Esporte

O judô que poucos conhecem

O judô fez com que Paulo Henrique superasse medos e atingisse objetivos

Paulo Amaral da Silva, mais conhecido como Paulinho por amigos e pessoas próximas, é o exemplo de que limites estão aí para serem superados. O jovem leopoldense, diagnosticado com paralisia cerebral assim que nasceu, passou mais da metade da sua vida deitado em uma cama de hospital recuperando-se de cirurgias.

Hoje o judoca é conhecido no seu espaço de treinamento, a Associação de Judô Gaba, em São Leopoldo, como um exemplo a ser seguido. Com o objetivo de melhorar a saúde física e mental, o jovem buscou um esporte visto por muitos como arriscado, devido à impressão de grande impacto físico que gera. Mas foi esse esporte que transformou a vida de Paulinho e se tornou uma prática rotineira.

Nascido de seis meses, Paulinho não tinha os pulmões totalmente formados. Isso resultou em uma má oxigenação no cérebro e desencadeou a primeira de três paradas cardíacas que sofreu. Por 45 dias, a UTI foi a sua casa e cenário para as outras duas paradas. O judoca passou grande parte da infância e da adolescência fazendo cirurgias e fisioterapia.

O judô chegou até ele em 2013 através de Fernanda, uma amiga praticante de jiu-jitsu, que aconselhou que ele procurasse o esporte. “Foi jogando futebol que eu tropecei e, para que eu não caísse com o rosto no chão, me apoiei com os braços como se estivesse fazendo flexão. Ela, por sua vez, comentou comigo ter notado que eu tinha bastante força nos braços e eu confessei a ela que sempre quis praticar alguma arte marcial, mas tinha medo de me machucar. Logo ela me falou sobre o judô e que, com ele, eu aprenderia a cair”, conta.

Hoje está há três anos conquistando espaço e divulgando o esporte de uma forma inspiradora. “Minhas conquistas no judô são diárias, principalmente em relação à parte física. Quem me viu começar no judô sabe disso, eu mal conseguia andar sobre o tatame, dava poucos passos e já caía. É aí que entra o sensei (professor) Ferreira, que nunca me deixou desistir.” Eduardo Ferreira, professor da Gaba desde 1988, conta que Paulinho mudou muito desde a primeira aula. “Melhorou na questão da coordenação, equilíbrio, autoconfiança. Houve um tempo em que ele tinha medo de cair na rua e por isso não queria mais nem sair de casa”, afirma.

Em 2016, ele foi convidado por uma amiga para realizar um treino na cidade de Canoas, com o professor Mendes Junior. Mendes foi quem o convidou para ir até a Sociedade de Ginástica de Porto Alegre (Sogipa). Paulinho brinca que perguntou com quem ele iria treinar na Sogipa e o professor brevemente respondeu: “Vai treinar com a Maria Portela e com a Mayra Aguiar”. Ambas são medalhistas olímpicas – e Mayra, além de medalhista, é campeã mundial de judô. Na hora ele não acreditou, mas aceitou sem pensar duas vezes.

“Conheci pessoas especiais, como os atletas Moacir Mendes Júnior, Maria Portela, Mayra Aguiar, Rochele Nunes, dentre outros. São muitos, se eu citar todos não acabo hoje, tamanha é admiração que tenho por cada um. Pessoas humildes e que, com sua humildade, mostram o quão grandes são e por que estão na seleção. Agora imagine você o que é pra mim, sendo deficiente físico, ter todos esses amigos e conseguir tudo isso. É simplesmente demais, único, eu diria”, conta o judoca.

 


 

Gabriela Javier, a Gabi, possui uma história de vida muito semelhante à do amigo Paulinho. Nascida também de seis meses e diagnosticada com encurtamento dos tendões, ela começou no judô com quatro anos. Sua história foi cheia de idas e voltas: Gabriela parou aos seis anos para realizar a primeira cirurgia e retornou aos nove para o judô. Na mesma época, precisou realizar outra cirurgia e ficou afastada por cinco anos. Após a última cirurgia, retomou aos 14 anos e nunca mais parou.

Aos 27 e com 12 anos de judô, Gabi conta que uma das maiores lutas dela e de Paulinho não é no tatame. Os dois não são autorizados a competir em campeonatos da Federação Gaúcha, pois não há categoria para eles. “A Federação Internacional de Judô hoje só tem classe para cegos ou pessoas com Síndrome de Down. Atualmente não encontramos com facilidade pessoas com a nossa deficiência que pratiquem o esporte, logo, não há pessoas suficientes realizando o esporte para que possam criar uma categoria.” Ela ainda afirma que, no Rio Grande do Sul, eles são os únicos com paralisia que praticam judô.

Pela falta de divulgação, e como a Federação não autoriza pessoas de sexos diferentes lutarem juntas, não há como os dois competirem fora dos torneios internos de academias. Atualmente há um projeto chamado Judô para Todos, com o objetivo de acabar com o preconceito e as limitações dentro do tatame. O projeto busca unir portadores de necessidades especiais do Brasil inteiro, e hoje possui 10 integrantes que participam de competições por todo o mundo.

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