Esporte

ESPECIAL: Mulheres na torcida

Por Amanda Cunha, Ana Paula Zandoná, Anne Caroline Kunzler, Bárbara Bengua e Rafaela Dilly Kich

 

A quebra de paradigmas no esporte é um tema cada vez mais evidente. Se antes o futebol, especialmente, era visto como objeto de interesse masculino, o cenário hoje é outro. As mulheres também torcem, vibram e vivem uma relação intensa com a modalidade. Prova disso é a viralização de um vídeo da marca holandesa de cerveja Heineken, que já tem mais de 100.000 visualizações no YouTube.

No comercial, é oferecida a três homens a oportunidade de assistir à final do campeonato europeu (Champions League) em uma festa da cervejaria, porém sem suas namoradas. Para que as moças não fiquem chateadas, eles as presenteiam com um final de semana em  um SPA.

O que não imaginavam é que, enquanto assistem ao jogo, suas namoradas estão na Itália, assistindo à mesma final ao vivo. No final do comercial, surge a mensagem: “Já pensou que ela pode gostar de futebol tanto quando você?” (Confira o vídeo abaixo).

O vídeo foi sucesso no mundo inteiro ao colocar mulheres como personagens principais do enredo, sem que fossem vistas como objetos – como ocorre em muitos comerciais brasileiros de cerveja.

 

Elas também são fãs de esporte

Hoje, a presença das mulheres nas torcidas é evidente nos estádios. Mais do que apenas a presença, sua participação, envolvimento e paixão são visíveis. Não faltam exemplos disso.

Para a estudante de 21 anos, Carla de Paula de Mello, futebol nunca foi apenas para eles. “Historicamente o interesse das mulheres é menor do que o dos homens. Porém, há décadas nós batalhamos por nosso espaço na sociedade e no futebol não é diferente. Sempre defendi que mulher pode ser o que quiser e estar onde ela quiser”, ressalta.

“Essa paixão pelo Grêmio herdei do meu pai. Desde pequena sempre quis assistir os jogos no Olímpico – antigo estádio do Tricolor, porém o preconceito era ainda maior com as mulheres. Algumas pessoas que não frequentam os estádios, ou as que nunca foram, dizem que nós mulheres vamos para ‘aparecer’ ou estar entre os homens. Eu aprendi com meus pais que somos nós que nos damos ao respeito, talvez por isso, nunca fui assediada ou desrespeitada”, acrescenta Carla.

“Meu primeiro jogo foi em 2010, quando meu tio convenceu meus pais a me deixar ir com ele. Nunca me esqueço da energia que tinha o Olímpico naquele dia, os torcedores gritavam e a Geral era uma loucura, cantavam os noventa minutos e eu só queria estar lá. Depois disso meu amor pelo Grêmio e pelo futebol só aumentou e eu comecei a frequentar mais vezes, com familiares e amigos. Já fui a todos os setores do estádio, mas eu prefiro a Geral onde apoiamos sempre o time”. Segundo a torcedora tricolor, o Grêmio já lhe trouxe muitas coisas boas, experiências incríveis, novas amizades, mas também tristezas, já que voltou chorando algumas vezes, “mas esse é o espírito do futebol”, completa.

 

Crédito: Chico Santana

Carla torce para o Grêmio. Crédito: Chico Santana

 

“Hoje sou acadêmica de Jornalismo, na Feevale. Escolhi este curso pela minha admiração por esportes. Como uma futura jornalista esportiva, aprendi que preciso amar meu time e respeitar minha profissão. Apoie a presença das mulheres nos estádios, se elas estão lá é porque gostam de futebol e isso só faz bem ao clube. Elas nas arquibancadas só abrilhantam ainda mais a festa que é um jogo de futebol”, pontua Carla.

