Cultura

O alto-astral de Cíntia Moscovich

Conheça um pouco da história da patrona da Feira do Livro de Porto Alegre

De mochila nas costas e com passos curtos, ela entra correndo na sala O Retrato do Centro Cultural CEEE Érico Verissimo. Lá dentro estavam cerca de 12 pessoas aguardando o início da oficina de escrita criativa. Com um pequeno discurso, dá por aberta as atividades. Com passos mais lentos e um copo de água na mão, ela senta na cadeira, olha ao redor e afirma: “É correria”. Estamos falando de Cíntia Moscovich, a patrona da 62° Feira do Livro de Porto Alegre. Com suor visível no rosto, a quinta mulher a assumir o cargo mais importante da feira admite que está adorando cada minuto dessa nova ocupação. “Eu cobicei desde sempre ser patrona da Feira do Livro, mas me sentir no direito de ser patrona era algo muito distante”, relata.

Quando o nome de Cíntia Moscovich foi anunciado, a emoção transbordou, mais emocionante que as premiações internacionais. Segundo ela, nenhuma outra premiação tem o sabor do patronato e de ser reconhecida na cidade onde nasceu. O patrono de uma feira do livro personifica todos os autores, escritores, editores e leitores e representa o Estado do Rio Grande do Sul e a câmara de livros. Cíntia está presente em quase todas as premiações e oficinas da feira. Para ela, é muito bom ser cumprimentada por todos os frequentadores do grande evento. “As pessoas param o patrono, abraçam e beijam”, conta ao explicar a representatividade que existe na função. Ao receber tanto carinho, ela transborda de afeto e bom humor.


A alma leve e o sorriso aberto

Cíntia Moscovich nasceu em Porto Alegre no dia 15 de março de 1958. De família judaica, estudou no colégio tradicional Israelita. A paixão pelas palavras a fez escolher o jornalismo como formação superior, mas foi como escritora que encontrou a felicidade. Durante a trajetória de jornalista sempre esteve perto dos livros. Foi diretora do Instituto Estadual do Livro (IEL), trabalhou no jornal Zero Hora como setorista de livros e colaborou nas coberturas da Feira do Livro para cadernos especiais e revistas.

 

Cintia como diretora do IE, no lançamento do 3° volume de Finnicius Revém. Foto: Arquivo Pessoal.

Cíntia como diretora do IE, no lançamento do 3° volume de Finnicius Revém. Foto: Arquivo Pessoal.

Ao longo da trajetória como escritora, Cíntia recebeu muitos prêmios, entre eles, o primeiro lugar do Departamento de Línguas Ibéricas da Radio France Internationale de Paris e o Prêmio Literário Portugal Telecom, na categoria contos e crônicas. As primeiras publicações ocorreram em 1996 com O Reino das Cebolas. Em 2000, lançou as Anotações Durante o Incêndio, com apresentação de Moacyr Scliar e onze textos de temáticas diversas e destaque ao judaísmo e à condição feminina. As últimas publicações foram o romance Por que sou gorda, mamãe? e o romance infantojuvenil, Mais ou menos normal que faz parte da coletânea Cidades Visíveis ,da Publicafolha. Apesar do romance ter uma liberdade maior para a história e o conto ser mais limitado, a escritora não tem preferência. “O que me leva a escrever são pequenos detalhes do cotidiano, não tem nenhum mistério. Eu observo o mundo como ele é”, explica.

Foi no Grupo RBS que começou a amizade com Carlos André Moreira, atual editor de cultura e entretenimento da Zero Hora. Eles se conheceram no início dos anos 2000 e conversavam muito pouco pelos corredores da redação. Cíntia era setorista da editoria de livros da empresa e André trabalhava na área de esporte, ou seja, sem assuntos em comum. Três anos se passaram e André foi chamado para substituir uma jornalista que estava viajando e ajudar na cobertura da Feira do Livro de Porto Alegre. O trabalho do jornalista foi tão bom que acabou trocando de editoria, fazendo com que André e Cíntia trabalhassem lado a lado no Segundo Caderno. “Era uma festa quando a Cíntia estava na redação! Sempre divertida, de bom humor. Alegrava os dias de fechamento do jornal”, relembra o colega de profissão.

A primeira saída de campo trabalhando juntos foi na I Jornada de Passo Fundo. Viajaram juntos e lá construíram essa amizade que permanece até hoje. “Foi tudo muito divertido, porque sempre tinha alguém que falava alguma piada e a ela começava a rir. E foi muito divertido trabalhar com ela”, conta. Com a escritora, André aprendeu a ler de uma maneira diferente e pensar de uma maneira diferente, principalmente em relações a críticas. Segundo o editor, foi possível fazer críticas sem intenções maldosas. Para o amigo, Cíntia tem como principais características o bom humor, a lealdade e o afeito entre as pessoas.

 

Cíntia comemorando o aniversário ao lado da mãe, Geni. Foto: Arquivo pessoal.

Cíntia comemorando o aniversário ao lado da mãe, Geni. Foto: Arquivo pessoal.

