Cultura

A escultura moderna está só começando

Basta um breve olhar e veremos que de antigo as esculturas não têm mais nada

Desde que colocamos os pés na escola pela primeira vez passamos a conhecer a História. Aprendemos que a arte sempre foi uma forma de revolução, através dos desenhos, pinturas ou esculturas. Podemos encontrar traços destas três vertentes da arte em qualquer período da história da vida humana. Conforme os séculos foram passando, o modo de se pensar em arte mudou e um reflexo claro disto é a forma de se esculpir. Foi pensando nisso que a Beta Redação conheceu três diferentes escultores, que nos mostram de que maneira este tipo de trabalho mudou de alguns séculos para cá.

As esculturas modernas pertencem a um período específico da história da arte, que é o Modernismo. Estamos nos tempos da Contemporaneidade, onde o objeto artístico é mais validado pela sua função do que pela sua feição. Mas o que faz a arte moderna ser moderna?

Segundo João Martins Ladeira, doutor em sociologia e professor do Programa de Pós Graduação da Unisinos, a arte moderna passa a abandonar a tentativa de ser literal, como nas esculturas antigas. “No caso das esculturas, isso é ainda mais interessante, pois as pessoas vão se parecendo cada vez menos com aquilo que elas são. Ao longo do século XIX, tem muita gente que faz esculturas de pessoas que existem, e essas esculturas não tem muito a ver com o que estas são. Conforme vai passando o tempo, vai ficando mais claro nas esculturas a tentativa de mostrar objetos profundamente abstratos. Constantin Brâncusi mostra objetos que não lembram nada, que não se parecem com nada. Em alguns casos, ele dá nomes muito literais para esses objetos, como o ‘Pássaro no Espaço’, uma escultura que parece um falo gigante, que tem a ver com liberdade, mas que em absoluto não parece um pássaro”.

Pássaro no Espaço, de Brâncusi. Foto: Arquivo Pessoal / Beta Redação

Pássaro no Espaço, de Brâncusi. Foto: Arquivo Pessoal

 

A classificação das artes que o teórico e crítico de cinema italiano Ricciotto Canudo deu a conhecer em 1912 no seu livro “Manifesto das Sete Artes” é uma classificação eurocêntrica, mas que tem sido adotada mundialmente:  

1º Música 

2º Artes Cênicas

3º Pintura

4º Escultura

5º Arquitetura

6º Literatura

7º Cinema

A essas linguagens têm se somado outras artes: 8ª – Fotografia, 9ª – História em quadrinhos, 10ª – Jogos de Vídeo, 11ª – Arte digital.

451º Fahrenheit

Jeff Nishinaka é um escultor de papéis. O norte americano esculpe desde 1981, há 36 anos. Segundo ele, as esculturas são uma expressão criativa do que o artista quer comunicar e compartilhar. “É muito subjetivo e espero que cada espectador tenha uma experiência diferente com ela”.

Jeff Nishinaka em seu atelie. Foto: Arquivo Pessoal

Jeff Nishinaka em seu atelier. Foto: Arquivo Pessoal

Nishinaka explica que a ideia de começar a esculpir entrou na sua vida por acaso, através de um trabalho realizado na faculdade. “Este conceito começou para mim como uma tarefa de aula, enquanto eu era um estudante no Art Center College of Design, em Pasadena, Califórnia. Meu professor acidentalmente me apresentou a escultura de papel. Eu nunca tinha ouvido falar deste tipo de trabalho antes. Como parte da atribuição de classe, eu tive que criar uma escultura de um peixe feito do que eu quisesse. Escolhi o papel e comecei a pesquisar como fazê-lo. Logo descobri que havia apenas alguns outros artistas de escultura de papel na época. Depois que eu vi o que eles criaram a partir de folhas de papel plana, percebi que era o que eu queria fazer”, explica ele.

Desde então Jeff vem aprimorando seu trabalho, esculpindo cada vez mais e das mais diversas formas. Um de seus trabalhos mais notórios é o “Bulwark 451”. Nesta experiência, o escultor mostrou os perigos do fogo e como tudo pode, rapidamente, virar uma grande tragédia. “Quatrocentos e 51 é o grau de temperatura em fahrenheit em que algo vai pegar fogo”, conta.

Bulwark 451 antes da queima. Foto: Arquivo Pessoal

Bulwark 451 antes da queima. Foto: Arquivo Pessoal

“Uma agência chamada Fitzgerald + Co contatou-me para ver se eu estaria interessado em criar uma grande escultura em papel que representasse três grandes indústrias: fabricação, petróleo e elétrica. Estas estão entre as indústrias mais perigosas e que ameaçam a vida na Terra. A causa mais comum de morte em todos as três é o fogo. Bulwark FR Vestuário é considerada a maior marca do mundo de vestuário resistente à chama. Então eles queriam que eu criasse uma enorme escultura feita de papel que seria documentada com um vídeo timelapse e depois queimanda”, relata. Ao final do vídeo podemos ver a frase “Porquê pessoas não são a prova de fogo”.

