Esporte

O futuro incerto de um passado monumental

Com portões fechados desde 2013, o Estádio Olímpico aguarda por demolição

 

Estádio Olímpico/ Foto: Ducker

Estádio Olímpico. Foto: Ducker

Visitar a história do Estádio Olímpico Monumental é como resgatar um tesouro empoeirado. A casa de muitas vitórias do Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense está parcialmente demolida. Desocupada em dezembro, agora tem espaço apenas na memória dos torcedores. O Monumental aguarda por um fim nas negociações entre Grêmio e OAS. A posse do terreno é do clube, ainda responsável pelo pagamento de seus tributos, e a empreiteira, por sua vez, não se manifesta sobre a demolição.

“Venho do bairro da Azenha, bairro do Monumental, Grêmio é puro sentimento” era um dos sons que se ouvia ao atravessar Av. Dr. Carlos Barbosa em dia de jogo. A banda da Geral do Grêmio, subindo pelo portão 10, embalava uma torcida que desde cedo já cercava os arredores do estádio. Pessoas dos lugares mais distantes do Estado se reuniam ali em nome de uma paixão: o futebol. Senhores, crianças, jovens se misturavam como se todos fossem um só, vibrando e se abraçando, atrás do gol.

“Pode parecer loucura minha, mas me sentia parte do estádio. Comecei a ir ao Olímpico com oito, nove anos de idade. Na época era uma aventura, pois o transporte não era fácil. Todo o ambiente de jogos marcou muito a minha infância e depois a adolescência. Cada vez que eu passava pelo Olímpico, mesmo não sendo dia de jogo, sentia uma energia muito boa. Reconhecia como uma extensão da minha casa, literalmente”, emociona-se o torcedor Rodrigo Machado, 38 anos.

Um estádio lotado, em que já passaram nomes como Geraldo Pereira (Mazarópi), Hugo Eduardo de León (De León), José Tarciso de Souza (Flecha Negra), Renato Portaluppi (Renato Gaúcho). E um público que chegou a aproximadamente 98.471 torcedores em um jogo contra a Ponte Preta. O ano era 1981 e o Grêmio amargou uma derrota de 1×0 em casa, apesar do recorde de público.

Muitos foram os jogos presenciados nesses 59 anos de funcionamento do estádio. Emoções à flor da pele, xingamentos ao juiz, sugestão de escalação e confronto com o rival marcam a memória de quem vive o futebol tricolor.

“Acompanhei jogos memoráveis, como o 4×1 no Gre-Nal da final do Campeonato Gaúcho de 1990. Também o jogo em que o Grêmio goleou o Palmeiras por 5×0, pelas quartas de final da Libertadores de 1995. Além da sacola de gols, houve três expulsões: Rivaldo e Válber, do Palmeiras, e Dinho. A final do Brasileiro contra a Portuguesa foi outro jogo incrível. Precisávamos de dois gols. Um saiu aos cinco minutos de jogo, e o segundo, no final do segundo tempo. A arquibancada explodiu. Foi demais”, relembra Rodrigo.

Inaugurado em 1954, o Olímpico abriu as portas no dia 19 de setembro para o pontapé inicial com um confronto entre Grêmio e Nacional de Montevidéu. Marcou a primeira das vitórias gremistas, por 2×0, e o atacante Vitor Brás da Silva registrou-se na história fazendo o primeiro gol do estádio.

O letreiro de Campeão do Mundo, que carregaria anos mais tarde, ainda destaca o imponente estádio de 8,5 hectares de área. “Nada pode ser maior”, acrescenta o letreiro, em alusão ao primeiro título mundial de um clube do Rio Grande do Sul. Uma vitória de 2×1, em cima do Hamburgo, que cobriria a América de azul e preto. Naquele ano de 1983, uma multidão aguardava o time na volta para o Olímpico.

“Um espaço de muito valor de história, cultura, títulos. São valores que nada apaga, dinheiro nenhum paga a história que o Grêmio construiu ali”, discorre José Tarciso de Souza, o famoso Flecha Negra, campeão do mundo pelo Grêmio.

Escalação da Libertadores/ Foto: José Tarciso de Souza

Escalação da Libertadores de 1983. Foto: Arquivo pessoal, José Tarciso de Souza

Saudoso Monumental

Um órgão pulsante, coração de uma história de 114 anos de momentos marcantes que, agora interditado, aguarda por uma demolição que ninguém sabe quando chega. Suas chaves, ainda em posse do clube tricolor, servem apenas como simbologia de vitórias e títulos já alcançados.

