Esporte

O mundo de Vanderson Chaves

Sem o movimento das pernas, jovem encontrou a realização na esgrima paralímpica

“Você quer conhecer o mundo?”

Foi com essas palavras que Vanderson Chaves, 22 anos, iniciou sua trajetória na esgrima paralímpica. Mas antes de começar esta história, é preciso entender o caminho que o paraesgrimista percorreu.

Vanderson sempre esteve ligado ao esporte. Praticava tênis de quadra e, como todo menino, gostava de jogar futebol nas ruas do bairro Bom Jesus, onde vive até hoje. No futebol, ele viu a chance de tomar um rumo diferente e ajudar a família humilde. Fez testes em alguns clubes de Porto Alegre e até chegou a ser aprovado no Esporte Clube Cruzeiro, mas o time não iria bancar os seus custos, então ele preferiu não aceitar a proposta. Aos 13 anos, após ter participado da peneira do Internacional, estava prestes a saber se entraria no mundo do futebol.

No Inter, Vanderson receberia auxílio do clube para treinar, e essa oportunidade poderia mudar sua vida. O que mudou, na verdade, foi um acidente um dia antes do resultado da seleção. O tio de Vanderson estava na sua casa e chamou o menino para ver um revólver que ele havia encontrado, supostamente descarregado. Ao brincar com a arma, o tio acertou um tiro direto no pescoço do sobrinho, atingindo a medula e fazendo ele perder o movimento das pernas. Após nove anos, alguns familiares ainda guardam rancor do tio, mas Vanderson reconhece o acidente e não o culpa pelo ocorrido.

Quando a ficha caiu, ele se viu em um mundo para o qual não estava preparado. Os amigos e companheiros das peladas do bairro deram as costas por não aceitarem as suas novas condições. A independência que Vanderson estava conquistando no início da adolescência estagnou, e ele passou dias em casa pensando que não conseguiria fazer mais nada sozinho.

 

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Vanderson perdeu o movimento das pernas quando tinha 13 anos. Foto: Pablo Righi

 

Todo esse tempo de incertezas teve um fim quando ele se deu conta de que sim, poderia ter uma vida normal. Essa reflexão o levou a procurar um estágio na Prefeitura de Porto Alegre, aos 17 anos. Lá ele conheceu Maurício Stempniak, da Associação de Servidores da Área de Segurança Portadores de Deficiência (Asasepode). E então ele ouviu a pergunta: “Você quer conhecer o mundo?”.

A proposta incluía uma nova carreira como esgrimista. A Asasepode tinha uma parceria com o clube Grêmio Náutico União, que fornecia os materiais para os atletas treinarem na Academia da Brigada Militar e posteriormente no Cete (Centro Estadual de Treinamento Esportivo). Sem conhecer absolutamente nada da esgrima, ele achou que não fosse se adaptar ao esporte, mas com o passar do tempo, se apaixonou. “A primeira vez que joguei, senti uma adrenalina muito grande. Como sou fã de adrenalina, tive certeza de que ali era o meu lugar”, conta. O esporte também serviu para confirmar que ele era capaz de ser independente. A academia ficava no topo de uma lomba, e vendo seus colegas (muitos deles mais velhos) subindo a rua sozinhos, ganhou mais confiança para encarar as dificuldades.

Um ano após iniciar os treinamentos, em 2013, chegou à seleção brasileira, e atualmente ocupa a segunda posição no ranking nacional na sua modalidade. Já percorreu países como Canadá, Polônia, China, Itália, França, Hungria e Grã-Bretanha. De fato, como Maurício havia prometido, Vanderson conheceu o mundo. Mas ainda há mais uma etapa a ser cumprida: chegar forte às Paralimpíadas de Tóquio, no Japão, em 2020. Ele disputou os Jogos do Rio, em 2016, porém não chegou em condições de brigar por medalhas. Apesar de ter iniciado na esgrima em 2012, no início do ciclo para 2016 ainda não estava preparado para tentar um lugar no pódio. Segundo ele, foi um sonho realizado, uma experiência única e indispensável para as próximas competições. “Demorei para acreditar. Quando vi, estava junto com aqueles atletas que sempre assistia pela televisão”, diz Vanderson, que conseguiu a vaga com o time brasileiro por conta de uma suspensão da seleção russa, eliminada da disputa devido a um caso de doping.

Treinando no Grêmio Náutico União desde 2015, ele desfruta de uma estrutura muito semelhante à de países considerados potências na esgrima paralímpica e, por estar bem ranqueado, recebe o auxílio Bolsa Atleta do governo federal e pode se dedicar 100% aos treinamentos. Eduardo Nunes é um de seus técnicos e o acompanha desde os tempos da Asasepode. Ele destaca que a dedicação do atleta é o que mais impressiona: “O Vanderson é um garoto incrível. Acredito que ele tenha boas chances de ser um dos destaques da esgrima brasileira nas próximas Paralimpíadas”. Em 2020, Vanderson estará com 26 anos, no auge da sua forma física e com muito mais bagagem de treinamento e competições. Se manter o nível, com certeza é possível ter a esperança de medalhas.

 

Foto: Guilherme Engelke

Vanderson Chaves sofreu um acidente com arma de fogo. Foto: Guilherme Engelke/Beta Redação

 

Mesmo realizado com a profissão de paraesgrimista, Vanderson pensa em cursar faculdade de Educação Física. Inclusive, vai prestar o Enem no próximo final de semana: “Não me vejo fazendo outra coisa que não seja relacionada ao esporte. Tenho a intenção de seguir trabalhando com a esgrima paralímpica, para, quem sabe, fazer com que essa prática mude a vida de outras pessoas, assim como mudou a minha”. A vida de Vanderson é inspiradora não só pela superação, mas pela busca constante do sucesso e da realização por meio do esporte.

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