Esporte

O Scaramouche e suas diversas máscaras

Conheça João Neri, ex-lutador que fez sucesso nos anos 60 como Scaramouche

Com sandálias nos pés e o quimono branco dobrado envolto da faixa preta, adquirida desde 1975, João Neri Satter Mello chega na academia Gaba em São Leopoldo. Ele cumprimenta as recepcionistas e entra para a sala onde o treino de judô acontece. Ritual que repete duas vezes por semana, todas às segundas e quintas-feiras.

 

João Neri

Neri, aos 73 anos, treina judô duas vezes por semana. (Foto: Sabrina Stieler)

 

O mais velho da turma acompanha e ultrapassa o pique de jovens, que repetem os exercícios comandados pelo instrutor. Aos 73 anos, Neri apresenta resistência física, até mesmo na hora de substituir de improviso o professor que se machucou em uma demonstração. O que não é nenhum desafio ao veterano, já que Neri foi professor de judô durante 30 anos, no La Salle em Canoas.

Muitos de seus colegas da academia, nem imaginam que aquela figura de cabelos e cavanhaque brancos é o ex-lutador Scaramouche, que fez sucesso nos anos 60 no programa de TV, Ringuedoze, que ia ao ar todos os domingos à noite na TV Gaúcha (atual RBS). E muito menos, que viajou inclusive para outros países, apresentando suas performances na luta cênica, com o personagem que foi inspirado em um filme de aventura de 1952. “Depois da fase do programa, eu decidi ir para o Peru lutar. Fui sozinho, cheguei lá sem nada, não sabia nem falar espanhol.” Mas não demorou muito para o Scaramouche fazer sucesso por lá também. “Teve um empresário que acreditou em mim. Mas ele não gostou da minha primeira luta, disse que não era o que queria. Isso me fez reformular a forma de lutar.” Na segunda luta cênica que Neri participou, ele conseguiu surpreender o empresário e o público. “O problema era que eu estava fazendo a luta que eles aplicavam lá, então, resolvi começar a lutar como eu fazia aqui, com mais agilidade, e deu certo”, conta. Neri revela que as lutas eram articuladas momentos antes dos lutadores se apresentarem ao público. “Nós, eu e o meu adversário, combinávamos nossas lutas minutos antes de entrar no ringue, no próprio vestiário. Eu dizia ‘vou subir da corda e pular’ e assim a gente combinava algumas ações, mas a maioria do tempo era tudo improvisado, a gente tinha que ser ousado”, confessa o ex-lutador.

 

 Scaramouche aos 17 anos estreando no boxe,1961.

Scaramouche aos 17 anos estreando no boxe,1961. Foto: arquivo pessoal.

 

Neri, o Scaramouche, era considerado o mais fraco dos seus 6 irmãos, mas a academia e a luta transformaram seu corpo. Influenciado por um primo, iniciou no judô muito cedo, aos 8 anos, e já dava seus primeiros golpes, mesmo ainda sendo de brincadeira, em Passo Fundo, sua terra natal. Depois, conheceu o boxe, que combinou com a luta cênica, onde foi sua maior expressão. Se dedicou ainda a ginástica olímpica, que o ajudou nas técnicas da luta cênica. “Eu não pude continuar na ginástica olímpica por regras internas ao esporte, fui convidado a não praticar mais no clube que frequentava, então, me dediquei à luta”, revela.

Aos 25, já em Porto Alegre, Neri trabalhou na Olivetti Brasil, importante empresa de máquinas de escrever, e foi lá, que sem querer, o primeiro passo para a criação do Scaramouche aconteceu. “Eu era responsável pela parte de caixa da empresa, e um dia o Nilo Rizzo chegou para pagar uma mercadoria. Eu conheci ele na hora”, conta sobre o juiz do programa Ringuedoze que era uma espécie de celebridade na época. “Não perdi a oportunidade e comecei a falar sobre luta com ele, falei da minha experiência, e para minha surpresa, ele me chamou para ir no programa.”

O personagem Scaramouche usava uma máscara em suas lutas-performance, mas não era simplesmente por estética, como muitos podem pensar. “Eu não podia ser lutador e continuar na Olivetti. Por isso, eu usava a máscara, para não me reconhecerem, era um disfarce. Consegui levar essa situação por um bom tempo, até que eu não aguentei mais e sai da empresa”, revela.

