Política

NÃO É GOLPE: O afegão viúvo

Eu sou um afegão médio. O termo, utilizado no ambiente corporativo, serve para enquadrar os consumidores comuns de qualquer produto ou serviço. De maneira crua e direta, nós – os afegãos – somos a generalização, a classe média, a mídia golpista e o reacionarismo que a esquerda tanto combate. Muitos dos afegãos não têm partido, muito menos ideologia. Votam ao sabor do vento. E o vento, em 2002, bateu forte pelos lados de Cabul.

Como um afegão médio, fui apaixonado pelo PT. Bandeira na janela, bote fé e diga Lula, adesivo na bicicleta, paixão de criança pela professora bonita. Um encantamento que brilhava os olhos. Meu país, enfim, nas mãos do povo. Nas mãos, suadas e calejadas, de um afegão médio. A vida, de uma maneira geral, melhorou. O amor, nos primeiros anos, foi fulminante. Casal de namorados no parque em uma tarde primaveril em busca de um sorvete de creme e da moralização política. A perda da confiança, acredite, não veio na primeira mentira.

Em uma relação feliz, em teoria, os deslizes são perdoados de maneira irresponsável. Nós, os afegãos, acreditamos cegamente que Lula não sabia de nada. Mensalão? Não vi. Dólar na cueca? Mentira. Queima de arquivo de Celso Daniel? Balela. O Afeganistão tupiniquim foi o território com o maior número de cornos por metro quadrado. Afinal, o que é um chifre para um amor de verdade?

Entretanto, com o passar do tempo, o que era amor se transformou em mágoa. A cúpula do partido pelo qual me apaixonei foi presa, os escândalos de corrupção se avolumaram, as promessas foram rasgadas e as mentiras se proliferaram com a proporção de um rompimento conturbado. O afegão médio não espera nada da direita, porque ela nunca pregou a correção na política. O afegão médio não espera nada do centro, porque ele nunca pregou nada – a não ser a fé em troca de alguns trocados. O afegão médio esperava tudo da esquerda, que tanto pregou a moralidade na função pública. E personificou a esperança de um amor eterno – e do ódio massificado – no PT.

Quando desacreditei nas promessas, minha paixão da infância se transformou no meu pesadelo. No momento em que este afegão – e tantos outros que se desiludiram com o PT – foi às urnas pela primeira vez depois da decepção, a decisão foi óbvia: nesse amor, que tanto me enganou, eu não acredito mais. Não nego, nem poderia, que ele fez bem ao afegão em várias áreas. Mesmo me dando casa, comida e roupa lavada, ele me bateu. Bateu no meu interior, no emocional, no coração, na parte em que mais dói. O partido que promulgou a Lei Maria da Penha bateu, sem dó, nas ilusões dos afegãos médios.

No momento da reeleição de Dilma Rousseff, a economia já cambaleava, a Petrobrás já tinha se transformado em balcão de negócios e as mentiras, sempre elas, faziam parte do vocabulário petista. Eleita, de maneira democrática, a presidente – só a trato de maneira formal após o fim da relação – traiu os afegãos ainda mais. O tão aclamado golpe, sejamos realistas, não existe. A queda de Dilma Rousseff, em princípio por 180 dias, não passa por um golpe. Passa, apenas e tão somente, pelo desdém do PT com aqueles que conquistou. Os afegãos foram às ruas, a base aliada ruiu e, muitas vezes, até o próprio partido viu as medidas da presidente mais impopular da história com olhar de desconfiança.

A alegação de um golpe, quando há base jurídica para cassação, é falaciosa. Comparar com 1964 chega a ser canalhice de um discurso de fraca retórica. Com oportunidade de defesa e apoio dos movimentos sociais, o PT fez o que pôde para evitar a perda do amor dos afegãos. Acabou. E acabou pelos seus próprios erros. Como um afegão traído, vou aos fatos: abandonou a economia, namorou o fisiologismo, instalou a sede do partido dentro do gabinete presidencial, não promoveu – mais uma – reforma administrativa, inchou o Estado até dizer chega – a conta chegou -, não forçou uma necessária reforma política e, sem dúvida, o pior: deitou, rolou, lambuzou e gozou com o PMDB – colocando o voto de 54 milhões de pessoas, também, em Michel Temer. Promiscuidade em favor da famigerada governabilidade. Agora, traído pelo PMDB, o PT sente na pele o que é um amor perdido. Como um ex-namorado que stalkeia a amada amante na rede social, sinto ojeriza por tudo que meu antigo amor se tornou.

Esqueça o papo de que o afegão médio foi às ruas para pedir o fim da corrupção. É uma pauta importante, claro. Mas, sejamos francos, o problema foi a decepção. O partido que clamou pelo fim da bandalheira institucionalizou o jeitinho afegão – ou seria brasileiro? – no ato de governar. Agora, nós somos tachados de golpistas por  esse mesmo PT que foi inapto na arte que tanto apregoou: iludir, cercar, conquistar e apaixonar. Desta vez, a conspiração – aceito o argumento – aconteceu nas entranhas do Congresso, mas com o aval constitucional. Não querem impeachment? Não cometam crimes. Não pratiquem pedaladas fiscais. Não abram créditos suplementares sem consultar as instâncias necessárias. Não coloquem investigados como ministros com o objetivo de conquistar foro privilegiado. Aceite: o PT conspirou contra si mesmo.

O amor pelo PT não só acabou. Ele morreu. Sorte do partido que, depois de 13 anos de ilusões perdidas, traições, mentiras, desencontros e desencantos, os afegãos médios não atearam fogo ao Palácio do Planalto. É preciso, urgentemente, se apaixonar novamente. O ainda interino (des)governo Temer que se cuide: a rua, queira ou não, tem amor para dar. Mas é preciso corresponder esse amor com flores, bombons e uma pontinha de vergonha na cara. Se Temer trair – e ele gosta do verbo – a pouca confiança do afegão em seu governo, o PT estará de braços abertos para retomar o amor primaveril. É importante lembrar: quando estamos insatisfeitos no amor, a mulher do vizinho afegão é sempre a mais bonita.

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