Cultura

O filme antes de ser

Contém spoilers de como é trabalhar com cinema sem aparecer na tela

– Escrever é sempre um tormento. E depois tem que reescrever, e reescrever, e reescrever…
Assim define Leo Garcia, fundador e roteirista da Coelho Voador, produtora gaúcha de roteiros para filmes, séries e curtas. Ele e mais diversos profissionais explicam a vida por trás das câmeras. Ou bem longe delas.
Leo fez seu primeiro roteiro em 2006, um longa chamado “Em 97 era assim”. O filme só foi finalizado no ano passado. Tal demora explica os mais de 40 projetos nas mais diversas fases de andamento: tem de se produzir muito, pois, até ganhar algum dinheiro com a ideia, muitas coisas acontecem.
Roteiros de Leo Garcia

O que você vê na tela começa aqui. Foto: Henrique Kanitz/Beta Redação

Um dos trabalhos que mais orgulham Leo é o curta animado “Ed“, que acabou ganhando diversos prêmios no Brasil e fora dele. A produção foi feita em parceria com a Hype.cg, empresa de animações. Messias Cunha, diretor de produção da Hype, lembra de como foi dar vida ao Ed:
– Ganhamos o edital e tínhamos 7 meses para fazer tudo sem experiência nenhuma. Aprendíamos para aplicar no projeto. No fim, gastamos todo o dinheiro do edital e tivemos que fazer nos fins de semana, horário de almoço, fim de expediente. Foram 3 anos.
O que deixa os envolvidos no curta tão felizes é o fato dele ter rodado o mundo em festivais, ganhando diversos prêmios nas mais variadas categorias. E essa tinha sido apenas a primeira experiência da Hype.cg. Logo viriam séries no canal da Disney, projetos de longa e muita gente se especializando em cada parte do trabalho. E nada mais de propaganda.
– O que as pessoas não gostam da publicidade são os prazos. Eles não entendem que é muito mais fácil acompanharem os processos do que olharem o material pronto e apontar o que não gostaram. É trabalhar várias vezes a mesma coisa. – Pontua Cunha, que já teve de trabalhar na área para ganhar algum dinheiro.
Atualmente, a Hype.cg apenas conta histórias através de episódios de “Dino Aventuras” ou futuros projetos , como”Elis e os Buldogues”, “Walkers” e tantos outros. Para isto, conta com uma equipe enorme em sua sede, solícitos em mostrar seu trabalho, além de mais de 50 profissionais mundo afora. E muito mais serão necessários para os próximos projetos. Além da fundamental boa ideia (que envolve muita gente e tempo), produzir uma animação requer muitas etapas, formando um caminho longo até chegar no produto final. Para se ter uma ideia, fogueiras, fumaças, estrelas e outros efeitos, é preciso uma equipe de pessoas, que fazem o trabalho supervisionados por Guilherme Brenner. Sem falar na texturização, luz, RIG e tantas outras etapas.
Começando no mercado audiovisual, Mateus Frazão e Rayza Roveda já experimentaram o gosto de um filme bem produzido. O curta Jazigo, que tem a direção de Mateus e a fotografia e argumento de Rayza, venceu em seis categorias do Cineserra no certame regional. De atmosfera sombria e tensa, uma das coisas que mais chama a atenção na produção são as cores que a fotógrafa usou:
–  Foram utilizadas câmeras diferentes e a diferença de cor era enorme entre elas. Aí ela passou meses para ajustar tudo. Mas no final acabou valendo a pena porque conseguiu dar uma unidade visual para o filme. – Comenta Frazão. Outra dificuldade apontada foi a luz, porque no trabalho de Rayza ela é fixa, mas no filme, tem movimento. Ajustar-se ao prazo e a verba apertada já fez parte da experiência dos jovens produtores. Nada do dinheiro ficou com quem participou do filme:
– Acho que é assim que deveria ser gasto o dinheiro público. É difícil viver de cinema, mas é importante fazer. – Opina o diretor de influências do expressionismo alemão. Atualmente, ele está envolvido em outro projeto, um filme como “On the Road“. O motivo da viagem é surpresa, sem spoilers aqui. E a verba, vem novamente de um edital.
Leo Garcia diz que isso é muito comum no meio. Mesmo com muita experiência, perde a maioria dos que disputa porque acaba entrando em muitos:
– Mas é bom assim. Se perder, ao menos trabalhei em um novo projeto e posso melhorá-lo. Se eu ganhar, aí ele sai do papel.
Messias, da Hype.cg, explica que muitos editais são feitos para se adequar a um edital específico, que determina duração, número de episódios, público alvo, etc. mas o que todos concordam é que, quando se escreve sobre o que gosta, o resultado sempre sai melhor.
Filipe Matzembacher, roteirista e diretor na Avante Filmes, engrossa o coro:
–  Eu sinto que tenho algo a contar sobre determinado assunto, imagem, sentimento, e dali eu parto para a escrita, estudando os passos e, ao mesmo tempo, sendo deixado me surpreender. Quando leio o primeiro tratamento do argumento ou escaleta eu já sinto o filme e os seus potenciais. A partir dali é esculpir a matéria bruta até a exaustão. Se você sente a necessidade de contar aquela história/sentimento, você sabe que rende um filme.
Ele ainda dá dicas para que quer seguir a, como vimos, difícil carreira de trabalhar fora das câmeras:
– Veja muitos filmes, leia muito, vá ao teatro e procure sempre a opinião de amigos. E escute. Escute bastante o que os outros tem a dizer, mesmo que seja só para contrariá-los. E fale sempre sobre o que você sente necessidade de falar e não sobre o que os outros querem que você fale. E filme sempre que possível.
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