O Internacional também conta com muitas torcedoras nas arquibancadas do Beira-Rio. Letícia Reolon da Silva, 23 anos, estudante de Direito da Unirritter, é um exemplo: é sócia do “colorado” desde 2008 e se esforça para não perder nenhum jogo. Porém, a paixão é muito mais antiga: “Já nasci colorada! Na minha família, quase todos torcem para o Inter. Desde pequena, convivi com esse amor porque meu pai me levava ao Beira-Rio ou assistíamos e escutávamos os jogos”, conta. “O Beira-Rio é minha segunda casa”, afirma.

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Letícia Reolon da Silva, torcedora do Inter. Foto: Arquivo Pessoal

 

Tendo presenciado grandes decisões, como a final da Libertadores de 2010 e o Mundial de Clubes de 2006, a torcedora acredita não ter cometido grandes loucuras pelo time, mas admite priorizar o Inter: “Estudo de manhã para nunca perder nenhum jogo e já cheguei a recusar um estágio à noite para não me impedir de assistir às partidas”, confessa. Ela ainda relata ter perdido algumas datas comemorativas importantes como Dia das Mães e Dia dos Pais para estar presente no estádio: “Eu realmente gosto do clima do futebol, a adrenalina do jogo, de debater, de ir ao Beira-Rio, faça chuva ou faça sol”, revela.

Letícia é muito interessada nas regras do futebol, que começou a entender desde quando passou a frequentar os jogos: “Eu entendo bastante sobre elas”. Além disso, comemora nunca ter sofrido preconceito dentro dos estádios pelo fato de ser do sexo feminino: “Hoje em dia há muitas mulheres frequentando os estádios. Estádio é lugar de torcedor, independentemente de ser homem ou mulher”, diz. No entanto, já ouviu as clássicas “mulher não entende de futebol”, “mulher tem que assistir a novela, não a futebol” e “vai arrumar um namorado e largue o futebol”: “Infelizmente, não são apenas homens que falam isso”, lamenta.

Foto: Arquivo Pessoal

Foto: Arquivo Pessoal

 

A estudante de Direito se declara fanática pelo Inter e coleciona recordações do seu time do coração. “Tenho 18 camisas do Inter, casaco, blusão, meia, touca, toalhas, correntinha, bandeiras, copos, xícaras, a miniatura do Beira-Rio, livros, revistas, DVDs, pôsteres, reportagens de jornal, ingressos, autógrafos de jogadores, fotos, filmagens de jogos, enfim, bastante coisa. Tatuar ‘SCI’ está nos meus planos também”, comenta.

O Inter, para ela, é muito mais que um time. “Serei eternamente grata ao Sport Club Internacional por me proporcionar tantos momentos incríveis, aqueles que só quem é torcedor conhece”, afirma. “E pode ter certeza: não importam quantos anos eu tenha e nem onde eu estiver, sempre levarei minha camisa vermelha comigo, porque o Inter faz parte da minha vida. Eu não seria a Letícia Reolon da Silva se não fosse Colorada”, conclui.

 

Débora Robinsohn Grohmann. Foto: Arquivo Pessoal

Débora Robinsohn Grohmann. Foto: Arquivo Pessoal

 

A estudante de Serviço Social pela Unisinos, Débora Robinsohn Grohmann, é outro exemplo de que a mulher também pode ser amante do esporte – e não necessariamente por influência de alguém do sexo oposto. “Meu pai nunca colocou os pés em um estádio, então arrumei um grupo de amigos que organizavam uma van para todo jogo. Eu passei a ir junto e era a única mulher. Todos sempre me respeitaram muito e até hoje me tratam como se eu fosse a irmã mais nova”, relata.

Débora diz não saber exatamente como ou quando começou seu amor pelo esporte. “Na realidade, eu nem sei quando o futebol começou pra mim, era pequena demais. Minha mãe conta que logo que aprendi a falar, eu parava em pé no berço pra cantar o hino do meu time”, recorda.