Jeff também nos explica que as dificuldades durante o processo de montagem da escultura foram grandes e que tudo teve que ser feito minuciosamente. “O principal desafio era fazer uma escultura de papel tão grande que se sustentasse estruturalmente e pudesse ser transportada. Ela tinha que ser desmontada duas vezes: uma vez para ser transportada para um estúdio de fotografia e uma segunda vez para ser levada para uma pedreira para filmar a queimadura. Devido ao tamanho da escultura de papel, o principal desafio era como torná-lo forte o suficiente para ficar em pé e permanecer estável. Utilizamos tubos de cartão, espuma-núcleo e gator-board – uma espécie de isopor –  para dar estabilidade e uma base. Não foi tão fácil quanto parece. Tínhamos que cortar cada pedaço de papel em formas muito específicas. Em seguida, tivemos de fazer camadas dessas peças em sua ordem adequada e usar várias colas e adesivos para mantê-los no lugar”.

“Eu tive que montar uma pequena equipe com três assistentes para construir esta escultura de papel. O tempo individual investido neste trabalho foi entre, aproximadamente, 500 a 1000 horas por pessoa. Todos juntos levamos cerca de um mês para planejar e preparar e outros três meses para criar. Demorou cerca de 15 minutos para queimar completamente”, conta ele.

Bulwark 451 durante a queima. Foto: Arquivo Pessoal

Bulwark 451 durante a queima. Foto: Arquivo Pessoal

“O aspecto mais importante do vídeo durante o incêndio foi não mostrar qualquer pessoa queimando de perto, porque nós estávamos mostrando principalmente aos trabalhadores da indústria que tinham experimentado pessoalmente ou tinham visto seus amigos e colegas queimar em tais acidentes. Poderia ser chocante demais. Este foi realmente um dos projetos mais desafiadores e gratificantes que já trabalhei!”, finaliza o norte-americano.

Frutas e legumes como argila

Já no Brasil também temos exemplos de escultores que fazem do “diferente” seu norte criativo. Durante sete anos, Maikel Alan de Freitas, 31 anos, fez de frutas e legumes sua matéria prima para construção de todo tipo de escultura. Mesmo que já tivesse intimidade com desenhos desde criança, seu primeiro contato com esculturas deste tipo se deu quando trabalhava em um restaurante no centro de Porto Alegre, há nove anos atrás. “Em uma certa ocasião, vi um cara esculpindo um nabo no meio da rua. Decidi que tentaria fazer igual ou até melhor. Como eu trabalhava em um restaurante, sugeri ao dono que me permitisse fazer uma escultura em uma melancia. Ele topou, mas eu fiquei com medo de fazer ali e dar errado, pois seria a minha primeira. Então, peguei uma melancia e levei pra casa”, relata ele.

Ao chegar em casa, Maikel elaborou aquele que foi seu primeiro trabalho: um índio esculpido na melancia, com um cocar de bananas, mas que, segundo ele, infelizmente, não recebeu a devida remuneração. “Levei minha escultura para o buffet do restaurante e todos se encantaram, tanto colegas quanto clientes. Então passei a fazer semanalmente e a me aperfeiçoar, sem repetir os modelos. Fiz meus próprios materiais. As facas eram feitas por mim. Também fiz para festas, mas fiz mais para o restaurante em que eu trabalhava. Esta foi a época em que senti que meu trabalho era mais valorizado, em elogios e tal, mas não financeiramente, pois na hora de pagar ninguém queria. Eu esculpia de manhã, três ou quatro vezes por semana, e trabalhava meio período, mas ganhava praticamente a mesma coisa que os demais garçons. Creio que meu trabalho atraiu mais clientes para o restaurante, mas o empregador não me pagava o equivalente aos dois empregos”.

Escultura de Maikel em uma melancia. Foto: Arquivo Pessoal

Escultura de Maikel em uma melancia. Foto: Arquivo Pessoal

O porto-alegrense conta que seu sucesso foi tão grande que um restaurante de Nova Jersey, nos Estados Unidos, lhe chamou para trabalhar lá, mas ele não conseguiu ir. “Apesar de ter feito todos os trâmites para conseguir um visto de trabalho, este me foi negado. O restaurante de lá me sugeriu tentar um visto de turista, mas também não foi possível. Então, acabei não indo, mas fiquei com esta ideia de ir trabalhar fora na cabeça. Me inscrevi para trabalhar em um navio. Fiz a entrevista, passei e fiquei 6 meses trabalhando como garçom, pois eles já tinham alguém que esculpia em legumes e frutas e em gelo. Quando voltei, continuei trabalhando em restaurantes”.

Maikel esculpindo dragão em uma abóbora. Foto: Arquivo Pessoal

Maikel esculpindo dragão em uma abóbora. Foto: Arquivo Pessoal

De uns dois anos pra cá, Maikel decidiu abandonar este trabalho devido aos baixos valores de pagamento. “Eu cobrava cerca de 60 reais para esculpir uma melancia e 100 reais para esculpir em uma abóbora, pois era um trabalho em 3D. Muita gente me dizia que era muito barato, mas ninguém me contratava. Então parei de fazer. Hoje em dia atendo alguns clientes que fiz, mas evito divulgar para não fazer mais. Atualmente sou tatuador e ganho o equivalente a dois salários de garçom. Estou aprendendo a gostar mais deste ramo e me habituando”, finaliza ele.

