Política

A ocupação do Pedrinho

Onda de ocupações nas escolas públicas do RS começou no dia 11/05

As ocupações de escolas públicas no Rio Grande do Sul se espalharam por todo o Estado. Até terça-feira (24), cerca de 130 instituições de ensino estavam ocupadas. Na semana passada, o Instituto Estadual de Educação Professor Pedro Schneider foi a primeira escola ocupada de São Leopoldo, quarta-feira (18). No dia seguinte, a Beta Redação foi conferir o movimento no Pedrinho, nome pelo qual a instituição é conhecida.

 

Ocupação da escola Pedrinho reuni professores e estudantes. Foto: divulgação Facebook

Ocupação da escola Pedrinho reúne professores e estudantes.  (Foto: Ocupa Pedrinho, Facebook)

 

17h30

Na entrada do Pedrinho, na Rua São Caetano, Centro de São Leopoldo, uma barraca sinalizava que a rotina do colégio estava alterada. Logo depois de passar o portão e a porta de acesso para o prédio, três estudantes faziam o controle de entrada e saída do local. A lista de pessoas autorizadas a entrar na escola já era grande no primeiro dia de ocupação.

O clima estava agitado. Alguns estudantes circulavam por ali, um entra e sai de gente. “Tá pronto?! Vamos lá?!”, disse um deles. Vinícius Coelho, presidente do Grêmio Estudantil, explicou: “Estamos indo na Câmara de Vereadores. Hoje é para ser votado o projeto do passe livre estudantil da cidade. É agora, às 18h”.

Um grupo com cerca de 20 pessoas, entre estudantes e professores, dirigiu-se à Câmara de Vereadores de São Leopoldo com a esperança de que o projeto, reivindicação antiga na cidade, fosse para frente.

“A gente volta aqui depois, lá pelas 20h”, disse Vinícius.

 

Mobilização antiga

Não foi a primeira vez que os estudantes foram até a Câmara Municipal. No dia 13 de março deste ano, os secundaristas também marcaram presença por lá.  “Nós precisávamos fazer alguma coisa pela nossa escola, então, pensamos que com o apoio da comunidade seria mais fácil. Apesar de ser uma escola estadual, fomos até a Câmara para falar da nossa situação”, explicou Brenda Rodrigues, de 16 anos, aluna do ensino médio do Pedrinho. “Não tínhamos noção de com quem estávamos lidando. Estávamos entre 30 estudantes”, salientou. Depois da reivindicação dos adolescentes na tribuna da Câmara,  R$ 5 mil foram depositados na conta do Instituto.

Vinícius também é integrante da União Leopoldense de Estudantes Secundários (Ules), que reúne todos os Grêmios Estudantis da cidade. A instituição vem realizando uma série de ações em prol da educação no município. No dia 12 de abril eles organizaram um ato que teve a participação de mais de 2 mil pessoas. Depois disso, no dia 4 de maio, eles acamparam durante três dias em frente à 2ª Coordenadoria Regional da Educação (CRE) de São Leopoldo, para chamar atenção às suas pautas, que incluem a valorização dos professores e a luta contra o sucateamento das escolas e do ensino público. O resultado: uma reunião com representante da Secretaria Estadual de Educação, em que entregaram uma carta-manifesto com as reivindicações.

 

 

18h

Os estudantes que ficaram na escola recebiam as pessoas que apareciam para prestar apoio ao movimento. Eduardo Friedrich e Otávio Oliveira foram conhecer a ocupação. Eduardo é jornalista e Otávio, estudante de Direito da Unisinos. Ambos participaram da ocupação da Reitoria da Unisinos em 2013. “Sabemos os desafios de uma ocupação. É preciso se preocupar com alimentação, segurança e principalmente as atividades, para manter um movimento politizado”, ressaltou Eduardo. Otávio acredita que esse é um importante passo para a mudança. “Não é fácil, eles estão sendo muito corajosos em encarar uma ocupação”, elogiou.

Yuri Marth, de 16 anos, veio de longe para apoiar seus colegas. Ele mora em Portão e estuda na Escola Técnica Estadual Portão (ETEPE). “Vim hoje de manhã para o ato que teve com os professores e resolvi ficar para ajudar”, explicou. Yuri é integrante do Grêmio Estudantil da sua escola e também da Ules. O ato de que Yuri participou ocorreu na quarta-feira (18) pela manhã e envolveu professores em estado de greve e estudantes da rede pública, tanto estadual como municipal.

 

18h30

Thiago Magalhães, graduando de História da Unisinos, chegou com uma sacola de pano. Lá dentro, pacotes de massa, latas de legumes e sardinhas. “São doações que a gente arrecadou com os estudantes de História. Fizemos uma campanha e o pessoal ajudou”, explicou. Mais cedo, Marina Caminho, também estudante de História, esteve na ocupação. “Estudei aqui, fiz todo meu ensino básico. Como futura educadora, acho que é nosso dever acompanhar essas ocupações”, ressaltou. Marina ficou de voltar no dia seguinte.
Toda ajuda é bem-vinda

Thiago acha importante o apoio ao movimento dos secundaristas, principalmente por  se tratar de “algo inédito”. “Precisamos apoiar esses estudantes. Estamos organizando oficinas sobre vários temas, como feminismo e história do próprio movimento estudantil, para levar às escolas ocupadas. Estamos preparando uma para amanhã (sexta-feira, 20) em Canoas”, destacou. Além da iniciativa de Thiago e seus colegas, muitas pessoas interessadas em contribuir com o movimento, que se espalhou pelo Estado, organizaram oficinas e aulas públicas, tanto que surgiu a campanha “Doe uma aula” no Facebook. Aqueles interessados oferecem seu conhecimento como forma de apoiar as ocupações.