Inicialmente, Débora frequentava a torcida organizada mesmo sem conhecer ninguém. “Quando me dei conta eu já era amiga, não só no estádio, mas no churrasco em fins de semana”, conta. Atualmente, ela frequenta a Arena do Grêmio (seu time do coração) sempre que possível. E percebe que, cada vez mais, há avanços na desconstrução social quando o assunto são mulheres em estádios.

“Hoje, o Rio Grande do Sul é o estado brasileiro que mais leva mulheres ao estádio e os homens respeitam muito, inclusive gostam. No meio disso, percebo que quem mais tem preconceito com mulher no estádio é a própria mulher. Ela pode amar o esporte, mas ainda crê que estádio não é um bom lugar de se frequentar por causa do assédio (que de fato existe, mas é mínimo)”, reflete a estudante.

Em relação ao comercial da Heineken, Débora acredita que foi uma “bola cheia”. “Penso que toda mulher que o tenha assistido lavou a alma. Levando em conta que a mídia é o veículo que mais influencia a população, a partir deste comercial acredito que homens e mulheres passarão a pensar mais sobre o preconceito, que já diminuiu, mas ainda existe quando a pauta é mulher e futebol”, conclui.

Torcedora frequenta a Arena sempre que possível. Foto: Arquivo Pessoal

Torcedora frequenta a Arena sempre que possível. Foto: Arquivo Pessoal

 

A torcedora Flavia Perito, 27 anos, diz que desde que se conhece por gente já é torcedora do Palmeiras. Aos quatro anos, o pai já influenciava ela e seus irmãos a frequentarem os jogos e todos sentavam juntos para assistir aos campeonatos, quase como um ritual das quartas e domingos. De camisetas a álbuns de figurinhas completos, ela e os irmãos cantavam o hino do Palmeiras para seu avó. Flavia afirma que, sempre que pode, comparece ao estádio para ver o time de coração. “No ano passado fui mais de quatro vezes prestigiar meu time, e acho que sou pé quente: em todas as vezes que fui, ele saiu vitorioso”, brinca ela.

 

Flavia em um dos jogos do seu time. Foto: Arquivo Pessoal

Flavia em um dos jogos do seu time. Foto: Arquivo Pessoal

 

Apesar de não ser sócia, ela compra o ingresso dos jogos antes e costuma ir com os amigos e família. E complementa: “Mulher no estádio é só festa e alegria! Além disso, muitas garotas entendem mais de futebol do que homens.” Seu jogador preferido é o ex-goleiro do Palmeiras Marcos Roberto, que conquistou a Libertadores com o time.

 

Flavia e o irmão, que também a acompanha aos jogos do Palmeiras. Foto: Arquivo Pessoal

Flavia e o irmão, que também a acompanha aos jogos do Palmeiras. Foto: Arquivo Pessoal

 

O time da Luciana Alencar, 26 anos, é o Corinthians. Ela afirma não lembrar o momento em que se tornou torcedora fanática. “Quando me dei conta já gritava com meu pai pelo Corinthians.” Apaixonada por futebol, a primeira lembrança que ela tem é de quando tinha oito anos, em um passeio da escola, no qual um professor a comparou com um jogador do Corinthians (o eterno camisa 7 Marcelinho Carioca). “Ele disse que eu era pequeninha, mas que sempre tinha o chute certeiro. No início, a comparação não fez muito sentindo para mim, mas depois que percebi que o Marcelinho era um dos principais jogadores do Corinthians, comecei a ver as jogadas e fazer meu próprio futebol”, explica. A partir disso, ela percebeu que amava o esporte, tanto assistir quanto jogar, e participou de diversos times no colégio e na faculdade. “Joguei diversos campeonatos estaduais e já fui até convidada para jogar fora do país”, ressalta.

