Esporte

O ciclo oculto: a menstruação ainda é um tabu no esporte

Mesmo com os avanços da participação feminina, falar sobre a saúde da mulher atleta ainda é motivo para desconforto

 

mouni

Os primeiros absorventes surgiram na década de 30 causando uma revolução na vida das mulheres./
Arte:Mouni Feddag for NPR

As mulheres participam das Olimpíadas Modernas desde a sua segunda edição em 1900. Naquela época, elas representavam apenas 2,2% dos atletas na competição. Já em 2016, nas Olimpíadas do Rio, bateram recorde ao ocupar 45% das vagas no mundial. Apesar do aumento no número de mulheres olímpicas, como mostram os dados da web revista Gênero e Número, em algumas modalidades o preconceito e a falta de incentivo ainda prevalecem. A presença das atletas também impacta na discussão de temas relevantes para a atuação e desempenho feminino nos esportes. A medalhista de bronze da China, Fu Yuanhui, ao comentar sobre seu rendimento durante a prova de 100m costas, em que estava menstruada, gerou repercussão mundial e mais uma vez o tema ganhou manchetes(ou memes) como tabu. Para as mulheres, o tema não tem nada de novo, já que todas elas passam pelo processo biológico durante uma parte da vida. Através da ginecologia do esporte, descobrimos que exercícios, rendimento e ciclo menstrual tem muito mais afinidade do que mistério.

Em São Paulo, a Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) possui um ambulatório voltado especificamente para o tratamento e acompanhamento de mulheres que praticam esportes, sejam profissionais ou não. Além dos atendimentos e orientações, o setor de ginecologia do esporte opera em pesquisas sobre a saúde das mulheres atletas. Um estudo recente realizado pelo núcleo apontou que 60% das corredoras de longa distância sofrem distúrbios de incontingência urinária.

As alterações químicas e fisiológicas causadas durante as diferentes fases do ciclo, podem estabelecer qual o melhor período para uma competição importante. Enquanto algumas mulheres preferem diminuir a intensidade dos exercícios ou até mesmo parar durante a menstruação, para outras, o rendimento não é alterado, e algumas até se sentem melhor. Para Amália Viana, de 22 anos, ruim mesmo é não treinar. “Não me sinto bem para treinar quando estou nesses dias, mas vou me sentir muito pior se eu não for”, conta a estudante de administração que treina muay thai há quatro anos, de 3 a 5 vezes por semana. “Normalmente o primeiro dia eu evito ir treinar devido a quantidade de fluxo, sinto-me mais cansada e menos disposta devido às cólicas. Nos outros treinos da semana, quando o fluxo é menos intenso, eu utilizo um absorvente noturno e um short bem justo debaixo do calção de treino”, explica a esportista.

Para a ginecologista Aline Cesar Ferreira da Silva, a escolha do absorvente depende muito do esporte e do fluxo da atleta, “atendo atletas que usam vários tipos de produtos para conter o fluxo, mas a maioria delas prefere não competir menstruada”, relata a médica. Para quem treina todos os dias, não tem escolha. A professora de dança Fabíola Appel, de 41 anos, já fez ginástica olímpica e capoeira, além de dançar desde os 2 anos. “Dou aula todos os dias, mas faço treinamento funcional e ballet Fit para me ajudar”, destaca a bailarina. “Já treinei durante a menstruação e só me sinto mais inchada e cansada, mas faço tudo normalmente, nunca me impediu de nada”, assume a professora de dança formada em educação física pela Unisinos.

Por se tratar de uma questão hormonal, o ciclo varia conforme cada organismo, o que requer observação. Para a professora de zumba e estudante de educação física, Lorien Reche Garcia, de 22 anos, “as primeiras menstruações era muito ruins, com muito incômodo e muita dor, mas depois foi reduzindo pois o organismo acostuma com o ritmo imposto pelo treino”. A sensação de adaptação e resistência a dor e ao inchaço, é resultado do equilíbrio entre esforço físico, intensidade e alimentação balanceada. “Acho que a atividade física me ajuda muito, principalmente nesse período, por liberar endorfina, sempre me sinto melhor, mais calma e mais leve, depois da atividade” afirma a estudante de 23 anos, Jéssica Beltrame, que  faz musculação, crossfit e corrida. “Sempre que eu to estressada, com dor ou com algum problema eu vou correr, acho que ajuda a aliviar as tensões do dia-a-dia”, recomenda. “Notei que os sintomas da minha TPM, que antes eram insuportáveis, diminuíram depois que comecei a me exercitar e a controlar mais a alimentação”, conclui Jéssica.

Os produtos e medicamentos voltados para o ciclo menstrual das atletas também interferem no desempenho delas, e muitas vezes até na participação de provas. Um estudo publicado na Revista da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia aponta que um dos principais motivos nos casos de dopping está no desconhecimento da lista de substâncias que são encontradas em alguns anticoncepcionais, remédios para cólica e até em cremes e produtos estéticos. Entre as atletas de alto nível, 60% tem a menstruação interrompida devido a rotina de treinos intensa e alimentação desregulada, ou mesmo por optarem por interromper o fluxo através de contraceptivos. A amenorreia, que além de ser uma palavra feia também descreve a ausência do fluxo menstrual, acomete as atletas que tem uma rotina de treino acentuada sem a reposição de suprimentos necessários. A deficiência em vitaminas e fadiga podem levar a chamada Tríade da Mulher Atleta, que além de distúrbios alimentares e amenorreia, pode causar osteoporose.

O acompanhamento necessário das atletas nem sempre é uma realidade. Enquanto algumas controlam o fluxo através de um aplicativo no celular, que recebe informações via bluetooth, outras mulheres juntam miolos de pão para fazer absorvente improvisado, como relata o livro Presos que menstruam. Em 2015, a maratonista Kiran Gandhi correu uma prova de 42 Km sem usar absorvente, como uma forma de protesto para dar visibilidade ao tema. “Eu corro com o sangue escorrendo entre minhas pernas pelas minhas irmãs que não tem acesso aos absorventes e para as minhas irmãs que, apesar da dor e do desconforto, escondem e fingem que [a menstruação] não existe”, declarou a maratonista.

O feito de Kiran foi muito comentado na mídia e também gerou debates sobre o tabu da menstruação./ Foto: Courtesy of Kiran Gandhi

O feito de Kiran foi muito comentado na mídia e também gerou debates sobre o tabu da menstruação./ Foto: Courtesy of Kiran Gandhi

Lida 1059 vezes

Comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Por favor resolva a equação * Time limit is exhausted. Please reload the CAPTCHA.