Esporte

O Brasil é uma potência paralímpica?

Análise comparativa entre países nas Paralímpiadas

Desde 2004 o Brasil vem apresentando uma performance paralímpica crescente, e muito acima dos resultados olímpicos. Porém, justamente no ano em que sediamos o evento esportivo, o desempenho brasileiro no quadro de medalhas recuou.

O 8º lugar, e as 14 medalhas douradas, número igual ao atingido em 2004, põem à prova a ideia de que o Brasil possui um melhor desempenho nessas modalidades. Levantamento de dados dos quadros de medalhas das últimas quatro Paralimpíadas (período de 2004 a 2016) mostra que o Brasil talvez não seja “aquela” potência paralímpica. Mas por quê?

 

comparativo de quadro de medalhas

Gráfico comparativo de quadro de medalhas (Arte: Thiago Santos/Beta Redação)

 

Olimpíada x Paralimpíada

O desempenho paralímpico de alguns países é bem diferente do demonstrado nas Olimpíadas. Casos como o do Japão, exposto no gráfico com poucas medalhas, chegando a nenhum ouro no Rio 2016, reforçam a ideia de que a realidade paralímpica é outra. Em matéria divulgada após as competições desse ano, o presidente do Comitê Paralímpico Japonês, Mitsunori Torihara, explicou que a péssima atuação do país, sede da próxima Paralimpíada, em 2020, foi inesperada. Porém Mitsunori não entrou em detalhes sobre os motivos do fracasso japonês.

No entanto, há também aqueles países que conseguem impor uma força paralímpica semelhante à demonstrada nos Jogos Olímpicos, como China, Grã-Bretanha, Estados Unidos e Rússia. Inclusive, a Rússia, provavelmente, só não figurou entre as maiores medalhistas deste ano devido à proibição da delegação de participar da competição por doping.

Já o Brasil vem conseguindo apresentar um desempenho significativo nas competições paralímpicas nos últimos 12 anos, com destaque para Londres, 2012, onde faturamos 21 ouros. É claro que, dentro do fator Olimpíada x Paralimpíada, o Brasil é um dos países em que a realidade é outra, o desempenho é diferente.

 

Desempenho x população

Em entrevista ao Nexo, o professor da faculdade de Educação Física da Unicamp, José Júlio Gavião, procurou demonstrar as características dos países com melhor desempenho nas Paralimpíadas. Quando citou a China, o professor destacou o tamanho da população chinesa como um dos fatores de sucesso do país nas Paralimpíadas.

Com base no gráfico já apresentado, a China teve um desempenho de uma medalha de ouro para cada 15 milhões de habitantes nos jogos de 2008, quando foi o país sede. Já o Brasil, no Rio 2016, teve um desempenho de uma medalha dourada para cada 14,2 milhões de habitantes, desempenho acima do Chinês como país sede.

É claro que não é a densidade demográfica o principal fator de sucesso de um país nas paralimpíadas. Se assim o fosse, a Índia, com mais de 1 bilhão de habitantes, estaria no topo dos quadros de medalhas, quando tanto em Olimpíadas, quanto em Paralimpíadas, figura apenas como participante da competição.

Potências Paralímpicas

Ao citar desempenho versus população, conclui-se que as verdadeiras potências paralímpicas são Grã-Bretanha e Ucrânia, pois nas últimas quatro Paralimpíadas os dois países europeus obtiveram resultados invejáveis.

Para fins de comparação, a equipe da Grã-Bretanha conseguiu, no Rio 2016, a marca de uma medalha de ouro para cada 937 mil habitantes. Já a Ucrânia obteve um ouro para cada 1,1 milhão de habitantes.  Imagina se estes países tivessem o nível de desenvolvimento que possuem e uma população igual a da China? As Paralimpíadas não teriam mais graça.

 

Tá, mas e o Brasil?

Nos últimos jogos Pan-americanos, em 2015, o Brasil chegou ao 1º lugar do ranking geral de medalhas. A posição, nunca antes obtida, parecia solidificar a potência paralímpica brasileira. Só que nas Paralimpíadas do Rio 2016 isso não se confirmou. Ficamos em 8º lugar, com aquela sensação de que poderíamos ter feito mais.

Entre os milhares de comentários que rolaram após os jogos, muitos apontaram a falta de investimento como um dos fatores chave para o fracasso brasileiro. Porém, segundo matéria do Nexo, o investimento do governo brasileiro entre o inicio de 2013 e julho de 2016 nos esportes paralímpicos foi de 375 milhões de reais. Apenas para comparação, a Grã-Bretanha (maior potência paralímpica) investiu 314 milhões de reais no mesmo período.

Então qual é o nosso problema? Através dessa reportagem não foi possível estimar quantos atletas paralímpicos a Grã-bretanha trouxe ao Brasil. Segundo o jornal Folha de São Paulo, o Brasil veio com a maior delegação paraolímpica de sua história na competição, contando com 285 atletas, dos quais 80 deles eram considerados do grupo de elite, com chances muito claras de pódio. E o resultado? Apesar de receber menos ouros, o Brasil bateu seu recorde de medalhas no quadro geral, com 72 medalhas, sendo 29 de prata, 29 de bronze e 14 douradas.

Em 2016 o Brasil não demonstrou os resultados traçados nos jogos Olímpicos e Paralímpicos. Porém, quando comparamos nosso desempenho com o da China, por exemplo, o Brasil é, sim, um dos grandes países paralímpicos, tendo atingido resultados por densidade populacional superior ao chinês.

É claro que ainda precisamos melhorar. E, nesse ponto, países como Grã-Bretanha e Ucrânia são os exemplos paralímpicos a serem seguidos. Mas entre os países em desenvolvimento, ou B.R.I.C.S, tiradas as devidas proporções populacionais, somos sim uma potência paralímpica, atrás apenas da África do Sul.

Porém, não devemos olhar apenas a posição no quadro de medalhas, ou número de “douradinhas”. Os números demonstram 72 medalhas, um ouro para cada 14,2 milhões de pessoas, ou seja, no Rio 2016 fomos muito bem.

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