Cultura

O beijo no asfalto: chocando a família tradicional brasileira

Espetáculo retrata a diversidade sexual e os preconceitos da sociedade contemporânea

Impactante seria pouco para descrever a releitura da peça de Nelson Rodrigues, encenada pelo grupo Cambada de Teatro em Ação Direta Levanta Favela. O Beijo no Asfalto entrou em cartaz nesse sábado, dia 1° de outubro, em sua segunda e última temporada, que vai até o final do mês, com apresentações todo sábado, às 21h. O espetáculo, que teve três indicações ao Prêmio Açorianos de Teatro de Porto Alegre em 2015, vem chocando a família tradicional brasileira e cumprindo seu objetivo: fazer as pessoas refletirem.

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Teatro de vivência leva o público para dentro da cena. /Foto: Luísa Boéssio/ Beta Redação

 

O chamado teatro de vivência começa no 4° andar do Centro Cultura da Usina do Gasômetro, e se desenvolve pelos corredores até a sala 505. Logo de cara percebemos que esta é uma peça diferente do que estamos acostumados a ver. O cenário vai se modificando, acompanhando o enredo conforme o espaço ocupado, entrando e saindo da sala. A interação entre público e atores dá aos espectadores a sensação de estar dentro da cena, como se fossem parte atuante da construção daquela história.

A atração é uma mistura de sentimentos despertados por cores, cheiros, e formas; a nudez do corpo e da alma de personagens reais. O olhar de um público curioso encontrou o olhar de quem está vivendo a arte na sua forma mais profunda de entrega. Como os integrantes do grupo afirmam, eles não são só atores, são agitadores profissionais.

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Agitadores profissionais, Levanta Favela toca em questões da contemporaneidade. /Foto: Luísa Boéssio/ Beta Redação

 

O espetáculo do excêntrico Nelson Rodrigues continua tão atual quando na época que foi escrito, em 1960. Um beijo de misericórdia entre dois homens é o pontapé deste enredo que busca questionar uma sociedade preconceituosa e levantar a bandeira da diversidade sexual. Tocando em uma questão contemporânea e polêmica, a peça divide opiniões. Segundo a sonoplasta Gabrielle Dalagna, 20 anos, algumas pessoas saem no segundo ato da atração assustadas. “A avó e uma tia de uma integrante da Cambada saíram logo no começo da atração dizendo que o que acontece ali não é teatro e sim uma orgia bagaceira. Ali não eram atores e atrizes e sim gente fazendo sacanagem”, conta. Segundo Gabrielle esse não é um caso isolado. Mas isso não teve uma repercussão negativa nos bastidores, bem pelo contrário, para eles cumpriu sua proposta de impactar.

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Um beijo de misericórdia entre dois homens escancara o preconceito social. / Foto: Luísa Boéssio/ Beta Redação

 

Para Eduardo Dario, ator que estava prestigiando a apresentação, a peça é um tapa na cara da caretice. “Espetáculo maravilhoso, quebrando tabus. Pena que não tem incentivo e reconhecimento financeiro, uma peça de alto nível em uma sala minúscula no 5° andar”, afirma. O reconhecimento que Eduardo fala geralmente não acontece na área da cultura, mas no caso de movimentos independentes a situação é ainda pior.

Ordem de despejo

O Centro de Cultura da Usina do Gasômetro é um dos espaços culturais mais importantes da capital. A antiga usina está aberta à população como centro cultural desde 1991. São 18 mil metros quadrados que abrigam auditórios, anfiteatros, bibliotecas, cinema, estúdios, teatro e tantas outras formas de apresentar a arte. Agora, esses espaços serão fechados para reforma, deixando dezenas de grupos sem um local para se reunir e promover suas ações. A ordem de despejo esta marcada para o  dia 18 dezembro, cinco dias depois  da estreia da nova peça do grupo “A mulher crucificada”. Existe um edital que vigora até o meio de 2017, e agora começa uma batalha para que a prefeitura assente a Cambada.

Levanta Favela

 

 

O grupo Cambada de Teatro em Ação Direta Levanta Favela é um movimento autônomo de teatro popular, que vive de um trabalho feito coletivamente desde 2008. Porto Alegre é o palco para as diversas atrações: teatro de rua, teatro de vivência e intervenções cênicas. O engajamento com movimentos sociais dá o norte para o grupo. Na estética e linguagem, os agitadores colocam em pauta discussões atuais do nosso contexto social, propondo a arte como agente transformador da sociedade. Sem patrocínio de empresas ou do Estado, o Levanta Favela realiza suas atividades gratuitamente ou a preços populares.

Há oito anos no grupo, Sandro Marques, 46 anos, fala sobre a dificuldade de viver da arte, que não é sua fonte de renda. Sandro, que interpreta o personagem principal Arandir, é funcionário da prefeitura de Porto Alegre, e conta que mesmo se todos pagassem o valor integral do espetáculo, ainda não cobriria nem os gastos. Mesmo assim, vê seu trabalho de ator como algo transformador: “Em um momento de retrocesso como o que vivemos no nosso país é válido levantar a bandeira da diversidade sexual, e nós levantamos a bandeira da militância. Primeiramente do anarquismo, de uma sociedade sem governo”, afirma.

 

Foto: Divulgação/ Levanta Favela

O espetáculo O beijo nos asfalto contará com mais três apresentações, que acontecem  aos sábados (08, 15 e 22 de outubro) a partir das 21h no 4° andar do Centro de Cultura Usina do Gasômetro. (Foto: Divulgação/ Levanta Favela)

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