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O que move os manifestantes da Marcha da Maconha

Descriminalização, uso medicinal, livre-arbítrio e matéria para produção têxtil são as principais motivações dos ativistas

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Marcha passou pela Avenida Oswaldo Aranha e foi até o Viaduto Imperatriz Leopoldina, na Cidade Baixa. Foto: Cassiano Cardoso

O sol ainda estava presente nas 16h20 (horário referência mundial do uso da maconha) do último sábado (6) nos arcos da Redenção quando a Marcha da Maconha de Porto Alegre começava a tomar corpo. Segundo os organizadores, cerda de três mil pessoas de todas as idades reuniram-se com um objetivo em comum: manifestarem-se a favor do uso da cannabis (nome científico da erva), independente da forma. Tanto medicinal, quanto por lazer e até para o uso do cânhamo na produção têxtil. O evento ocorre anualmente em várias cidades do mundo reivindicando a legalização da maconha.

No local, ativistas autônomos e de diversos grupos e movimentos sociais produziram cartazes e faixas para depois saírem em marcha pelas ruas da Cidade Baixa. Na caixa de som em frente aos arcos, um microfone aberto para que qualquer integrante da marcha pudesse se expressar em relação à maconha. Entre uma roda de conversa e outra, o cheiro forte da erva queimada e a fumaça eram aparentes sem nenhum constrangimento para os integrantes. Parecia um momento de liberdade entre os usuários.

Nas faixas, “Hey polícia, maconha é uma delícia”, “Mais um que planta, menos um que compra” , “Mais conha, menos cunha” davam o tom do protesto. Numa delas, pedia-se a liberdade de Rafael Braga, jovem morador de rua preso nas manifestações de 2013 por portar Pinho Sol, que segundo a polícia poderia ser utilizado como arma na marcha. Recentemente, já em regime semiaberto, foi preso por portar 0,6g de maconha, crime forjado pela polícia, de acordo com manifestantes do movimento social chamado Juntos.

Manifestantes defendiam a liberdade de Rafael Braga na Marcha. Foto: Cassiano Cardoso

Manifestantes defendiam a liberdade de Rafael Braga na Marcha. Foto: Cassiano Cardoso

“Pelo uso da maconha medicinal, no lazer e na produção têxtil e não ao uso abusivo do petróleo na indústria de roupas”, bradava uma moça no microfone. Na medida que o tempo foi passando, as rodinhas de discussão sobre a legalização da maconha foram tomando conta e as pessoas começaram a se mobilizar para partirem em direção à Cidade Baixa.

“É o conjunto da obra. Acima de tudo, temos que ter nosso livre-arbítrio. Sou espírita e tenho que ter minha liberdade de fazer o que quiser com meu corpo. É uma questão religiosa também”, definiu Terry Lacerda, 35 anos, que atualmente é coordenador de Mobilidade Urbana na Prefeitura de Cachoeirinha. Segundo ele, a legalização é importante para a liberdade pessoal de cada um.

O que é a legalização?

Segundo o Projeto de Lei 7187/2014, que propõe a legalização da maconha no Brasil, a ementa dispõe sobre o controle estatal de produção, distribuição e comercialização da cannabis sativa no país. Atualmente, o projeto está sendo analisado pelos integrantes da Câmara dos Deputados.

A legalização foi a principal pauta levantada entre os manifestantes. Foto: Cassiano Cardoso

A legalização foi a principal pauta levantada entre os manifestantes. Foto: Cassiano Cardoso

Na camada mais jovem da marcha, o estudante Igor Morais, 21 anos, o medo de algum embate com a polícia era o que mais preocupava. “Ano passado eu vi o evento, mas acabei não vindo. É a primeira vez que venho e confesso que estou com um pouco de medo. Todo mundo sabe como a polícia nos trata. Falta respeito”, apontou o garoto, morador do município de Gravataí.

No entanto, não apenas de usuários a marcha se sustentou no final da tarde do último sábado. Enquanto os manifestantes se deslocavam pelo Parque Farroupilha, a estudante de Administração Amanda Machado, 23 anos, afirmou que não fuma, mas apoia a descriminalização da cannabis. “Não fumo, mas tenho amigos que usam. Não é algo que os tornam criminosos. A maconha é criminalizada hoje por uma questão de educação. As pessoas precisam aprender as propriedades dela e descobrir o que ela proporciona de verdade”, explicou a jovem.

O que é a descriminalização?

Atualmente, tramita no Superior Tribunal Federal (STF) uma revisão da lei nº 11.343 sobre a descriminalização do porte de maconha no Brasil. O que se discute no STF é para que se tenha um limite de gramas prescrito na legislação para cada usuário que passe como porte e não como tráfico. Hoje, não há uma definição específica entre porte e tráfico. É subjetivo para que o juiz decida.

Levantamentos e críticas também faziam parte de cartazes. Foto: Cassiano Cardoso

Levantamentos e críticas também faziam parte de cartazes. Foto: Cassiano Cardoso

O professor do curso de Ciências Sociais da UFRGS Marcelo Silva, 49 anos, também estava marchando e considera a política de drogas um “desastre”. “Somos a favor da descriminalização. O que temos aqui hoje (3 mil pessoas) é até pouco. Porque o que eu conheço de advogado, médico e professor que fuma maconha não é pouco. Hoje em dia ainda é muito criminalizado”, afirmou Silva. De acordo com ele, este tipo de atitude entre os usuários reforça ainda mais a estigmatização da maconha.

Para o músico e jardineiro Daniel Bertoni, 37 anos, o sistema permite drogas muito piores que a maconha na legislação. “Há muitas pesquisas e gente falando que ela faz mal, mas nunca foi provado nada. O álcool causa muito mais mortes que a maconha. Há também um respaldo da mídia e interesses dos empresários para que ela seja ilegal e criminalizada”, explanou. Para ele, “um movimento como esse é extremamente necessário”.

Segundo o coletivo Princípio Ativo, pertencente ao Growroom (movimento brasileiro a favor da legalização da maconha), a Marcha da Maconha de Porto Alegre dobrou a adesão este ano. Em 2016, foram cerca de 1,5 mil, sendo que este ano chegou a 3 mil. A marcha percorreu toda a Redenção, passando pela Oswaldo Aranha e acabou no viaduto Imperatriz Leopoldina – da Avenida João Pessoa que passa sobre a Loureiro da Silva, onde ocorreu uma festa promovida pela Rádio na Rua, coletivo de moradores de rua de Porto Alegre.

O Parque Farroupilha foi um espaço de liberdade para usuários de maconha no último sábado (6). Foto: Cassiano Cardoso

O Parque Farroupilha foi um espaço de liberdade para usuários de maconha no último sábado (6). Foto: Cassiano Cardoso

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