Riqueza em detalhes

Ainda em Porto Alegre, mais especificamente na Avenida Carlos Gomes, bairro Três Figueiras, encontramos outro exemplo de esculturas de encher os olhos. No showroom da designer e escultora Gloria Corbetta encontramos troféus, esculturas e joias. Gloria trabalha com arte desde os 17 anos, mas desde criança sua inclinação para a área já era visível. “Fiz minha primeira exposição individual aos 20 anos. Desde pequena meus pais achavam que eu tinha esse lado artístico. Sempre me incentivaram a fazer cursos de arte, escultura, e meus professores sempre me diziam que eu tinha um desenho muito sombreado e isso dá a ideia de um desenho tridimensional. ‘Tu deveria ir pro lado da escultura. Teu desenho é quase uma escultura’, eles diziam. Então acabei indo pra escultura muito cedo. E este é um lado muito trabalhoso, pois tu precisa de funcionários, tem toda uma função, sozinha não é possível fazer. Mas sempre gostei, e, no fim, a escultura te dá diversos ramos de atuação”.

Gloria Corbetta nos mostra a coleção de troféus de sua criação.Foto: Michelle Oliveira / Beta Redação

Gloria Corbetta mostra a coleção de troféus de sua criação. Foto: Michelle Oliveira / Beta Redação

Em seu escritório, a escultora coleciona alguns dos troféus de sua criação. Ela destaca o troféu “Samurai”, feito para a empresa de publicidade Competence. “A empresa precisava de um troféu que significasse ‘resiliência’. Antes de fazer as peças eu estudo muito. Folheio todo tipo de revista, anúncio de mercado, de fofoca. Numa dessas revistas encontrei algo sobre o filme Star Wars: O retorno de Jedi. Me liguei em espadas, e então em lutas orientais. Pesquisei e descobri que os samurais são seres dotados de resiliência. Assim, nasceu o troféu Samurai”, relata.

O showroom da escultora já existe há 30 anos. Gloria passeia seu trabalho por esculturas, troféus, arte aplicada – como porta retratos – e jóias escultóricas. Segundo ela, estas joias têm mais valor formal do que valor intrínseco. “As peças que estão aqui não são feitas de ouro, diamantes, mas sim em aço inox, material de construção, ferragem, o que faz com que estas peças entrem mais pro ramo da escultura”, explica Gloria.

Gloria em seu showroom. Foto: Michelle Oliveira / Beta Redação

Gloria em seu showroom. Foto: Michelle Oliveira / Beta Redação

Uma das peças preferidas de Gloria é um colar de colherinhas de prata. “Ganhei estas colheres da minha sogra e decidi inovar”. Com o colar, Gloria ganhou o prêmio Objeto Brasil, em 2016, e a Premiação Ouro. A peça é feita com colheres de café de prata, pérolas de água doce e zircônias. Esta e outras criações de Gloria Corbetta você encontra aqui.

Colar de colherinhas de prata criado por Gloria Corbetta. Foto: Arquivo Pessoal

Colar de colherinhas de prata criado por Gloria Corbetta. Foto: Arquivo Pessoal

Afinal de contas, o que é arte?

Eis aí um grande debate e uma pergunta praticamente impossível de se responder. Segundo o professor uruguaio Ramón Velazco, bacharel em Artes Visuais com ênfase em Escultura e fundador do Ateliê Um, a palavra arte significa o domínio da técnica, por isso dizemos que uma pessoa é um “artista” quando faz muito bem alguma tarefa, quando executa com maestria algum trabalho ou desenvolve alguma habilidade. “Também há de se separar o ato criativo do ato de criação artística. Toda produção artística nasce de um ato criativo, mas nem todo ato criativo origina uma peça, obra ou ação de arte. Como Leonardo da Vinci estabeleceu, a arte é uma atividade mental, ou seja, supera o primeiro conceito de apenas ser uma ‘habilidade’, que se desenvolve  apenas com o treino, ou um ‘dom’, que se nasce com ele. Há que se pensar e muito para fazer arte, pelo menos desde a Renascença ou desde o mundo Clássico”, explica o professor.


A “Arte” em si, ou melhor dito, as “artes”, são atividades humanas, de origem criativa, nas quais os artistas procuram criar objetos, ações e ou peças que transcendem o caráter utilitário e/ou decorativo. Um objeto de arte nem sempre é decorativo, nem todo objeto decorativo é uma peça de arte. E elas são validadas por um sistema de artes, complexo e muito contraditório , que define  o que é arte ou não, de tempos em tempos. Nas artes visuais hoje estamos sob o império da “arte contemporânea”, que nasceu nos anos 70, e que por tanto não é tão contemporânea assim, bem como estamos atravessados por todos os debates conceituais da pós-modernidade.

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