 

19h30

Três professoras da Escola Municipal Olímpio Viana chegaram com uma forma de bolo de coco. “Viemos trazer nossa solidariedade”, disse Renata de Matos. A professora ressaltou a importância do momento. “A gente precisa de qualidade em nossa educação, e esses estudantes estão lutando para isso. A juventude sempre levantou bandeiras importantes para a sociedade. Aqui, além da educação, os alunos também lutam por mais democracia”, destacou a professora. Renata estava acompanhada das colegas Daiana da Silva Doro e Patrícia Schneider.

As guloseimas não pararam por aí. Paulo Crochemore da Silva, sociólogo do Município e integrante do Coletivo Independente de São Leopoldo, levou leite condensado e refrigerante para adoçar a ocupação, mas preocupou-se com interferências externas. “É muito bonito ver a garotada se organizando, mas é preciso atenção para as velhas práticas de partidos políticos,  que muitas vezes tentam se apropriar desses movimentos para se promover. Às vezes, acabam enfraquecendo os movimentos dos estudantes e tirando o protagonismo deles”, ressaltou.

 

19h50

Na sala dos professores, logo na entrada da escola, a conversa entre alunos e educadores era regada a café e acompanhada do bolo trazido pelas professoras. O bolo não durou muito, mas o papo foi longe. “Vai ter que rolar roda de violão hoje”, disse um. “Pode ter uma disputa de hip hop”, sugeriu outro.

 

Nem tudo são flores

Professor de História do Pedrinho e conselheiro do Grêmio Estudantil, Joel Santana da Gama falou sobre a dificuldade de engajamento. “Apesar da escola estar no Centro, a meninada mora longe, assim como os professores. Às vezes é difícil fazer uma reunião com os pais; no último encontro vieram cerca de 25 mães e pais. Em uma escola com quase mil alunos, é muito pouco”, lamentou o professor.

 

20h05

Gritos vindos da rua chamaram atenção de todos. Lá fora, os estudantes que estavam na Câmara de Vereadores retornavam. “Educação sucateada, nossa resposta é escola ocupada”, bradavam.

Todos os que estavam dentro do prédio saíram para escutar as novidades. Vinícius, entretanto, não trouxe boas notícias. “Fomos até lá reivindicar nosso direito, mas sofremos um golpe. O vereador que nunca vai, hoje curiosamente foi, e nosso projeto de passe livre não pôde ser votado”, explicou.

Encerraram a assembleia improvisada com a palavra de ordem: “O professor é meu amigo, mexeu com ele, mexeu comigo”.

 

Passe livre em São Leopoldo

Vinícius referiu-se ao projeto que o vereador suplente Eduardo Morais (PT) havia apresentado, mas por questões internas da Câmara não foi votado. A próxima sessão que incluirá o assunto ocorrerá 2 de junho. “Nós temos que estar lá, não vamos desistir. Estamos convidando todos para se somar à nossa luta”, salientou Vinícius para os que estavam na frente da escola.

 

21h

Enquanto a janta era preparada na cozinha, alguns professores conversavam no refeitório, um violão era dedilhado e uma batalha de rap acontecia lá fora. No cardápio, a massa com salsicha que havia sobrado do almoço ganhou uma cara nova com creme de leite, queijo e uns minutos no forno. Professores e estudantes cozinharam juntos. A louça foi lavada em um mutirão.
Olhar da direção

Enquanto a janta ficava pronta, a diretora do Instituto, Lucimar Lopes Pedroso, explicava que a ocupação é um estágio que ultrapassa a greve dos professores, que já dura uma semana na rede estadual. “A ocupação é um momento dentro de uma instituição onde as hierarquias que antes existiam são desconstruídas, pois nesse momento, se eu posso chamar a atenção de um aluno, eles também podem fazer isso comigo. É uma outra organização que se estabelece”, opinou a diretora, em apoio aos estudantes.

 

23h

Apesar do frio e do cansaço, os estudantes e professores que ficaram na escola tentavam organizar as atividades do próximo dia. Um mutirão de limpeza seria feito para revitalizar algumas salas danificadas por falta de manutenção.  

“A gente pretende crescer cada vez mais com essa ocupação”, disse Vinícius, sobre o futuro do movimento.

Durante o final de semana a ocupação realizou atividades na escola e recebeu a visita de apoiadores. Na segunda-feira (23) pela manhã, uma assembleia foi realizada, e os participantes da ocupação decidiram que ela continuaria por tempo indeterminado. Uma página no Facebook foi criada para manter a comunidade informada: Ocupa Pedrinho.

A Beta Redação já havia abordado a situação estrutural do colégio em setembro do ano passado, na matéria “Sem verba mensal, escola estadual de São Leopoldo está em ruínas”, de Thiago dos Santos.

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