Cultura

O universo dos games retrô

Conheça o mercado dos clássicos de videogame

Que o mundo gamer está em constante transformação não é novidade. A cada ano, novos consoles e diferentes jogos são lançados. São tantas plataformas que o consumidor pode até ficar em dúvida na hora de escolher aquele que faz mais jus ao seu estilo.

Mas há um mercado de videogames que tem grandes apreciadores e colecionadores: é o retrô. Conhecido por envolver produtos fabricados há anos, tem como destaque clássicos como Super Mario World, Pac Man e Donkey Kong. Mas esse nicho de mercado não se resume somente aos jogos mais tradicionais.

Com o avanço tecnológico, hoje não é mais necessário possuir o console, seu joystick e suas fitas/CDs/DVDs para poder relembrar como era pular de fase, matar monstrinhos ou ganhar uma corrida no kart. O professor do curso de Jogos Digitais da Unisinos Daniel Camozzato comenta que existem várias possibilidades para quem quer matar a saudade da infância e reviver as partidas com amigos. “Consoles antigos podem ser encontrados em lojas virtuais. Além disso, é possível utilizar o chamado emulador, software que emula um determinado dispositivo. Por exemplo, existem emuladores para Mega Drive, que permitem jogar os jogos de Mega Drive em um computador”, relata, ao relembrar que os clássicos nunca saíram de moda, pelo contrário, continuam ganhando novas versões e gráficos modernos.

O mercado retrô tem um público bem específico, conforme o vendedor autônomo e gerente da Infostock de São Leopoldo, Lucas Campos. Além de comerciante, ele é colecionador, e percebe que, apesar de ser um setor pequeno, existem clientes que não deixam os consoles mais antigos de lado. “Existe um público sedento por jogos antigos, alguns que gostam de ter aquela nostalgia de sua infância e outros que realmente preferem os antigos e não gostam da situação atual dos jogos. Antigamente você simplesmente colocava um jogo no seu videogame e saía jogando. Hoje você precisa instalar o game, atualizar, acompanhar vídeos explicando a história, e muitos jogadores não têm paciência para esse gênero”, conta.

O professor de Jogos Digitais Mauricio Gehling também acredita que há espaço no mercado para os antigos: “Muita gente gosta de jogar os clássicos, e as empresas também costumam relançar versões remasterizadas rodando em máquinas recentes”. Um diferencial desse nicho do comércio são os valores envolvidos. Geralmente quem procura por jogos antigos ou considerados raros está disposto a pagar o que o produto vale. “É um público apaixonado que, muitas vezes, não se importa com o preço que vai pagar. No Brasil é muito mais movimentado em redes sociais e sites de compra e venda como Mercado Livre, OLX, do que em lojas físicas. Fora do país já é o processo contrário.”

Quem concorda com a questão dos preços é Rodrigo Fauth, administrador de empresas e proprietário da Roderick Games. Formado pela Unisinos em 2007, hoje o microempreendedor individual diz que tem havido uma supervalorização de determinados produtos. “Hoje é preciso garimpar, pechinchar. Existem fitas raras, como o caso, por exemplo, do jogo Mega Man X3, do Super Nintendo, que já era considerado difícil de se encontrar na época que os games eram locados. Normalmente vão pedir por ele de R$ 500 a R$ 600. O problema não é o valor, se o jogo estiver bem conservado. Existem diversos fatores que determinam a condição do jogo, e é a partir disso que se colocam os valores”, diz, complementando que se o jogo estiver limpo, com caixa, fonte e manuais originais, a tendência é só valorizar o mesmo.

 

EVOLUÇÃO DOS GAMES

Engana-se quem pensa que fabricar videogames foi algo programado. O professor Daniel conta que a criação de jogos eletrônicos não aconteceu de uma maneira esperada. “Eles surgiram nas universidades americanas por volta de 1950. No entanto, na época os computadores eram extremamente caros, e o desenvolvimento de um jogo não era o propósito, e sim um subproduto do trabalho dos pesquisadores, visando demonstrar uma ou outra capacidade dos sistemas desenvolvidos”, relata. Daniel complementa que o primeiro jogo criado foi o Tennis for Two (Tênis para Dois): “O jogo foi criado reutilizando partes velhas que haviam pertencido a um computador cuja função era fazer cálculos balísticos para mísseis”.

