Economia

Mudam regras do crédito rotativo

A partir de 03 de abril passam a vigorar as novas regras para utilização do crédito rotativo

 

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Foto: Liege Barcelos

“Bem empregada”, ocupando um cargo de confiança em uma multinacional e com a vida financeira estabilizada, a gestora de recursos humanos Suellen Pereira da Costa não tinha dificuldades para pagar as faturas dos seis cartões de crédito que utilizava com frequência. Os limites que totalizavam cinco mil reais eram motivos de orgulho para ela.

Tudo corria bem, até que em 2014 ela perdeu o emprego e a vida financeira despencou. Os valores recebidos dos honorários trabalhistas não foram suficientes para quitar integralmente seus compromissos financeiros. Sem conseguir pagar completamente as faturas e optando consecutivamente pelo pagamento mínimo, os débitos dos cartões de crédito se acumularam e viraram uma bola de neve. Suellen entrou no chamado crédito rotativo. “Mesmo quando pagava metade do valor da fatura, no mês seguinte a dívida só aumentava. Era como se não tivesse pago nada”, explica.

A modalidade de crédito rotativo permite ao usuário do cartão pagar qualquer valor, a partir do mínimo estipulado e financiar o restante para o mês seguinte, de forma autônoma e sem necessidade de solicitar pré-aprovação da instituição financeira. Por exemplo, imagine que você tenha uma fatura de cartão de crédito no valor de R$ 100,00 e que por algum motivo não consiga pagar o valor total. De acordo com as regras bancárias, você pode financiar 85% de sua dívida, ou seja, pagar R$ 15 reais e “jogar” o restante para o mês seguinte. Sobre o saldo financiado incidirão juros rotativos, que serão cobrados na próxima fatura junto com as demais despesas do período.

Por ser uma linha de crédito pré-aprovada, o rotativo acaba sendo a modalidade com juros mais altos do mercado, pois as instituições bancárias nunca sabem quando os clientes irão utilizar esse recurso. O economista Carlos Henrique B. Rech afirma que o endividamento está relacionado com a facilidade de acesso.  Ano passado o conjunto das instituições do país disponibilizava 700 bilhões para pessoas físicas financiarem em qualquer modalidade, desses,  37 bilhões eram para o cartão. “Se as instituições disponibilizarem crédito a uma grande parcela dos consumidores, esses tendem a tomar esse crédito sem fazer grandes questionamentos”, declara Rech.

Segundo dados da Federação das Câmaras de Dirigentes Lojistas do Rio Grande do Sul (FCDL), em janeiro o índice de inadimplentes de cartões de crédito era de 36,06%. Ainda de acordo com o órgão, em 2016 os juros do rotativo atingiram o percentual de 486,75% ao ano.

Com o intuito de reduzir a inadimplência e evitar o superendividamento com o cartão de crédito, o Conselho Monetário Nacional (CMN) alterou as regras, limitando o uso do crédito rotativo. A partir de segunda feira, 03 de abril, as instituições financeiras deverão entrar em contato com os clientes no primeiro mês que estes utilizarem o rotativo, oferecendo condições mais vantajosas e com juros menores aos já praticados, ou seja, o cliente que optar por utilizá-lo não poderá fazer isso por mais de trinta dias sem renegociá-lo.

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Instituições terão que oferecer condições de parcelamento com taxas mais atrativas para o cliente que entrar no rotativo. Foto: Liege Barcelos

O Banco Central concedeu autonomia para que as instituições definissem taxas e condições para essas operações. Os bancos Itaú e Santander divulgaram, recentemente, que irão operar com taxas anuais de 180% e 210%, respectivamente. “ Esses percentuais são, sem dúvida alguma, menores que os operados atualmente, mas mesmo assim continuam sendo opções caras de financiamento. É preciso ter cautela”, enfatiza o economista Carlos Henrique B. Rech.

Há três anos Verônica Luize Torres tinha um emprego bacana, que permitiu realizar o desejo de ter um cartão de crédito. Feliz da vida, ela recebeu em casa o dinheiro em formato magnético e passou a usufruir de todos os benefícios, até que acabou sendo demitida e por três meses sucessivos pagou somente o mínimo da fatura. Não deu outra: Verônica tenta até hoje negociar a dívida do cartão. “Os gastos que beiravam R$ 300,00 na época, transformaram-se em uma dívida de R$ 520,00, que ainda não foi quitada”, lamenta Verônica.

Assuntos relacionadas a pendências financeiras dos cartões de crédito estão entre as consultas mais procuradas no Procon de São Leopoldo, perdendo apenas para operadoras de telefones e TVs por assinatura. “Entre 60% e 70% das pessoas que nos procuram por pendências financeiras estão endividadas com o crédito rotativo” afirma o diretor do órgão, Clóvis Okada.

Mês passado, após dois anos, Suellen pagou a última parcela do acordo de renegociação da dívida do último cartão que ainda estava pendente. Os cinco mil de limite foram reduzidos para R$ 400,00, correspondente ao limite do único cartão que ela mantém para despesas emergenciais. “Meus ganhos atuais não permitem as extravagâncias financeiras do passado”, conclui ela.

Após dois anos, Suellen conseguiu saldar todas as dívidas com cartões de crédito.

Após dois anos, Suellen conseguiu saldar todas as dívidas com cartão de crédito. Foto: Liege Barcelos

O economista Carlos Henrique B. Rech defende que é necessário educar financeiramente os consumidores. “É um problema cultural, nenhum brasileiro recebe uma educação financeira e isso acaba causando problemas dentro da instituição. Infelizmente alguns acabam aprendendo na marra.”

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