 

Vida múltipla

Se Neri usava uma máscara para poder ser o Scaramouche, na sua vida cotidiana, ele veste várias outras, de músico à corredor.

O acordeon, que o acompanha desde os 14 anos por insistência do pai, é tocado quase todos os dias, e no seu repertório, mais de 100 músicas. Além do instrumento pesado, Neri toca flauta e percussão. “Eu tocava de vez em quando o acordeon, sabia umas 50 músicas. Depois que tive meu AVC, decidi me dedicar e aprender mais”, conta sobre a doença que o atingiu aos 66 anos e o deixou sem falar e sem alguns movimentos por meses, até conseguir se recuperar.

Mas aprender é verbo que sempre esteve presente na vida de Neri. Assim como se dedicou às lutas e as artes marciais, fazendo cursos em diversos lugares, inclusive no México. Ele também se dedicou a outro tipo de de arte: a escultura.

Esculturas de cerâmica, madeira e metal fazem parte da decoração da sua residência no centro de São Leopoldo, a maioria feita por ele mesmo. No fundo da casa de dois andares, um ateliê improvisado guarda, além das medalhas, ferramentas, matérias primas e várias caixas com centenas de moldes de troféus. Neri transformou seu talento e hobby em negócio, e abriu o Neri Troféus, dedicado a confecção de premiações para diversas competições. Seu trabalho com esculturas já premiou desde o Carnaval de Porto Alegre até o Gauchão de 1993, que deu a taça para o time do Grêmio. “Eu criava o modelo conforme a competição, eram peças únicas, depois de aprovadas mandava para a fundição. Às vezes, eram quase 100 troféus do mesmo modelo”, explica.

Como escultor, Neri tem no currículo mais de dez premiações pelas suas obras, no Rio Grande do Sul, em outros Estados e até reconhecimento internacional.

 

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O ex-lutador mostra habilidade como escultor. (Foto: Sabrina Stieler)

 

Outra atividade que Neri se dedica, agora com menos frequência, é o motociclismo.“Eu já participei de três grupos de motociclistas. A gente viajava pelo Estado inteiro, e fora também. Me vestia como motoqueiro mesmo, usava jaqueta preta e bandana. Hoje, ainda tenho duas motos”, conta.

E foi com uma de suas motos que ele e sua esposa Iara, com quem é casado há mais de 30 anos, conheceu a Colina do Sol, em 2000, um clube de naturismo que fica no município de Taquara. “Eu vi uma reportagem sobre a Praia do Pinho em Santa Catarina, achei interessante a ideia, descobri que tinha algo parecido aqui perto, em Taquara. Um dia, peguei minha moto e fui conhecer. Gostei, e em 2004 comprei uma cabana lá”, conta com o tom de quem não tem nada para esconder.

João Neri não pensa em parar tão cedo, entre todas essas atividades que ele divide seu tempo, ainda acumulou mais uma em 2013, ele começou a correr e participar de competições. “Eu iniciei na corrida aos 70 anos. Já participei de mais de 30 eventos, e teve ocasiões em que na minha categoria, acima de 70 anos, eu era o único a participar”, revela orgulhoso do feito.

Com tantas histórias e feitos, Neri ainda registra boa parte de suas conquistas e reflexões em texto. Ele tem mais de 200 crônicas escritas e utiliza a internet para divulgá-las. Além disso, em 2013, ele lançou sua autobiografia intitulada “Scaramouche, uma vida de lutas”, que conta um pouco dos bastidores da época da luta livre/cênica aqui no Estado.

 

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Livro lançado em 2013

 

Assim como ele afirma que o “judô tem tempo para qualquer idade”, Neri tem tempo e disposição para qualquer inquietação que o faça se sentir vivo. Vida longa ao Scaramouche. 

 

 

 

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Comentários

Um comentário sobre “O Scaramouche e suas diversas máscaras”

  1. João Neri é um exemplo de longevidade, um exemplo de como deve-se cuidar da saúde do corpo e da mente para ter uma vida plena com a idade mais avançada. Sou filho do também ex-lutador do Ringuedoze, Cigano Stiner, e um dos idealizadores do site TelecatchBrazil.com. O vídeo usado aqui nessa linda matéria como ilustração do Ringuedoze está postado no nosso canal no Youtube.
    Bela matéria com esse cara que merece cada vitória em sua vida, pois é um homem do bem e que vive sua vida toda o esporte.

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