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OPINIÃO: Mulheres nuas e cruas – a polêmica dos ensaios sensuais e a repercussão nas redes sociais

“Manda nudes?” É só dar uma passeada pelo universo digital que esse termo logo se torna próximo das pessoas. A sexualidade e a forma com que ela é retratada e tratada na internet é, definitivamente, uma das polêmicas do momento. Acontece que tem gente lutando contra esses tabus, mostrando que o corpo das pessoas pode ser alvo de interessantes discussões, que não necessariamente remetam ao sexo ou à vulgaridade.

Nessa linha lógica de pensamento, muitas mulheres estão sendo adeptas ao movimento dos ensaios sensuais, que na fotografia é conhecido como ensaio boudoir, uma palavra francesa utilizada para designar os quartos que as mulheres utilizavam para se vestir no século XIX – por isso, as fotos do ensaio remetem ao momento em que elas estão se arrumando. O boudoir faz com que elas conheçam e reconheçam o seu próprio eu, entendam, de uma forma romântica, os detalhes que compõem o seu corpo – e o quanto eles podem ser muito mais belos do que elas mesmas imaginam.

As fotografias do boudoir poetizam o corpo da mulher, através de ângulos e luzes que exploram, artisticamente, versos e estrofes que só quem tem muita sensibilidade e delicadeza nos olhos consegue enxergar. Sim, só. Infelizmente. Digo isso pois, a olhos nus, não haveria nada de mais a exposição de fotografias com tamanha sensibilidade artística, que se preocupa em retratar a sensualidade feminina, aquilo que remete aos sentidos, que é belo. Mas tem. Incrível como o ser humano consegue transformar tudo em baixaria e desrespeito, em pleno século XXI.

São diversas as matérias no mundo que abordam esse assunto. Mas o que mais me chamou a atenção foi a repercussão que esse caso gerou no Facebook, mais especificamente na pacata e conservadora cidade de Nova Petrópolis, na Serra Gaúcha. Uma fotógrafa iniciante na carreira, mas com um talento visivelmente incrível e delicado, resolveu apostar no ensaio boudoir como uma das formas de resgatar a autoestima das mulheres e fazê-las se aceitarem como são, com seus defeitos e qualidades. Sâmara Correia, em poucos meses com o seu novo projeto, já conquistou diversas adeptas ao ensaio. Meninas mais jovens, mais velhas, grávidas. Mulheres com histórias diferentes, estilos diferentes, corpos diferentes, estéticas diferentes. Mulheres tatuadas, sem tatuagens, sorridentes e sérias. Todas distintas, mas todas mulheres.

 

Fotografias de Sâmara Correia retratam os detalhes de feminilidade

Fotografias de Sâmara Correia retratam os detalhes de feminilidade

 

As lentes de Sâmara foram capazes de captar as particularidades de cada uma. As meninas, após as fotos, encaminharam diversos depoimentos para a fotógrafa, elogiando o trabalho dela, que foi capaz de resgatar uma infinidade de sensações e as fizeram entender o que realmente significa a feminilidade. Essa repercussão rápida com a positividade das fotos logo resultou em um novo projeto, o “Nua e Crua”, que teve como objetivo registrar detalhes de cada traço das meninas e também contar suas histórias de resgate ao amor próprio – da sua alma e do seu corpo.

Tudo lindo na teoria, não é? Acontece que, na prática, ao exibir algumas das fotografias do projeto no Facebook, com o devido consentimento da menina fotografada, é claro, muitas pessoas se revoltaram. Fizeram comentários chulos, desnecessários, ofensivos, que me recuso a acreditar que realmente tenham vindo de seres humanos. Comentários on e off-line julgando a Sâmara e as meninas que fizeram as fotos, por estarem se “exibindo”, por quererem ficar “peladas” na rede somente para aparecer. Meninas mais gordinhas que fizeram o ensaio, que tiveram a coragem e a liberdade de exporem pequenos detalhes de quem elas realmente são, foram julgadas por não ter um corpo dentro do tal do “padrão midiático” de beleza e estarem ali, se exibindo em fotografias vulgares. Vulgares? Não me admira que pessoas grosseiras o suficiente para exporem suas opiniões preconceituosas de suas mentes fechadas e cheias de más intenções, não saibam apreciar as sutilezas presentes nessas fotografias. Como diz a fotógrafa Sâmara, a vulgaridade não está nas fotos, mas sim nos olhos das pessoas.

Uma coisa é a atitude sem noção de tirar uma selfie amadora no espelho de calcinha e sutiã e postá-la no seu Facebook ou mandar “um nude” para seu amigo no WhatsApp. Outra coisa, completamente diferente, diga-se de passagem, é a exibição de um retrato artístico, feito por uma profissional, que estuda e trabalha a fotografia com um projeto muito maior do que quaisquer palavras de baixo calão.

As modelos das fotografias de Sâmara são mulheres adultas, maiores de idade, donas do seu próprio nariz e do direito de ir e vir, mais conhecido como liberdade. E aí questiono: por que o corpo da mulher ainda insiste em ser visto como um objeto cuja propriedade é de qualquer outro alguém que não seja a própria mulher? Seria porque a mulher ainda insiste em ser associada ao meio doméstico, do lar, submissa a alguém? Oi? Em que século mesmo vocês, que condenam as fotografias artísticas, vivem? É até cômico imaginar que o Brasil, país conhecido pelos seus liberalismos, aceita a superexposição dos corpos com biquínis mínimos nas praias e reprime a sensualidade que é explorada de forma sutil e delicada através de imagens.

Infelizmente, o senso comum do usuário do Facebook não está preparado para esse tipo de imagens, que talvez devam ficar reservadas para exposições e para a gaveta da pessoa que foi fotografada. Intimidade não é coisa de Facebook, dizem. Mas a discussão da aceitação do corpo feminino enquanto corpo mesmo e não objeto, é, sim. Ainda assim, ninguém é e nunca será obrigado a apreciar esse tipo de fotografia. Apreciar, não. Mas respeitar, sim. Porque respeitar é dever de todos. Sem nenhum tipo de restrição. Por mais meninas que tenham coragem de se expor sem pudor e mostrar que a beleza dos corpos femininos independe de quaisquer padrões. Por mais olhares como o da Sâmara, que evidenciam que a pluralidade das mulheres, através de seus corpos e de suas histórias, é o que as tornam tão especiais.

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