Cultura

Na marcha das bandinhas

O gênero musical típico do sul é trilha sonora para os bailes de domingo à noite

Mariana Blauth, Thayná Bandasz e Jéssica Beltrame

A marchinha segue conforme as batidas das músicas que tocam sem interrupção no palco, e os casais, girando de um lado para o outro, não deixam a pista ficar um minuto vazia. Não há uma idade limite – quem for menor só entra acompanhado. Os trajes são os mais variados possíveis, desde bem arrumados (salto, saia, camisa e sapato) até os mais confortáveis (tênis e bermuda). O que importa é fechar o final de semana dançando, bebendo e se divertindo no domingo à noite.

As músicas não são rock, funk ou até o sertanejo que tanto está em alta, mas sim as popularmente conhecidas bandinhas. Com ritmos muito característicos, principalmente da cultura alemã, utilizando teclados e saxofone, elas ficam responsáveis por agitar os bailes. O estilo musical é definido como bandanejo, e tem origem da colonização dos alemães que vieram para o Brasil e tocavam sempre em seus bailes e festas.

Típicas da região sul do Brasil, as bandinhas movimentam os bailes tanto na Serra quanto na Região Metropolitana de Porto Alegre. Toda cidade tem ao menos uma casa de baile para divertir o público, de diversas faixas etárias, mas que atrai principalmente a terceira idade.

Foto: Thayná Bandasz

Foto: Thayná Bandasz/Beta Redação

 

Com ingressos baratos e até mesmo entradas gratuitas, o Clube Veterano, fundado em 7 de setembro de 1964, é um desses bailões que movimentam as noites de domingo, e um dos mais conhecidos em Gravataí, dentre vários outros que se pode encontrar pela Avenida Dorival Cândido Luz de Oliveira. Com letreiro verde chamativo, a música que toca lá dentro pode ser ouvida desde a entrada do ambiente.

O público que chega é diversificado: casais, grupos de amigas(os) e até mesmo pessoas sozinhas. Todos passam pela bilheteria, entregam seus ingressos para o moço todo vestido de preto e atravessam a cortina vermelha para dar início à diversão de um final de semana que está se encaminhando para o fim. O público da casa sempre fica em torno de 1.300 a 2.000 pessoas por noite. Todos estão ali, seja sábado ou domingo, para curtir a música e dançar muito.  

A estudante Katiele Monteiro, 24 anos, já traz como algo de família vir para o baile curtir as bandinhas. “Desde os meus 13 anos eu venho para os bailes com a minha família, sempre com a minha mãe, com a amiga, às vezes com meu pai”, conta. Segundo ela, até seus 18 anos estava sempre batendo cartão no Veterano, todos os finais de semana, mas passou a trabalhar, estudar, e agora vai menos ao baile. “É meu mundo. As pessoas gostam de dance, funk, e eu sou aquela que gosta de bandinha”, afirma.

Um programa feito todo domingo

Conhecidas por terem na letra a declaração para a mulher amada e falando diretamente sobre paixão, os bailes em que as bandinhas se apresentam costumam ser conhecidos por juntar muitos casais. São histórias e histórias de quem já namorou, noivou, se separou e arrumou outro namorado embalados por esse gênero musical.

É o caso de Marilda dos Santos, 48 anos, e Rodney de Oliveira, 52. Os dois se conheceram na pista de dança há dois anos. “Era minha primeira vez aqui na casa e ele me tirou para dançar. Fui tímida, mas aceitei. Não era minha intenção arrumar um namorado”, conta Marilda, aos risos.

Quem também começou a namorar em um bailão foi o próprio dono do Clube Veterano, Bruno Monego, 80 anos. Mas não na sua casa de baile, e sim no Clube da Cerveja, conta sua esposa, Marta Santos, 46. Os dois estão juntos há cinco anos. “Conheci (o Bruno) no baile, através de uma amiga. Começamos a conversar e eu gostei muito dele, da postura dele. Hoje estamos aí, ele sempre sendo muito parceiro.”

