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Ombudsman: As dificuldades do aluno-repórter da Beta

A opinião dos estudantes de jornalismo que não conseguem ser Clark Kent

Por Amanda Moura, Cassiano Cardoso, José Francisco Júnior, Nicole Fritzen e Pedro Kobielski

 

Ao longo do semestre, muitos desafios são postos no caminho do aluno da Beta Redação. A ideia de transformar a sala de aula em uma redação, que consideramos essencial em um curso de jornalismo, pois prepara o graduando para o mercado de trabalho como nenhuma outra disciplina é capaz de fazer, ao mesmo tempo em que nos obriga a dedicar um certo nível de capital pessoal para a realização das tarefas.

Como sabido pelos estudiosos do jornalismo, os limites impostos pela estrutura da redação e pela temporalidade são os primeiros instrumentos “de corte” na projeção de uma pauta – e isso acontece também com os alunos da Beta Redação. O prazo de sete dias para o desenvolvimento do texto, que a priori nos parece elástico, é na verdade ilusório: ao se equilibrar entre o emprego (realidade vivida pela maioria dos graduandos), outras atividades acadêmicas da universidade e os compromissos da vida pessoal, o período acaba sendo extremamente encurtado para o desenvolvimento de produtos mais ousados.

A aluna Thais Ramirez encontrou dificuldades na decisão de suas pautas, limitada justamente pelos prazos.

“O período estipulado para realização das pautas é de 15 dias, mas é necessário a aprovação e o cumprimento de metas acertadas nas reuniões de pauta com os professores, ocorridas uma semana após a entrega da matéria anterior. Caso ocorra de alguém ter a mesma ideia que eu propus, como aconteceu comigo, a temática da pauta terá que ser trocada, reduzindo assim o prazo de uma semana para entrega. Enfim, quando não acontece este probleminha o prazo é relativamente aceitável.”

Laíse Feijó, aluna do campus da Unisinos em Porto Alegre, também fala sobre as limitações encontradas na Beta Redação.  “Entregar uma matéria realmente completa e em um formato diferente é um desafio enorme, ainda mais fazendo duas editorias da mesma atividade, como é meu caso”, comenta. “Além disso, por sermos estudantes, nem todas as fontes estão acessíveis. Por exemplo: para a matéria que fiz sobre doação de sangue, queria entrevistar o pessoal do banco de sangue do Hospital de Clínicas. Justamente por ser estudante, o processo para obtenção dessa entrevista era bem mais complicado; além de solicitar para a assessoria do hospital, tive que solicitar também para o núcleo de pesquisas e esperar cinco dias”, pontua.

O prazo limitado para a produção obriga os repórteres a apelar para recursos como entrevistas por e-mail, telefone e uso de imagens meramente ilustrativas. Esses fatores distanciam as relações humanas entre os alunos, as fontes e os fatos cobertos, relação que é essencial para a percepção de um jornalismo humanizado. Mas ao mesmo tempo em que lamentamos esses fatores de limitação, não encontramos perspectivas imediatas de mudanças considerando as dificuldades inerentes a condição de aluno-repórter. Portanto, entendemos que o equilíbrio desses fatores é um desafio a ser superado continuamente por alunos e professores.

De acordo com o professor da Beta Esportes do Campus São Leopoldo, Sérgio Endler, a questão socioeconômica também acaba por atrapalhar no desempenho dos alunos repórteres. “Às vezes tu podes ter um aluno que mora em Guaíba, trabalha em Porto Alegre e vem para São Leopoldo estudar. Tudo isso pode sobrecarregá-lo”, explica Endler. Para ele, cada aluno está num contexto social diferente, que pode influenciar diretamente na qualidade do conteúdo produzido.

Essa diferenciação acaba também por limitar os conhecimentos prévios de cada aluno dos softwares utilizados. “Tem aluno que possui mais domínio sobre alguns programas, outros não. Isso também atinge diretamente no que pode ser produzido. Muitos deles estão recém tendo o primeiro contato com estas ferramentas”, aponta o professor, lembrando que o caráter multimídia da Beta às vezes exige edição de texto, áudio e vídeo.

Outra dificuldade observada é a questão do layout e o painel administrativo do portal da Beta Redação. Nos deparamos com uma plataforma que apresenta limitações importantes. O site visualizado em mobile não é responsivo, o que limita o número de visualizações. A inserção de mídias alternativas é falha. Como diz a colega Laíse Feijó: “acho que é necessário um formato mobile pois muita gente acessa pelo celular e o conteúdo fica distorcido nessa plataforma”. Essas dificuldades impõem desafios importantes na criatividade e no repertório dos repórteres, que precisam buscar alternativas para enquadrar suas pautas no site da Beta Redação.

Embora as limitações e dificuldades, a experiência da reportagem nos permite uma aproximação com o mercado de trabalho e a vivência prática das questões cotidianas do jornalismo, inclusive a falta de estrutura, tecnologia e falta de tempo. As apurações de pautas nos proporcionaram experiências distintas e novos conhecimentos. Após o trabalho concluído com a produção do texto, o site e as próprias fontes nos proporcionam um retorno positivo ou não de nosso desempenho e uma reflexão do que podemos melhorar no futuro.

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