Tarciso foi o jogador que vestiu a camisa do tricolor mais vezes. Hoje vereador em Porto Alegre pelo PSD, ele conta que nunca se envolveu com a política interna do Grêmio, mas divide uma saudade com o ex-presidente Hélio Dourado.

“O Estádio Olímpico é o que realizou todos os meus sonhos. Joguei ali durante 13 anos. Agora imagina pessoas como Hélio Dourado, que foi o presidente que levantou o Monumental, que falou que ia fechar o Olímpico e fechou, imagina o coração dele. O sentimento pelo estádio é maravilhoso, os deuses do futebol ainda permanecem naquele esqueleto.” O ex-jogador ainda brinca que enquanto a Arena não pertencer ao Grêmio, nem todos os deuses estarão lá.

Dourado, ex-presidente do Grêmio, viu o Monumental ser construído. Ele fez campanha de arrecadação junto aos torcedores para que a parte superior fosse erguida. Depois de finalizada a Arena, recusava-se a entrar no novo estádio, alegando que tinha sido uma obra sem o envolvimento dos torcedores.

O velho Monumental encerrou oficialmente suas atividades no dia 17 de fevereiro de 2013. Uma vitória de 1 a 0 sobre o Veranópolis marcou o que seria o jogo final realizado no estádio, no primeiro turno do Campeonato Gaúcho. O zagueiro Werley foi o autor do último gol registrado na história do casarão, de cabeça, aos 22 minutos do primeiro tempo.

O que fica depois desse dia é o silêncio no bairro da Azenha. Torcedores que suspiram saudosos ao passar pelo local, impedidos de entrar. Alguns, em compra online, levaram para casa um pedaço do gramado, mas outros apenas com a saudade tentam encontrar seu lugar na Arena.

O atual presidente do clube, Romildo Bolzan, questionado acerca de o torcedor ter um lugar de pertencimento, suspira ao falar: “O Grêmio tem um local para jogar e local de referência, que é o Olímpico. Um espaço que usufrui em questão de mando de campo, jogos em que atua. As questões administrativas ainda são questões a se desenrolar”.

O presidente deu voto favorável à construção de um novo estádio, mas explica: “Acho que era necessário uma mudança. Eu votei a favor da Arena, mas hoje vejo que era melhor ter demolido o Olímpico e construído um estádio lá (na Azenha)”, completa.

Já para o ex-ponta-direita Tarciso, a necessidade de um novo estádio nunca existiu. Ele questiona por que parcerias com grandes empresários não foram realizadas, já que o clube possuía área para isso. Para o ex-jogador, uma reforma poderia ter sido realizada e, assim, manteria a identidade do clube no local em que foram conquistados grandes títulos.

O impasse

Essa história de pertencimento entre estádio, time e torcedores foi atravessada por uma política de negociações com a construtora OAS, que passa por recuperação judicial. Em meio a contratos firmados, agoniza o Monumental, e os torcedores parecem não saber direito a que casa pertencem.

“Nós torcedores, digo torcedor porque sou torcedor, ficamos indagando: qual estádio é nosso? O Olímpico ninguém quer mais do jeito que ele está, aquilo é uma tristeza, eu já nem entro”, reclama Tarciso. “Quando eu saio no túnel e ouço aquele grito, a emoção vai lá em cima, mas ao mesmo tempo, uma emoção muito triste por não ter esse estádio para a gente vibrar de novo. E o torcedor fica assim: a Arena não é nossa, o Grêmio paga para usufruir e a chave do Olímpico está nas mãos do clube, mas não tem como usar, não tem grana, não tem vestiário, tudo quebrado.”

Jogador Tarciso Flecha Negra/ Foto: Arquivo pessoal José Tarciso de Souza

Jogador Tarciso Flecha Negra. Foto: Arquivo pessoal , José Tarciso de Souza

O acordo para a construção de um novo estádio previa a cessão do terreno da Azenha para a empreiteira, que no lugar construiria um condomínio, mas com a entrada de Fábio Koff alguns pontos do contrato foram revistos e a OAS, responsável pela troca das propriedades, caiu na operação Lava Jato.

A situação da empreiteira dificulta qualquer acordo com o clube, que depende que Arena e Olímpico estejam desonerados para a troca. Qualquer previsão para o cumprimento do contrato parece inútil. Um impasse que pode se arrastar por anos, conforme Romildo Bolzan. A reportagem da Beta Redação tentou contato com representantes da OAS via telefone e e-mail, mas não obteve qualquer retorno.

Até o fechamento desta reportagem, o Estádio Olímpico Monumental servia de abrigo para o ônibus-cela Trovão Azul, após  o desabamento de um prédio ao lado da 3° Delegacia de Polícia de Pronto Atendimento. A Brigada Militar realizava escolta de presos no local.

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