O primeiro videogame fabricado e comercializado no mundoé o Magnavox Odyssey, em 1972, nos Estados Unidos. Mas, segundo o professor do curso de Jogos Digitais Mauricio Gehling, foi o segundo que começou a marcar as gerações a partir da década de 70: o Atari 2600. Apesar de ter sido lançado em 1978 também no país norte-americano, chega ao Brasil só na década de 1980. “Mesmo assim, depois de vendas fantásticas o mercado saturou com muitos clones e jogos sem qualidade, e houve um grande crash de 1983/4. Somente depois da Nintendo, vindo do Japão, que renasceu o mercado”, conta o professor.

A Nintendo entra com o console NES (Nintendo Entertainment System) e seus jogos, que ganharam fãs no mundo inteiro. Mega Man, Super Mario World, The Legend of Zelda e Final Fantasy são alguns dos games que chegaram junto.

A concorrência do NES ocorre com o fortalecimento da marca Sega, de outra empresa japonesa, a qual fabrica o Master System e outro clássico conhecido: Alex Kidd.

A partir desse momento, novos consoles vão sendo gerados, como o Mega Drive e o Super Nintendo, e disputas vão sendo criadas, como a batalha de egos entre os jogos Mario, da Nintendo, e Sonic, da Sega. Já na década de 1990 surge outra concorrente. É a vez da Sony, que entra nesse universo paralelo com o Playstation. Somente nos anos 2000 é que a empresa de softwares Microsoft entra para competir, com seu Xbox. Atualmente, os aparelhos de videogame mais recentes são o Xbox One, da Microsoft, o WII U, da Nintendo, e o Playstation 4, da Sony.

Com tantas gerações e atualizações, quem “sofre” com o excesso de opções é o consumidor. De acordo com o professor Daniel Camozzoto, as principais modificações nesse cenário envolvem a distribuição digital, que cresce junto à tecnologia. “Isso reduziu o investimento mínimo para se fazer um jogo e permitiu o surgimento de desenvolvedores independentes, promovendo um retorno à experimentação com temas e estilos de jogo. Até alguns anos atrás, os jogos eram necessariamente vendidos em lojas físicas, na forma de uma caixa contendo discos do jogo. Para arcar com as despesas do negócio (desenvolvimento, produção, logística e marketing), um distribuidor era uma necessidade”, afirma, relatando ainda que essa logística melhora o perfil de inovação.

Já o professor Mauricio Gehling faz um comparativo quanto às mudanças: “Podemos dizer que hoje temos gráficos fantásticos, mas as sementes das ideias foram criadas muitos anos atrás. Antigamente o jogo era só diversão, como correr de carro, atirar em inimigos, sem um grande objetivo final. Agora todos os jogos praticamente se preocupam em contar uma história, serem épicos etc.”.

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DO TRABALHO AO ATO DE COLECIONAR

Há quem goste de aliar o trabalho com os gostos pessoais. É o caso dos vendedores e também colecionadores Lucas Campos e Rodrigo Fauth. Entre as razões que levam ambos a colecionar e comprar os jogos é ter à disposição os mesmos quando quiserem. Além disso, a diversão é o objetivo principal.

Lucas começou a coleção quando tinha 15 anos, quase como um hobby. “Eu admiro a barreira que os games conseguiram quebrar. Em certos momentos falo sobre isso com amigos, sobre a proporção que esse mundo tomou,  tornando-se uma das maiores indústrias do mundo, saindo daquela ideia de que jogos são apenas para crianças. Admiro o seu poder de entretenimento, porque muitas pessoas utilizam até como uma forma de ‘terapia’, e posso dizer isso por experiência própria”, comenta.

Já Rodrigo Fauth tem contato com os jogos desde que tinha quatro anos, por influência do pai. Na época, as partidas ocorriam na plataforma Atari. Hoje trabalhando com quase todos os consoles, revendendo os jogos e repaginando os mesmos por meio de limpezas e testes, ele elogia os games atuais quanto aos gráficos. “Apesar de não gostar muito do estilo de jogo atual, porque hoje há mais facilidade em se jogar do que no passado, a qualidade do 3D é maravilhosa”, fala, comentando que seus xodós são Super Mario RPG e Mega Man X3.

Reportagem: Fernanda Fauth e Marco Prass

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