Cultura

Slam das Minas ocupa espaços com poesia

“Poesia que contamina, Slam das Minas”, é com esse grito de guerra que se oficializa a abertura das batalhas de poesias autorais

O evento, que sempre ocorre no segundo final de semana de cada mês, às 18h, tem a Praça da Matriz, em Porto Alegre, como palco. Já indo para sua 5ª edição, o Slam das Minas vem acumulando experiência, diferentes histórias e muito fortalecimento.

Quem colabora com esse fortalecimento é a estudante Daniela Mirabal, 28, e a rapper Vanessa Girlove, 33. Ambas perceberam a necessidade de um espaço feito de ‘mina pra mina’, onde pudessem se preparar para as batalhas de rap e freestyle sem o silenciamento que sofriam por ser um ambiente de maioria masculina. Viram que a poesia seria o caminho ideal para praticarem e entrarem mais forte na cena do rap, mas também juntando a paixão pela literatura.

Com uma forte influência do conhecido Slam Resistência, de São Paulo, o de Porto Alegre começou em dezembro de 2016, de forma bem tímida, mas logo foi ganhando corpo e agora soma um público estimado em 80 pessoas. “Nós pegamos as datas das principais batalhas e vimos qual final de semana sobrava na agenda, daí pegamos o segundo sábado de cada mês que não coincide com os outros”, conta Vanessa.

O Slam reanima o gosto pela poesia incentivando todas se expressarem além do papel e da escrita. Segundo Daniela, é uma poesia marginal, poesia de rua, de sentimento. Um desabafo. A proposta da batalha engloba todas “minas” poetisas que estavam perdidas no mundo digital e não possuíam um lugar para declamar, não tinham pessoas que realmente queriam escutar. “As pessoas vão ler em algum papel colado na rua ou nas redes sociais, mas é uma realidade tão líquida, tão subjetiva, que esquecem instantaneamente”, explica Daniela.

Por isso o Slam foi criado, pois obriga as pessoas a saírem de casa, escrever e estimular a grafia que está se perdendo cada vez mais. É um momento que instiga o pensamento, a criatividade. Coloca na escrita o que talvez fosse impossível de reproduzir em palavras, em gestos. Para Daniela, a batalha é um renascimento, a contracultura que renasce, uma forma de resgate, mas que também passa a ser uma nova ideia de ganhar voz. “Vem na proposta de resgatar a cultura de rua, se encontrar em praça, declamar, voltar toda aquela filosofia, gerar um debate de ideias, mas em forma de poesia, na praça e por mulheres”, explica a rapper.

A mais nova integrante, Fernanda Fernandes, 28, publicitária e poeta nas horas livres, sempre gostou de escrever e viu no surgimento do Slam, em Porto Alegre, a oportunidade de declamar o que só guardava no papel. Participou de apenas uma edição até agora, mas o que deu um gosto a mais em continuar. “Eu vejo nesse movimento um resgate da poesia, um renascimento de uma forma diferente, que talvez para muitas pessoas já tivesse ficado para trás, fosse ultrapassada”, afirma.

O Slam é para o fortalecimento das minas. Foto: Thayná Bandasz

O movimento é para o fortalecimento das minas. Foto: Thayná Bandasz

O Slam também possui regras, assim como qualquer outra batalha. São três poesias autorais que só podem ser declamadas em até três minutos, os jurados são escolhidos na hora por votação do público e a premiação é o respeito. “Não trabalhamos com objeto, mas sim com o respeito. Tu vai ganhando um, dois, três respeitos até conseguir chegar no nacional”, explica Daniela.

A realidade declamada em praça pública

Uma das principais características do Slam é justamente o desabafo de inúmeras repressões causadas pela sociedade. O silenciamento diário de pessoas periféricas, negras, principalmente mulheres, que usam desse espaço para, literalmente, gritar aos ventos o peso que carrega nas costas de tudo isso e já não suporta mais.

Vanessa ressalta que o movimento passa a ser uma revolta anti-sistema, política e contra qualquer tipo de preconceito. Ela conta que as poesias chegam carregadas de revoltas. “Uma ‘mina’ declamou sobre um assédio. Imagina, tu em plena Praça da Matriz falar do teu assédio como um lance superação. Eu me identifiquei com cada palavra dela, assim como sei que muitas ali também”.

A militância não fica de fora, e é essa liberdade que o Slam permite a quem participa do movimento. Todos escutam e muitos se identificam, pois são questões diárias expressadas em até três minutos, tendo total liberdade de encenar só com seu corpo e voz o que quer passar para o público. São particularidades que são respeitadas, um fortalecimento de irmãs, como diz Daniela, sempre mantendo total respeito.

Para Daniela, na poesia tu não precisa estar demonstrando algo que às vezes não quer ser. “Ela é a essência, faz ser quem a gente é, tu te debruça no papel para falar de ti, da tua realidade, até para fantasiar. Ela é uma coisa pura, o Slam é poesia pura, ele vem para ser puro”.

Inserindo o rap na poesia

Mesmo que o seu mundo gire em torno do rap e do freestyle, Vanessa abraçou junto com Daniela a ideia de criar o Slam, porque ambas se apoiavam nas ideias e dessa vez não seria diferente, mas ela não deixou de lado as rimas. Deu a ideia de que, após o final de cada batalha de poesia, também tivesse um momento de freestyle. “A gente faz o momento Slam e depois que acaba, que a galera ainda está ali fomentando, trocando ideia, faz uma roda de freestyle com os mc’s presentes. É a história da poesia mais poética do Slam e é da poesia mais do rap”, conta.

Vanessa não acha que escreve poesia, mas sim rap, só que agora ela também passou a estudar esse novo mundo, porque ainda quer começar a produzir algo para, quem sabe um dia, batalhar nos Slams que estão começando a surgir no estado.

Cole+arte
No último sábado, 25 de março, às gurias do Slam das minas foram convidadas para participar de uma edição do Cole+atividade – Expo Coletiva, no CÉU Bar+arte, na Cidade Baixa. Lá elas declamaram suas poesias e deram chance para o surgimento de futuras poetas.
A estudante e artista, Renata Duarte, 24, com incentivo das ‘minas’ criou coragem para declamar sua primeira poesia. “Fiquei muito nervosa na hora, eu tremia, mas adorei”.

Confira a história do início do Slam das Minas

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