Cultura

A nova geração de escritores

Vale a pena se tornar um novo escritor atualmente?

Pense rapidamente em um escritor da literatura brasileira. Machado de Assis? Carlos Drummond de Andrade? Jorge Amado? Mas não só de literatura clássica é feita nossa biblioteca nacional. Diversos autores têm surgido a cada dia e muitos estão só esperando uma chance para poder divulgar suas histórias.

Aos 8 anos de idade, Marjorie Barth começou a escrever contos pequenos. Ao chegar aos 14 anos, passou a se dedicar a contos mais longos. Filha de professora e enteada de jornalista (o também escritor Caio Spessato), Marjorie sabia da dificuldade que era fazer com que as crianças lessem nas escolas. Segundo ela, a literatura brasileira obrigatória para as aulas possui uma linguagem muitas vezes difícil de se compreender por crianças e jovens, o que causa um certo afastamento da leitura. A partir dessa percepção, aos 21 anos, a moradora de Esteio escreveu seu primeiro livro: “A Saga de Júlio no Parque dos Delírios”, no formato mangá. Ela escolheu esse formato por achar que atrairia uma maior atenção das crianças.

Após escrevê-lo, pediu a opinião de sua sobrinha de dez anos de idade, que aprovou. Decidiu então, publicá-lo, mas descobriu aí sua primeira dificuldade. As editoras que Marjorie contatou se recusaram a publicar algo que não fosse de algum autor conhecido, ou cobravam quase R$ 10 mil, o que para ela era inviável. Esse era o valor de uma tiragem de mil exemplares, e o retorno seria de apenas 10% sobre os exemplares vendidos.

Esse mesmo problema foi encontrado por Vanessa Preuss. Quando ela concluiu sua primeira obra, entrou em contato com diversas editoras até conseguir uma que atendesse as suas necessidades. Mas a empresa era de Minas Gerais, e Vanessa reside aqui em Tupandi, no Rio Grande do Sul.

Foto de Arquivo: Vanessa e seu primeiro livro - A Garota de Greenwich

Foto de Arquivo: Vanessa e seu primeiro livro – A Garota de Greenwich

Já Marjorie conseguiu que sua primeira editora fosse de Porto Alegre, e conseguiu que sua publicação fosse realizada sem custos. A partir desse empreendimento, criou o projeto chamado “Ler é Tri Massa – Aventure-se”, no ano de 2011. A proposta era distribuir exemplares do seu livro gratuitamente para escolas municipais e estaduais de Esteio e Sapucaia do Sul. E, como forma de divulgação, para que as crianças soubessem da existência dele, promovia palestras para os estudantes, caracterizando os personagens da história.

A partir da sua segunda publicação, os custos começaram a ficar elevados, o que atrapalharia as próximas produções. Por isso, ela criou sua própria editora: a Imagine. Hoje, como editora, Marjorie apoia escritores pelo país, mas entende que é muito mais fácil investir em um Youtuber que resolve fazer sua biografia do que autores que não possuem nome conhecido.

Ela está certa. Uma pesquisa divulgada em agosto deste ano pela GFK, empresa de estudos de mercado que analisa o comércio de livros no Brasil,  mostrou que 4 dos 10 livros mais vendidos no país são de Youtubers. Esse fato direciona as editoras para um determinado tipo de escritor e pode fechar algumas portas para outros.

Para tornar-se conhecida, e também medir a possível popularidade de sua obra, Marjorie utiliza a plataforma Wattpad. Nesse site, é possível escrever suas histórias e acompanhar o alcance de visualizações, como se fosse um blog. A partir dos comentários e acessos, ela vai trabalhando sua história para que possa lança-la na íntegra em formato físico, já que utiliza a plataforma apenas para divulgar trechos.

Esse ambiente serve também para quem quer começar a escrever suas histórias. Ele é aberto para quem quiser ler e possibilita um retorno real do que as pessoas acham de sua escrita.

Vanessa já publicou dois livros e espera lançar o seu terceiro em breve. Marjorie teve algumas de suas publicações compradas por uma editora de São Paulo e, com isso, participou da Bienal do Livro que encerrou no dia 4 de setembro. Ela teve uma evolução na faixa-etária de seu público-alvo, passou dos mangás infanto-juvenis, para literatura juvenil e hoje trabalha com o público adulto.

Capa do livro de Marjorie lançado na Bienal do Livro de São Paulo

Capa do livro de Marjorie lançado na Bienal do Livro de São Paulo

Engana-se quem pensa que as pessoas pararam de ler. Uma pesquisa realizada pelo Ibope, encomendada pelo Instituto Pró-livro, declarou que o número de leitores cresceu no país entre 2011 e 2015, chegando a 56% da população, uma média de 104,7 milhões de leitores.

É difícil para quem começa a escrever e não possui um nome já conhecido, mas histórias da Vanessa e da Marjorie mostram que não é impossível. Basta querer e insistir no seu objetivo. E após publicar, investir em divulgação, em feiras, fóruns ou até mesmo, de porta em porta, como conta Vanessa. O público leitor está crescendo cada vez mais.

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