 

A ovelha negra da família

De origem judaica, Cíntia cresceu ao redor das tradições religiosas. Foram muitas idas a sinagoga, jejuns e jantares. Porém, ela admite: nunca foi muito ligada à família. Até o casamento ela conseguiu driblar as tradições. “Há um hábito nas famílias judaicas, até hoje, de evitar casamentos com não judeus. Mas eu mandei a merda tudo isso, me apaixonei e casei com o homem que eu quis!”, lembra. Atualmente, não pratica mais os jejuns, mas continua frequentando os encontros em grupo e se enquadra na parte dos judeus assimilados ao mundo novo. A criação dentro das éticas judaicas fez Cíntia perceber o mundo com outros olhos somente quando ficou independente. “O fato da gente viver sempre do mesmo jeito e a nunca ser chamado a atenção tornou tudo muito mais natural”, explica.  As tradições eram tão naturais que ela achou muito estranho os outros cultos religiosos.

A patrona da 62° Feira do Livro de Porto Alegre gosta de se divertir com o marido e os amigos, se irrita facilmente com a burrice e encanta-se com qualquer manifestação humana – de plantas a animais. Em sua casa, tem muitas flores, quatro gatos e dois cachorros. “Eu não consigo imaginar a minha vida sem o meu jardim e os meus bichos”, enfatiza. Segundo ela, o seu lar é um templo de paz, quase uma casa de hippie. “Lá em casa só tem amor, fora a creche ali do lado”, referindo-se a polêmica creche do Grêmio Náutico União.


Da espiritualidade ao mais íntimo do lar

“Ela é extremamente apegada à casa, à família e ao marido. Para ele, o lar é um lugar sagrado! O prazer dela é ficar em casa. É uma esposa fantástica!”, define Luís Paulo Fassori– o marido dela. Eles são casados há 34 anos e se conheceram por meio da música e de amigos em comum. “Uns dias antes do MusiPuc, era aniversário da minha colega de faculdade, que por coincidência era muito amiga da Cíntia. Quando eu cheguei no local da festa, encontrei a Cíntia toda colorida! Ela vestia uma bombacha e bota toda estilizada e um collant, que era moda naquela época. Aquilo me chamou atenção, era um ser diferente que gostava de coisas muito diferentes!”, relembra o esposo, desde o início apaixonado pelo estilo irreverente da esposa.

Algumas semanas se passaram e o casal já estava apaixonado. As diferenças não prejudicaram o amor que existia era os dois, nem mesmo a divergência religiosa. Cíntia é de origem judaica e Luís, católica. O desejo do matrimônio não foi adiado, casaram no civil e realizaram uma grande festa com amigos e familiares. “Como eu não sou judeu, existe uma certa resistência da família devido a isso. Mas depois do nosso casamento eu fui acolhido tão bem que me sinto em casa e como um judeu! Eu aprendi a gostar dessa religião”, conta.

A admiração foi tão grande que ele pensou em se converter e casar novamente com ela dentro das normas judaicas, mas os amigos e a família surpreenderam o casal. Foi na festa de 25 anos de casamento, na comemoração das bodas de opala, que o casamento com todo o ritual foi realizado. “Eu quebrei o cálice com o pé e nos levantaram na cadeira como fazem em todos os casamentos”, lembra, emocionado. Para ele, esse foi um dos momentos mais marcantes ao lado da escritora.

Apesar de carregar leveza e bom humor por onde passa, a jornalista e escritora também tem momentos de introspecção. Pisciana nata, Cíntia é misteriosa e cria dentro de si um mundo além da realidade. O marido confessa que muitas vezes não sabe o que se passa dentro da cabeça da esposa e que, muitas vezes, prefere ficar em silêncio e recolhimento.

Sempre alegre, Cintia é lembrada pelo bom humor. Foto: Tainá Rios

Sempre alegre, Cíntia é lembrada pelo bom humor. Foto: Tainá Rios

Aos olhos do marido, Cíntia é persistente, generosa e criativa. Segundo Luís, ela é muito obstinada e não desiste fácil dos sonhos. A alegria que traz no rosto é contagiante, sempre atenta percebe um novo movimento em cada detalhe e, claro, tudo isso a faz uma ótima escritora.

E para o futuro?

Com o passar dos anos, a escritora percebeu a importância da família. O irmão do meio, Henrique Moscovich, acompanhou todos os momentos do câncer. Ela lembra até hoje do momento em que Henrique passou todas as noites ao lado da cama de hospital. “Ele sentou com aquele notebook e disse que eu não iria ficar nem um minuto sozinha”, relembra a escritora que só deseja alguns minutos de silêncio do quarto de hospital. Cíntia passou por um câncer e percebeu o quanto a doença é dolorosa. Mas ela não desiste! Para o futuro pretende continuar escrevendo e, principalmente, sobre o câncer. Não pensa em fazer grandes planos, apenas em viver. “Quando tu passa por uma doença como essa, não se faz muitos planos, mas cada coisa do dia ganha um gosto diferente”, afirma.

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