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OPINIÃO: Nosso corpo não é público

Buzinas. Assobios. Redução na velocidade do automóvel. Parar o carro no acostamento. Contato físico forçado nos transportes públicos. Ouvir um “que delícia”. Infelizmente, muitas mulheres se reconhecerão nesses relatos. Convivendo em uma sociedade machista, que ainda culpa as vítimas, muitas de nós têm que enfrentar, caladas, os casos de assédio que sofremos diariamente. É como se fosse um hábito naturalizado nas nossas vidas. Mas não é.

Nos últimos anos, temos visto crescer o debate e os discursos de resistência das mulheres, como o que ocorreu no último dia do mês de agosto, em São Paulo, quando um grupo protestou contra os abusos no metrô. Parece, ainda, que quanto mais se fala nesse assunto, mais assédios ocorrem. Ou será que é por que está se dando mais atenção ao tema?

O assédio contra o corpo feminino também é uma forma encoberta e informal de estupro. Sim, estupro também trata da violação, da agressão, de todas as formas possíveis. Abusos sexuais ainda são tratados como um tabu e geralmente repercutem pelo discurso machista conservador da sociedade: a culpa é da mulher que provoca, que sai à noite sozinha, que usa um short curto, que utiliza uma blusa decotada… enfim, as justificativas são feitas de maneira a culpar a vítima.

Entre as formas que as mulheres vão buscando e encontrando para fugir dessa situação de vulnerabilidade, os abusos seguem ocorrendo. Eu, por exemplo, não me sinto mais à vontade para aproveitar o trajeto entre a minha casa e o meu trabalho para caminhar, pois já não me sinto mais segura quando vejo os carros passando por mim, com a velocidade reduzida, após o motorista soltar um assobio, um grito ou buzinar.

Já refleti diversas vezes sobre a violência contra a mulher, a sua origem, causas e justificativas, e a única resposta que encontrei é a necessidade de ensinar os homens, os jovens e os meninos de que a mulher é quem tem direito sobre o seu corpo. É de lhes explicar que uma menina que usa um short curto o faz por se sentir bem, porque está calor demais pra usar calça, ou porque simplesmente quer deixar as coxas de fora para pegar um solzinho mesmo.

As mulheres foram passando por mudanças no seu comportamento e na educação que receberam com o passar do tempo, enquanto a maioria dos homens segue recebendo a repetição do discurso “machão” de que ele deve ter a mulher para provar sua virilidade. De que ele deve forçar a barra caso ela não queria, porque deve estar só se fazendo de difícil.

Fico contente de ver que outras pessoas tenham tido a mesma conclusão que eu e têm tentado incluir os homens na discussão sobre os casos de violência feminina. Indo além da temática dos abusos, está o HeForShe, por exemplo, que é uma iniciativa da ONU Mulheres. A ideia é trazer os homens para participar da luta feminina por igualdade de direitos. Apesar das restrições de algumas mulheres com relação à iniciativa, acredito que é dessa forma que poderemos contar com um movimento igualitário. Seguir com a linha de briga entre os sexos não vai fazer com que a violência, por exemplo, diminua. Pelo contrário, ela só aumentará. Afinal, os homens precisam entender de uma vez por todas que os corpos são nossos. Dificilmente alguém lhes avisou sobre isso anteriormente. É a mulher quem cresce trazendo consigo um costume de ser obrigada a se defender, enquanto a cultura do agressor é incutida naturalmente ao homem.

Não é meu objetivo fazer defesa aos homens, muito menos encontrar justificativas aos agressores. Eu sou mulher, eu já sofri e, certamente, ainda sofrerei mais assédios pela minha vida. Mas acredito que chegou o momento de ampliarmos o debate entre os gêneros. Se não falaram nada para eles, somos nós, mulheres, que falaremos. Não de maneira a desmerecer a nossa luta com mais discussões de desmerecimento com relação ao gênero oposto. Precisamos chegar à raiz do problema para, então, construir uma nova sociedade. Não é uma solução a curto prazo. Nem espero que seja ainda nesta geração (sou realista). Mas o fato é que uma hora a discussão deve iniciar. Uma hora, eles vão ter que começar a aprender que o nosso corpo não é público, ele é apenas nosso.

Conheça o HeForShe.

Veja o manifesto contra os assédios no metrô de São Paulo: chegadeassedio.tumblr.com

 

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