Esporte

OPINIÃO: O fato novo

Quando o time está mal, a mesma coisa acontece: a troca de técnico e a interrupção de trabalhos

Hora de parar para pensar. Por que no Brasil a cultura de demissão dos técnicos é tão forte, enquanto essa realidade não existe na Europa? Por exemplo: na última edição do Brasileirão, o campeonato bateu o recorde de demissões, com 32 trocas de técnicos durante a competição. Seria fácil concluir que isso é fruto da falta de convicção dos dirigentes ou de uma má gestão generalizada. Mas quantas vezes um diretor, presidente de clube ou o seu próprio amigo que discute futebol com você soltou a frase “É mais fácil trocar um técnico do que o time inteiro” ou “Precisamos de um fato novo”?. Sem dúvidas. Se você pensar em medidas paliativas, sai mais em conta demitir um treinador do que reformular um grupo inteiro de jogadores e causar o dito “fato novo” no time. E isso está acontecendo no Brasil há alguns anos. Em média, um técnico não dura mais de dois anos à frente de um clube por aqui. Mesmo ganhando títulos no ano anterior, as vitórias e conquistas caem no esquecimento após uma sequência de derrotas e de atuações ruins. Isso quando o “professor” não tem nem tempo o suficiente para mostrar trabalho. Como o caso de Vagner Mancini, em 2007, que foi demitido do Grêmio após cinco jogos, sem perder nenhum. A direção alegou que o desempenho do time, apesar das vitórias, não estava agradando. Não estou dizendo que ele foi injustiçado e que faria um ótimo trabalho, mas este é um exemplo clássico da falta de paciência dos que comandam os clubes.

Não posso ser injusto e colocar toda a culpa disso nos “cartolas” brasileiros. As decisões são pautadas também pela influência das torcidas, principalmente nos maiores clubes. Os torcedores começam a não comparecer aos jogos, vaiam o time, vandalizam a sede do clube, cobram bons resultados quando o time vai mal e a crise se instala. E também a imprensa, que colabora – e muito – para pressionar os comandantes por bons resultados. Essas ações obrigam os dirigentes a tomarem medidas drásticas e rápidas para dar uma resposta imediata aos seus torcedores. Um exemplo recente é o próprio Roger Machado, que pediu demissão do Grêmio em setembro. Sem nenhuma experiência em grandes clubes, foi contratado em 2015 e fez uma ótima campanha com o time. Teve seu contrato renovado para 2016, decepcionou na Copa Libertadores e, após uma sequência ruim no Campeonato Brasileiro, não aguentou a pressão e pediu para sair. Devo citar que o Grêmio está há 15 anos sem ganhar nenhum título de expressão, mas não acho que um profissional que esteja no clube há pouco mais de um ano e meio deva receber toda essa carga. Isso aconteceu com todos os técnicos que passaram pelo Olímpico e Arena ao longo desse tempo. Roger saiu do time com 60% de aproveitamento: 93 jogos, 48 vitórias (entre elas, o histórico 5 x 0 no Gre-Nal), 21 empates e 24 derrotas. No seu lugar veio Renato Portaluppi, maior ídolo da história do clube, e com toda aclamação da torcida vai empurrar o time até o fim do ano. Um trabalho embasado em conceitos e estudo de Roger foi trocado por um “arruma a casa” de Renato.

 

Roger Machado deixou o Grêmio com 60% de aproveitamento em pouco mais de um ano e meio no clube. Foto: Rodrigo Rodrigues/GREMIO FBPA

Roger Machado deixou o Grêmio com 60% de aproveitamento em pouco mais de um ano e meio no clube. Foto: Rodrigo Rodrigues/Grêmio FBPA

 

Essa cultura de demissão de treinadores está enraizada no futebol brasileiro, o que causa alguns efeitos colaterais. Os técnicos encurralam os clubes, exigindo multas altíssimas em caso de rescisão e, em alguns casos, largam o seu trabalho atual ao receberem uma proposta do mesmo valor, apenas pela garantia de que estarão empregados. Um exemplo é Oswaldo de Oliveira, que recebeu uma proposta do Corinthians e, como não estava bem no Sport, não teve dúvidas em aceitar o convite do time paulista faltando apenas nove rodadas para o fim do campeonato. O Sport não vinha bem, e o próprio Oswaldo alegou que não queria correr o risco de ficar desempregado até o fim da temporada.

 

No início do texto, fiz uma comparação com o futebol europeu e vou justificá-la agora. Posso usar o time que torço e acompanho da Inglaterra, o Manchester United, como exemplo. Os Red Devils, como são conhecidos, passaram 27 anos sendo treinados por Alex Ferguson, que conquistou 38 títulos com o clube. Curiosamente, Ferguson ganhou seu primeiro título com o United apenas na temporada 1989/1990, após três anos no cargo. Depois disso, empilhou conquistas nacionais e internacionais e é considerado por muitos o maior treinador da história do futebol. Sei que são outros tempos, mas será que um técnico aqui no Brasil, que assumisse um time grande e de tradição como o Manchester United, resistiria no cargo durante três anos sem conquistar troféus?

 

Sir Alex Ferguson comandou o Manchester United por 27 anos e conquistou 38 títulos. Foto: Steve Robb/Flickr Creative Commons

Sir Alex Ferguson comandou o Manchester United por 27 anos e conquistou 38 títulos. Foto: Steve Robb

Atualmente, o técnico do Arsenal, de Londres, Arsène Wenger é o técnico que está há mais tempo no mesmo time. Ele também ganhou muitas ligas e copas na Inglaterra, mas não a principal competição da Europa, a UEFA Champions League. Nos últimos anos, o Arsenal bate na trave para levantar a taça da Liga Inglesa, e o trabalho de Wenger vem sendo contestado por parte da torcida. Como disse anteriormente, por aqui, a torcida tem grande influência nas decisões tomadas pelos dirigentes em relação à manutenção dos técnicos. Portanto, questiono novamente: será que Wenger resistiria a essa pressão no Brasil? Citei dois casos extremos de técnicos que estiveram mais de duas décadas num mesmo time, mas mesmo que os demais treinadores passem menos tempo nos clubes, é muito difícil que eles tenham seus trabalhos interrompidos em meio a uma temporada ou, em alguns casos, até o fim do seu contrato.

No próprio Manchester United, que desde a saída de Ferguson está tentando se reencontrar, o técnico holandês Louis Van Gaal teve duas temporadas para fazer com que o time voltasse ao caminho dos títulos. Neste período, ele classificou o time para a UEFA Champions League e ganhou uma Copa da Inglaterra. Muito pouco para um time do tamanho do United. Mesmo tendo mais um ano de contrato, ao fim da temporada 2015/2016 teve seu desempenho avaliado e seu contrato foi rescindido. Ainda assim, pode-se dizer que a sua passagem pelo Manchester terminou no fim de um período, e não no meio de um trabalho. Os técnicos europeus têm essa garantia e podem pensar num rumo diferente quando as próximas competições começarem e, consequentemente, têm mais tempo para colocar seu trabalho e realmente provar se são ou não capazes de estar onde estão.

Para mim, esse é o ponto-chave. Ninguém consegue mostrar toda a sua capacidade em poucos meses, principalmente em um esporte tão exigente e competitivo como o futebol. Acredito que essa cultura de demissão, além de diversos outros fatores, contribui para o desnível entre o futebol brasileiro e o europeu.

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