Economia

OPINIÃO: Qual o conceito de crise, afinal?

Há pouco mais de um mês, em 26 de agosto, a Folha de S. Paulo publicou uma matéria abordando o aumento da procura por emprego pelos jovens. No texto, a história de uma estudante paulista de 20 anos que nunca viu necessidade de conciliar os estudos com o trabalho. A renda familiar era suficiente para, além de bancar a adolescente, pagar a faculdade de Arquitetura e Urbanismo na Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP), que conta com mensalidades de mais de R$ 3,3 mil. Diante do cenário de crise, vendo a necessidade de ajudar nas despesas, ela não consegue emprego – o que é esperado, já que cada vez mais vemos empresas cortando os gastos.

Após ler a matéria, duas coisas me vieram à cabeça. A primeira: se a coisa está ruim para a estudante que tem a faculdade de R$ 3,3 mil paga pela família e nunca precisou de emprego, imaginem só como está para quem já era obrigado a trabalhar para tentar avançar dentro de uma universidade. A segunda: espero que, com essa história, a Folha não tenha tentado refletir a realidade do país; até porque passa bem longe disso.

Conheço, sim, histórias de pessoas que têm a oportunidade de apenas estudar. E conheço, em número esmagadoramente maior, histórias de pessoas que precisam trabalhar para pagar as próprias contas, e depois pensar em manter uma formação acadêmica. O que me espanta é que, enquanto muitos lutam para conseguir manter um padrão de vida que foi atingido depois de muito esforço (ou ainda tentam alcançar a estabilidade), outros encaram a “crise” – porque na situação deles cabem as aspas – abrindo mão de hábitos que a maior parte da população vê como luxo.

Em Porto Alegre, o show da banda Maroon 5 teve os ingressos VIP, vendidos a R$ 480, esgotados no primeiro dia. No Rock in Rio, pelo menos 100 peças de um souvenir que não passa de um pouco de lama da edição de 1985 do festival, ao custo de R$ 185, já foram vendidas. São exemplos como esses que me fazem questionar se a crise de fato existe ou se é apenas um método estranho de definir prioridades adquirido pelos brasileiros a partir da classe média.

Enquanto vejo amigos que seguem trabalhando para pagar as contas e conseguir um diploma, leio sobre esses casos de estranha adaptação ao cenário. Entre eles, famílias que deixam de comer fora, ou pessoas que passam a comprar cervejas nacionais. Tudo pintado como um grande sacrifício; como se fosse, de fato, um reflexo do pior que o brasileiro tem enfrentado.

Se essa realidade, de abrir mão de pequenos luxos, fosse o reflexo do país, acredito que eu nem chegaria a cogitar o uso da palavra “crise”. Ao me deparar com os exemplos que a mídia aponta, só posso concluir que a verdadeira crise do Brasil é bem pior que a econômica. É o fechar de olhos para a maioria, que vive a crise desde que chega ao mundo. É passada a hora de parar de nivelar os problemas por cima. É preciso passar a enxergar o mundo real.

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