Cultura

O livro em papel continua em alta

Clubes de assinatura conquistam leitores a partir da experiência do livro físico

Na era da internet, os livros em papel se reinventam a fim de criar experiências aprofundadas na história. Apesar dos dispositivos digitais, há quem prefira a leitura em formato físico. O manuseio das páginas e o cheiro das folhas ainda são imprescindíveis para uma parcela do público. É para atender a essas necessidades que surgem os clubes de assinatura de livros.

A cada mês, os assinantes recebem kits com livros e outros mimos. As obras são escolhidas por curadores e remetem a experiências contextualizadas em relação ao universo abordado nas obras. É o caso do clube Turista Literário que, além da leitura, inclui itens aromáticos, elementos materializados, além de uma playlist no Spotify. Tudo inspirado em novos destinos.

“A ideia é ampliar a experiência de leitura, materializando elementos de dentro da história. O olfato e a audição são sentidos muito associados à memória. Quando você sente um cheiro que te lembra um momento ou alguém, a memória sentimental evoca tudo o que você sentiu ao entrar em contato com aquele cheiro pela primeira vez. O mesmo acontece com a música e as comidas que nos marcam”, explica Mayra, do canal All About That Book, e curadora do Turista Literário. Segundo ela, o objetivo é fazer com que os leitores permaneçam com a memória registrada e se sintam dentro da história, experimentando coisas compartilhadas também pelas personagens.

Outro clube que aposta na profundidade da experiência é a TAG – Experiências Literárias. No kit, o assinante tem acesso ao livro do mês com edição especial, mimos, uma revista com informações sobre a curadoria e pistas sobre as obras dos próximos meses. Um dos criadores da TAG, Arthur Dambros menciona que a brincadeira envolve ansiedade para a chegada da caixa com os itens.

“Qualquer tentativa de descrever uma experiência acaba por reduzi-la, mas a ideia da TAG é se entregar e ver como tudo traz benefícios, a partir do contato com livros que talvez os leitores não conheceriam”, aponta.

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Itens variados compõem a caixa do assinante. Foto: Mariana Blauth/Beta Redação

A moda dos clubes de assinatura abre espaço para a criação de serviços destinados aos variados públicos. A Taba, por exemplo, investe na literatura infantil e juvenil. Para Emily Anne Stephano, jornalista de cultura e infância e integrante da equipe do clube, o mais difícil está na escolha das obras para os pequenos.

“Por ano, são lançados cerca de oito mil títulos voltados para crianças e jovens, então, o principal desafio é garimpar as obras de qualidades literária e estética, incluindo ilustrações e projeto gráfico, e que aposta na inteligência dos leitores”, destaca. Além disso, ela afirma que isso acontece sobretudo porque livros destacados na mídia estão ligados a ações de marketing, filmes e desenhos – não tendo a característica da autoria.

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Além de leitora, Tamires escreve
livros infantis. Foto: Sergio Augusto

Estudante de pedagogia da Universidade Federal Fluminense, Tamires Romano, 29, assina o Turista Literário desde julho do ano passado. Para ela, a principal vantagem é a experiência proporcionada pelo clube. “A ideia junta duas coisas que amo: ler e viajar. Criei um ritual para abrir a malinha, já faz parte do meu cotidiano. Escuto as músicas da playlist, tiro fotos e exploro todos os itens. É uma montanha-russa de emoções!”, declara.

Para ela, pontos negativos existem em qualquer serviço, mas vale refletir se o peso deles passa despercebido em meio a tantos fatores positivos. “Não é possível agradar a todos. Em algum momento, o livro do mês não será do meu agrado, mas isso só aconteceu comigo uma vez em nove meses e mesmo assim adorei os outros itens da mala”, diz.

Tamires, que também escreve obras infantis, não gosta de ler coleções sem ter todos livros. Por isso, ela prefere que o clube não envie a primeira obra de uma série, porque isso significa que terá que comprar o que faltou para continuar a leitura.

