Geral

Nomofobia: a mais nova doença tecnológica

Ingleses criam nome oficial para o medo de ficar sem celular ou sem conexão com os serviços proporcionados por ele

Uso intenso de smartphones pode indicar a dependência, chamada nomofobia. Foto: Google

Olhe a sua volta. Quantas pessoas estão usando o celular neste momento?  E você, passa mais tempo conectado do que gostaria? Tome cuidado: a utilização cada vez mais frequente das tecnologias mobile tem causado um vício conhecido como nomofobia – síndrome na qual as pessoas ficam dependentes do telefone e das redes sociais presentes em seus sistemas.

O termo, abreviação da expressão no mobile phobia”, foi criado na Inglaterra para identificar os individuos que, literalmente, não podem passar cinco minutos sem seu celular. E a doença é muito mais comum do que se imagina. Uma pesquisa feita pela revista Time e pela Qualcomm revelou que, em diversos países, o uso de smartphones está muito mais intenso. Dos cinco mil participantes, 79% disseram que se sentem desconfortáveis sem o telefone pessoal. No Brasil, 58% afirmaram que usam o celular a cada 30 minutos. Outros 35% dos entrevistados utilizam o aparelho a cada dez minutos.

Os mais atingidos pela nova síndrome são os jovens. Segundo a SecurEnvoy, empresa do ramo da telefonia, o número de indivíduos de idades entre 18 e 24 anos que pode ser considerado um nomofóbico chega a 76%. É a realidade vivida pela estudante Luane Garcia. De seus 17 anos, poucos foram vividos sem telefone móvel. “Lembro-me de ter ganhado meu primeiro celular com oito anos, pois meus pais queriam saber sempre onde, como e com quem eu estava. Desde então, não vivo sem”, conta Luane, afirmando que possui contas em mais de seis redes sociais.

De acordo com a estudante, incontáveis horas são passadas na companhia do celular. Procurar atualizações tornou-se um de seus hobbies favoritos. “Pode ser Facebook, Twitter, Instagram, Whatsapp ou até mensagem de texto. Estou sempre checando para ver se tem alguma coisa nova”, admitiu. Explicando que, em sua opinião, o vício não é assim tão mau.

Lobo em pele de cordeiro

O que muitos viciados tomam como uma atitude inofensiva pode trazer sérios riscos para a saúde. Segundo a psicóloga Cristiane Rocha, a síndrome pode estar ligada a outras patologias psicológicas. “Conforme observei em alguns pacientes, a nomofobia está associada a diferentes transtornos de ansiedade”, frisando que quem sofre de transtorno bipolar, estresse pós-traumático e outras desordens emocionais possui mais chances de desenvolver a compulsão. “O tratamento correto nesses casos é a psicoterapia, que une as sessões com psicólogo ao uso de antiansiolíticos”.

Sem o tratamento correto, a síndrome pode causar ansiedade e pânico, trazendo sensações de impotência e angústia. Em casos mais graves, podem ser observados sintomas como palpitação, taquicardia e descargas de adrenalina. “A nomofobia está bastante ligada à síndrome do pânico, pois ela pode apresentar um quadro sintomático bastante parecido”, explicou Rocha. “A pessoa sente-se completamente vulnerável e insegura sem o celular, e esses sentimentos podem levá-las ao desespero”, completou a psicóloga.

Doença do homo zappiens

Consultor em negócios de educação, Mario Augusto Pool estudou os chamados jovens digitais e seus comportamentos, desenvolvendo várias teses sobre o assunto. Segundo ele, a geração pós anos 80 é identificada pelo uso de tecnologias transformadas em bens de consumo em massa. “O ser humano é um ser social, e para os mais jovens os celulares e as redes sociais são os maiores mediadores da relação homem-com-homem”, explicou Pool. O autor também declarou que, de acordo com suas pesquisas, o medo de estar desconectado tem origem em outra fobia: a fobia de estar sozinho. “O jovem digital vê a tecnologia como uma possibilidade de socialização. Comprovei esta hipótese ao verificar o sucesso das redes sociais, a proliferação das lan houses nos bairros mais humildes, o sucesso dos smartphones e seus aplicativos em rede”, expôs, frisando que o isolamento também é uma causa de desconforto e doenças psicológicas.

“A nomofobia surgiu com a urgência de comunicar o tempo todo”, afirmou o pesquisador. Conectar-se é um método eficiente para alcançar o bem-estar social, mas o excesso traz tantas consequências quanto a ausência. O homo zappiens – termo utilizado para referenciar o ser humano como ser predominantemente tecnológico – aprendeu a conviver com as novas invenções, mas ainda não encontrou o equilíbrio. “O importante é amadurecer na mesma proporção que se avança com os ganhos que a tecnologia traz”, refletiu Pool.

Vivendo isolado

Em um mundo tão tecnológico, estanho mesmo é quem não se adapta às rápidas mudanças na sociedade. Uma destas pessoas é Lúcia Nascimento, de 63 anos. Nascida antes da chamada geração digital, Lúcia não vê os smartphones com bons olhos. “Já tive, mas nunca gostei. Usava pela obrigação, mas cansei de tanta cobrança”, narrou. “Sempre queriam saber porquê eu não atendia o telefone. Por que eu não atendo? Porque não quero conversar com vocês, ué”, debochou, comentando que a falta de privacidade é um dos fatores mais difíceis de lidar.

Considera-se uma pessoa moderna. Quando jovem, era apaixonada por viagens e morou em Roma, na Itália, por mais de dez anos. “Ser moderno não tem nada a ver com a tecnologia. Para mim, é uma questão de pensamento”, declarou. Sobre a nomofobia, nunca ouviu falar. “Já temos que nos preocupar com tantos problemas, com tantas coisas, que não vou ficar criando doenças e vícios para mim. Nunca bebi, nunca fumei. Também não virarei escrava de um aparelho celular”, argumentou, apostando que, nessa nova realidade, só viram dependentes os que querem.

Lida 2134 vezes

Comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Por favor resolva a equação * Time limit is exhausted. Please reload the CAPTCHA.