A paixão pelo Corinthians é sem explicação para Luciana. São passadas de pai para a filha e ela já garante que vai passar a adiante! É daquelas torcedoras que chora e briga pelo time, e diz: “Falar de Luciana e não falar de futebol é como não falar da mesma.” Sempre que pode ela frequenta o estádio e vai ver seu time, é sócia e concorda plenamente que mulher pode sim gostar e entender de futebol. Assina embaixo e acredita que questão de gênero precisa ser excluída de qualquer esporte. Apaixonada pelo time, ela já fez algumas loucuras para poder estar perto do futebol, como promessas para o Corinthians ganhar títulos, ir no estádio sem ingresso e ver o jogo da rua ou até mesmo da torcida adversaria. Além de arrumar briga com são-paulinos e um amigo por causa de futebol. Quase foi para o Japão no mundial e para Argentina na Libertadores.

Mulher x futebol: quebra de preconceitos

Para entender melhor essa relação entre futebol e mulher e os paradigmas impostos pela sociedade, conversamos com as psicólogas Andréia Rodrigues e Marcela Madalena. Andréia é especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental (IWP) e em Avaliação Psicológica (Faccat) e Marcela é Mestre em Psicologia Clínica (Unisinos) e especialista em  Terapia Cognitivo-Comportamental (IWP).

 

Andréia (esquerda) e Marcela (direita). Foto: Anne Caroline Kunzler

Andréia (esquerda) e Marcela (direita). Foto: Anne Caroline Kunzler

 

Segundo elas, o futebol é tradicionalmente considerado um cenário masculino – devido à construção social. “Há algumas décadas, esta concepção sexista seria aceita com naturalidade  em comerciais, meios de comunicação e almoços em família. A resposta que o contexto (família, amigos, sociedade) emite a determinado comportamento ou afirmação, possui uma forte influência na manutenção de uma ideia ou uma ação. Para compreender um comportamento que se mantém, é necessário observar ele dentro do seu contexto. E não podemos esquecer, o cenário tem forte influência da cultura”, explicam.

Se há algumas décadas os comportamentos dos homem  de beber cerveja, ir ao estádio de futebol, ter relações sexuais, tinha como consequência atitudes reforçadoras do contexto (elogio, admiração) e essas mesmas atitudes nas mulheres tem como consequência atitudes punitivas (criticas), podemos compreender porque eles emitiam mais destes comportamentos do que elas.

No entanto, as atuais discussões sobre o sexismo e  a ascensão do feminismo têm proporcionado intensos debates sobre os padrões preestabelecidos a respeito do que seria do universo masculino e do feminino. Com isso, a cultura é fortemente impactada e podemos observar que passamos por um momento de intensos debates e consequentemente, de intensa transformação.

Dois exemplos bem recentes podem exemplificar os aspectos abordados neste texto: há dois anos uma marca de cerveja criou uma campanha comercial e a vinculou com uma rede de sapatos femininos, oferecendo uma promoção de sapatos exatamente no horário de um famoso campeonato de futebol. A consequência que o contexto forneceu a isso foram críticas e acusações de machismo. Ou seja, este comportamento foi punido.

Há poucos meses, esta mesma marca de cerveja desenvolveu uma campanha também vinculada ao mesmo campeonato de futebol, em que as mulheres foram incluídas como torcedoras, tanto como os homens. Esta foi uma quebra de um paradigma social que ocorreu a partir da punição dada a um comportamento anterior, e que está relacionada a uma transformação cultural pautada no feminismo.

Deste modo nos questionamos: é o contexto que influencia a mídia ou o oposto? Esta pode ser considerada uma relação bidirecional, em que um influencia o outro, e se modifica ou mantém, conforme as reações repetidas ou em massa que ocorrem de um lado ou do outro.

Considerando, então, esse ponto de vista, pode-se observar que vem ocorrendo uma mudança de paradigma em relação ao papel do homem e da mulher na sociedade, mudança essa cada vez mais apoiada pela mídia, que consequentemente se fortalece para que a transformação siga ocorrendo na sociedade. “Existe uma pressão social que busca ser reconhecida e validada em relação a essa temática”, ressaltam as especialistas.

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  • Publicado em: 02/07/2016

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