Livro físico ainda tem valor para os leitores

A mídia digital colocou o formato papel em cheque. Será? Para Mayra, mesmo com as praticidades do e-book, o livro de papel ainda é mais acessível financeiramente. “Infelizmente, nem todo mundo pode morar em lugares onde não há problemas em se carregar um leitor digital na rua. Um livro físico dá mais flexibilidade para o usuário ler onde quiser”, observa a curadora.

Dambros aposta no público que não abre mão do livro em formato de objeto como parte da experiência da TAG. “Gostamos de livros, seu cheiro e aspecto estético, além de bibliotecas e do esmero da edição. Por isso, focamos no papel, pois parte da experiência depende disso, senão o fator surpresa não teria tanta graça”, opina. Segundo ele, os livros são projetados a partir de uma preocupação editorial e sem a obrigatoriedade de potenciais comerciais.

Na era digital, os livros físicos se reinventam, inclusive para atrair leitores que nasceram em meio ao contexto tecnológico. É por isso que A Taba considera a materialidade do livro como um fator crucial, facilmente percebido pelos assinantes. De acordo com Emily, isso acontece porque características como o formato, tamanho e tipo de papel são pensados pelos autores e editores dos bons livros infantis.

“Já enviamos, por exemplo, um livro (Gente pequena, gente grande) no qual as páginas aumentam conforme a personagem cresce. Isso não seria realizável na versão digital, limitada ao tamanho do suporte utilizado. Projetos como esses são feitos pensando na experiência total da leitura, seria uma pena conhecer essas obras em um pequeno leitor digital, como um celular”, destaca. De acordo com a jornalista, o tamanho dos livros não é definido apenas pelo custo, mas depende do projeto gráfico escolhido.

Curadoria é diferencial dos clubes de assinatura

Se o mercado está atolado de novas publicações, é aí que os clubes de assinatura ganham força. Segundo Emily, a curadoria é fundamental para os leitores de A Taba, pois é assim que o clube aposta na inteligência deles. Os livros enviados aos assinantes devem atender a uma série de requisitos, como qualidade literária e de ilustração, variedade temática, textual e de autores, além de preço de capa compatível com o valor da assinatura mensal.

“Esses fatores são relevantes para a formação de leitores, ou seja, influenciam na qualidade da leitura, criando indivíduos críticos e criativos. Queremos ser um clube que envia livros que o público não conseguiria escolher sozinho em livrarias, pois, para chegar até eles, é necessário ter muita pesquisa, leitura aprofundada e comparação com outras obras”, salienta a jornalista.

Para Dambros, os livros são construídos a partir das indicações dos curadores da TAG – a cada mês é uma pessoa diferente. “Chamar alguém com carga de leitura grande, que conhece literatura, traz um efeito interessante para que os leitores naveguem por universos diferentes”, diz o empreendedor.

Em contrapartida, o Turista Literário só trabalha com lançamentos. De acordo Mayra, a análise dos títulos destinados a jovens e adultos inclui uma série de avaliações. “O quanto aquele livro está sendo esperado pelo público no Brasil? Como foi o sucesso dele no exterior? Eu gostei da leitura? Acima de tudo: é uma boa viagem? A prioridade é sempre proporcionar ótimas viagens para os leitores, mesmo que sejam para fora de sua zona de conforto”, explica a curadora.

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Foto: arquivo pessoal

Leitora assídua, Tamires tem curiosidade sobre os bastidores da curadoria, que ela considera imprescindível. “Imagino que as curadoras recebam os lançamentos, busquem elementos para materializar e, enquanto leem, reflitam sobre músicas que combinam com a história. Esse trabalho requer imaginação e criatividade”, destaca a assinante.

A ansiedade para receber o kit mensal é tão grande que a estudante evita o Instagram nos dias anteriores, para não ver spoilers de outros usuários. Isso porque os assinantes dos clubes de assinatura discutem sobre os livros nas redes sociais, incluindo grupos no Facebook. Para Dambros, essas conversas são parte da experiência e contribuem para a concepção acerca da obra. “A leitura não termina quando você fecha o livro”, enfatiza.

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