Bruno e Marta se conheceram no bailão. Foto: Thayná Bandasz

Bruno e Marta se conheceram no bailão. Foto: Thayná Bandasz/Beta Redação

Tem quem goste de ir à procura de um amor, mas também tem aqueles que fazem do baile um programa de amigos para fechar o dia. É como conta a dona de casa Atais de Souza, 40 anos, que quase todos os domingos junta uma turma e vem para o bailão. “Se o salão está vazio, já estou chegando com 100. Eu encho a pista de dança”, afirma. Junto com o marido, Vilson Saraiva Gonçalves, 46, eles fazem um churrasco em casa e, ao final, levam todos os convidados para o bailão. “Vem todo mundo que está lá (no churrasco). O lugar é eclético, a gente gosta muito”, conta.

“Já que não podemos subir para a Serra, eles descem para cá com as bandinhas pra gente curtir. A cultura do brasileiro não é exigente, então pode tocar de tudo que estamos sempre dançando”, conta Atais, que sempre chega no baile, com os amigos, às 17h.

Terceira e melhor idade

Os bailões não são conhecidos apenas pelas histórias de romance, mas também por um tipo de público que não se acanha para dançar, se divertir e namorar. A terceira idade movimenta as tardes do Clube Veterano todos os domingos, a partir das 15h, chegando a reunir 400 pessoas por tarde. “São sempre muito ativos, participativos. Eles curtem tudo o que toca, mas se tocar um bolero ou forró, daí sim ficam muito faceiros”, conta Marta.

Os integrantes do Musical Expresso Show, responsáveis por animar a tarde e um pouco da noite do público do Veterano, adoram tocar para terceira idade. “Gosto muito de lidar com eles. São muito acolhedores, carismáticos e possuem uma energia diferente”, explica Luan Muller, vocalista da banda.

Musical Expresso Show também anima as tarde da Terceira melhor idade. Foto: Thayná Bandasz

Musical Expresso Show também anima as tarde da Terceira melhor idade. Foto: Thayná Bandasz/Beta Redação

 

Lúcia Pinheiro, 72 anos, vê no baile de domingo uma forma de se divertir que ajuda a não ficar só em casa. “Aqui eu venho e danço a noite toda. Chego cedo e vou até onde aguentar. Se cansar, a gente senta um pouquinho, bebe uma cervejinha e depois volta pra pista”, conta aos risos.

Amor pelo que faz

Tudo isso não seria possível se Bruno Monego não tivesse fundando o clube 53 anos atrás. O carinho e a resposta positiva do público que frequenta a casa são os motivos para ele continuar e sempre buscar ótimas bandas. “O público nos aceita muito bem. Vivo uma das melhores épocas da vida, e é junto com o povo da minha cidade”, afirma.

Segundo ele, sua única formação foi ser estudante do colégio Dom Feliciano, em Gravataí, mas trabalhou como tesoureiro no Clube Vila Branca, do qual também foi fundador. Lá ele decidiu que abriria sua própria casa de baile.

Por noite o público vai de 1.300 até 2.000 pessoas. Foto: Thayná Bandasz

Por noite, o público vai de 1.300 até 2.000 pessoas. Foto: Thayná Bandasz/Beta Redação

O gosto pelo trabalho e a vontade de oferecer o melhor para animar o público fizeram com que o Veterano crescesse e continuasse por todos esses anos sendo responsável por trazer as principais bandas de baile para tocar. “Todos os conjuntos bons do Estado são contratados por nós, inclusive bandas de fora. Sempre trazemos bons conjuntos, uma série de artistas. Já trouxemos até um conjunto do México, o Pancho Delgado.”

De Vanderlei Cardoso até Os Atuais, Bruno sabe do que seu público gosta e afirma com segurança que a relação é ótima. “Falam em crise, mas nós não temos crise, porque o povo apoia, está todo baile aqui. Se apoia, é porque gosta de permanecer aqui”, afirma.

Confira no vídeo mais detalhes sobre a origem do clube e das bandas que tocam no baile.

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