai até o local e faz as fotos dão mais credibilidade ao produto Beta Redação. Na reportagem “Mergulho na história: 10 anos da tragédia no rio dos Sinos”, há uma mescla. Uma foto foi feita pela Beta e as outras imagens são de arquivo da Fepam. Não há prejuízo, pois há a participação do repórter in loco e as fotos escolhidas para compor a matéria funcionam muito bem para ilustrar a história.

As publicações de opinião, bastante frequentes na Beta – mais por falta de tempo dos repórteres para escrever uma reportagem de fôlego do que por convicção em elaborar um texto opinativo – têm, essencialmente, imagens de arquivo, o que não é nenhum crime tendo em vista que o repórter não sai a campo, mas poderiam ser usadas fotos de arquivo produzidas pela Beta.

O fotojornalista Anselmo Cunha avaliou os conteúdos da Beta Redação. Disse que é essencial que veículos como esse tenham profissionais específicos para fazer apenas fotos, pois isso dá credibilidade ao site e torna textos extensos mais atraentes, além de ampliar o alcance das imagens nas redes sociais. Ele sugere ainda que sejam criadas galerias das coberturas, que, além de incentivo e valorização do repórter, serviriam para ilustrar ainda mais os assuntos. Ele usa como exemplo um incêndio. “As duas fotos do texto podem ser os bombeiros agindo e vítimas sendo retiradas ou observando, mas a galeria pode mostrar os resultados, como ficou o local depois que o fogo acabou. Isso também é informação”, destaca.

Galeria de Fotos da Agência Brasil

Galeria de Fotos da Agência Brasil

Sobre as legendas das fotos, há pouco para se falar. Quando existem, cumprem seu papel de complementar a informação da imagem. Acontece que nas imagens em tamanho pequeno não há espaço para legendas. O ideal seria que, em matérias com fotos, pelo menos uma delas fosse em tamanho adequado para a colocação de legendas. Além disso, é preciso padronizar o crédito. Nas matérias, pode-se observar que é colocado de maneiras distintas.

Infográficos

Durante o segundo semestre letivo de 2016, parte das publicações da editoria Geral da Beta Redação apresentou ilustrações, gráficos e infográficos aos leitores. Os recursos, quando empregados de maneira adequada, causam boa impressão. Além de enriquecer notícias e reportagens visualmente, complementam informações dos textos. Isso foi visto em algumas das matérias, como as que abordam particularidades do Hospital Centenário e do Transtorno de Ansiedade Generalizada. Os infográficos em questão sublinham detalhes que, se estivessem apenas nos textos, não teriam tanto efeito. Ponto positivo para a Beta.

Por outro lado, algumas reportagens, apesar de bem construídas sob o viés jornalístico, poderiam ter repensado o uso desses recursos. Na matéria que aborda as características do Enem e dá dicas aos leitores que fariam o exame, o material de ilustração é formado por imagens acompanhadas por blocos relativamente extensos de textos. O uso de menos informações poderia dar outra cara ao infográfico. Os dados mais importantes seriam colocados em evidência.

Para o jornalista e diagramador Marcelo Garcia, que avaliou trabalhos da Beta Redação, os recursos foram bem construídos porque não geram dúvidas nos leitores. Apesar da objetividade das informações, sublinha que nos próximos semestres é necessário repensar a identidade visual dos conteúdos.

“Um bom infográfico precisa transportar o leitor para dentro do assunto proposto. Pouco adianta apresentar dados curiosos sobre a saga Star Wars, por exemplo, se você não criar um ambiente visual que reúna imagens do Darth Vader, naves, espadas, a Estrela da Morte, fundo preto com estrelas e assim por diante. Portanto, os infográficos da Beta Redação devem continuar infos e serem mais gráficos”, aponta o jornalista.

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