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O desabafo contra a violência nas redes sociais

Relatos de violência surgem nas redes sociais como uma espécie de empoderamento da palavra dos internautas

Basta olhar o seu feed de notícias no Facebook, diariamente, que será surpreendido por mais um amigo, vítima da violência. Assalto à mão armada, roubo, agressão física, violência sexual. Tudo está na rede, com uma dimensão ainda maior do que é noticiado regularmente. As redes surgem como uma possibilidade de empoderamento da palavra – “Ei, eu estou aqui, quero e posso ser ouvido”.

De acordo com as estatísticas da Polícia Civil do RS, em 2016, foram registrados cerca de 2,6 mil homicídios, 86,7 mil casos de roubo e 164 latrocínios. Em 2006, por exemplo, foram registrados cerca de 1,4 mil homicídios, 60 mil casos de roubo e 143 latrocínios, o que revela uma estatística crescente nessas ocorrências.

A auxiliar de biblioteca Rejane Borba Pereira foi vítima de uma tentativa de roubo. Estava em uma parada de ônibus, no Centro Histórico de Porto Alegre, e um jovem tentou roubar seu telefone celular, sendo autuado em flagrante. Após ter passado mais de cinco horas presa no Palácio da Polícia, devido à burocracia para registrar a ocorrência, surgiu a necessidade de compartilhar a experiência nas redes sociais. “Comecei a me questionar sobre o que acontece na sociedade. Nunca pensei que isso ia acontecer comigo. Como poderia aquele jovem, desarmado, tomar aquela atitude?”, questiona-se.

 

Rejane recuperou o seu aparelho celular após passar cinco horas no Palácio da Polícia. Foto: Beta Redação/José Francisco Júnior

Rejane recuperou o seu aparelho celular após passar cinco horas no Palácio da Polícia. Foto: Beta Redação/José Francisco Júnior

A vítima sentiu-se parte de duas estatísticas. Ao mesmo tempo que foi roubada, a segurança pública, embora morosamente, resolveu o seu problema. O delinquente foi detido, embora não se saiba quando tempo ele permaneceu nessa condição. Ao compartilhar a experiência nas redes sociais, imprimindo uma influência literária numa espécie de crônica, surgiram manifestações diversas. “Algumas pessoas interpretaram a minha postagem como uma ironia. Embora preocupados, acharam graça do que escrevi. Outros sentiram raiva, indignação. Me disseram que bandido bom é bandido morto e eu não concordo com isso, essa não é a minha visão”, frisa.

Para Rejane, o relato surgiu como um protesto, uma forma de libertação. “Compartilhei a minha experiência com o intuito de me libertar do fato em si. Sentia a necessidade de dizer que o trauma não iria me prender a nada. A repercussão foi um pouco acima do normal, não sou uma popstar. Após isso, apenas mudei alguns hábitos, embora a lembrança de cada minuto daquelas cinco horas tenha permanecido”, revela.

 

O post, de acordo com a própria Rejane, chegou a 89 curtidas e 25 comentários, uma média acima da normalidade.

O post, de acordo com a própria Rejane, chegou a 89 curtidas e 25 comentários, uma média acima da normalidade de seu perfil.

 

As postagens, geralmente,  revelam prejuízos materiais, como roubo de telefones, bolsas e mochilas, veículos, mas as notícias constantes de roubo seguido de morte, espancamentos e violência sexual impulsionam postagens relacionadas à violência. No Facebook, por exemplo, é possível seguir páginas que retratam a violência cotidiana, com fotos de pessoas baleadas, vídeos de agressões e apreensões policiais. A página Notícia POA 24hs, no Facebook, possui cerca de 2,5 mil curtidas, enquanto a página POA 24hs já ultrapassou as 114 mil curtidas.

 

Da agressão à fama e uma legião de seguidores

 

Braulio Escobar, o primeiro motorista do Uber em Porto Alegre,  viveu dias difíceis em 2015. Do anonimato às capas dos jornais e revistas, inclusive o norte-americano Chicago Herald, até a entrevista no Programa da Fátima Bernardes, da TV Globo, Escobar foi vítima de um ato de violência. Em novembro de 2015, com a recém chegada do Uber, passou por uma emboscada de um grupo de taxistas. Rodou por cerca de duas horas acompanhado dos indivíduos e, ao final,  em um estacionamento de supermercado da Capital, sofreu agressões físicas com sérias lesões corporais. Escapou ao delito, devido à intervenção de outras pessoas. O vídeo da agressão viralizou e, ao sair do Pronto Socorro, deparou-se com repórteres e fotógrafos de diversos canais de comunicação.

 

Escobar ainda com algumas marcas no final de 2015. Foto: Facebook/Arquivo Pessoal.

Escobar ainda com algumas marcas no final de 2015. Foto: Facebook/Arquivo Pessoal.

 

A vítima não se furtou de expressar nas redes sobre o acontecido,  compartilhando as notícias publicadas nos principais  portais de comunicação do Estado. De acordo com Escobar, as reações dos amigos foram duas: inicialmente, solidariedade e compaixão, seguidos de oportunismo, afinal, ele tornou-se uma celebridade. “Muito amigo ressurgiu, ex namoradas quiseram voltar e alguns parentes lembraram que eu existia”, revela. De acordo com o ex motorista, foram mais de 70 mil comentários no Facebook, Instagram e Twitter.

“Não senti necessidade de expor nada nas redes sociais, o fato se expôs sozinho. O Facebook funcionou como um meio de contato direto entre mim e as pessoas. Se formou um vínculo. Pessoas preocupadas, outras curiosas e até os advogados de defesa dos agressores, tentando invalidar o que realmente aconteceu durante a agressão. As mensagens de apoio que eu recebi me ajudaram a superar”, conta Escobar.

 

Escobar possui mais 20 mil seguidores no Facebook, Instagram e Twitter.

Escobar possui mais 20 mil seguidores no Facebook, Instagram e Twitter.

 

Embora esteja lidando da melhor maneira possível com o trauma, após cerca de um ano e meio, Escobar optou por não seguir com as atividades como motorista do Uber. “Fiquei com síndrome de pânico, levei meses para voltar a dirigir. Até hoje tenho problemas graves em me relacionar com pessoas e desenvolvi um sentido de auto-preservação exagerado. O mais interessante é que os meus agressores estão soltos e já voltaram a trabalhar”, destaca.

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