Cultura

As várias facetas de Carol Bensimon

Além de escrever, gaúcha ainda trabalha com traduções, roteiros para audiovisual e eventos literários

De jeans, cachecol colorido e uma bolsa discreta – assim como ela – Carol Bensimon chega ao nosso encontro em um dos seus lugares preferidos de Porto Alegre: o Med Gastro Padaria Mediterrânea, localizado na esquina daquela que foi reconhecida como a “rua mais bonita do mundo” – a Rua Gonçalo de Carvalho, situada no bairro Independência, em Porto Alegre. A escritora gaúcha – indicada entre os vinte melhores autores brasileiros, segundo a revista inglesa Granta (2012) – acaba de finalizar seu novo livro. O Clube dos Jardineiros de Fumaça é o resultado de três anos de pesquisa, experimentação, vivência e muito trabalho, como define a porto alegrense de 34 anos.

Autora de outros três livros ficcionais – Pó de Parede (Não Editora, 2008), Sinuca embaixo d’água  (Companhia Das Letras, 2009) e Todos nós adorávamos caubóis (Companhia das Letras, 2013) –,  agora, mais do que nunca, está interessada em um tipo de literatura: a realista e com riqueza de detalhes. Embora admita não ter a trajetória de autores como Elvira Vigna, que vivenciou grande parte do que deu vida em suas obras, e por isso traz tanto realismo ao que escreve, Carol acredita que isso possa ser compensado com pesquisa.

E a prova está nos números: foram seis meses vivendo no condado de Mendocino, onde a população não passa de mil habitantes, no norte de Califórnia (EUA). Lá, a escritora alugou uma cabana na residência de um casal de meia idade, onde ficou com a namorada. Foram 180 dias entre montanhas, riachos e natureza viva. O ar dramático do lugar foi o cenário perfeito para ambientar o novo romance de Carol, que será lançado ainda neste ano pela Companhia das Letras. Antes, para escrever Caubóis, ela também percorreu o pampa gaúcho para dar mais vivacidade à sua narração, especialmente por se ater de forma detalhada a localidades, uma de suas paixões.

A barraca alugada foi moradia durante o período de imersão na Califórnia. Foto: Reprodução

A casa alugada foi moradia durante o período de imersão na Califórnia. Foto: Arquivo Pessoal

 

Carol nasceu e sempre viveu em Porto Alegre, a não ser entre 2008 e 2010, anos em que teve Paris como moradia. Os dois anos na capital da França serviram para estudar e aprofundar o idioma. De quebra, conseguiu pequenos trabalhos com traduções, como uma graphic novel chamada Três Sombras e adaptações literárias em quadrinhos, como O Estrangeiro e Colônia Penal, de Kafka. Além disso, foi o momento de fazer novos contatos no meio literário, que se tornaram importantes ao longo de sua carreira.

As traduções, inclusive, ocupam um espaço especial no coração de Carol. Neste momento está fazendo um curso com Guilherme Braga, responsável pela tradução de obras de Karl Ove Knausgård no Brasil. Lá aprende técnicas, processos e aprimora sua capacidade como tradutora. Ela percebe neste mercado não só uma possibilidade de renda, mas de realização pessoal. Carol não vive de direitos autorais e nem de royalties. Ela admite que é um desafio ser escritora no Brasil. Por isso, trata de ser multifacetada: traduções, roteiros para audiovisual, eventos literários. O importante é estar em movimento.

Os anos em Paris trouxeram também uma certeza: a preferência por cidades provincianas. Para ela, a capital francesa e a capital gaúcha se parecem neste aspecto, ao contrário de outro local que ama (Londres, na Inglaterra) e que possui um ritmo muito mais acelerado e cosmopolita.

 

Ligação com a Comunicação

Formada em Publicidade e Propaganda pela Universidade Federal do Rio Grande (UFRGS), Carol sempre se interessou pela área da Comunicação. Na instituição, teve contato com cinema – que sempre a influenciou – e com pessoas ligadas às artes. Ao contrário do curso de Letras, que poderia ser uma opção mais lógica, foi na Comunicação que se deparou com o mundo real, aspecto que busca sempre imprimir em seus textos. Ainda nessa época, que classifica como essencial, participou da oficina de escrita criativa de Luiz Antônio Assis Brasil. Foi ali que ela se encontrou.

O caminho era sem volta. Ingressou na linha de mestrado de escrita criativa, largou o emprego como redatora publicitária e lançou seu primeiro livro. Embora hesitante, Carol indica Luz em Agosto (1932), romance gótico e sulista de Willian Faulkner, como o livro de sua vida. E justifica na linguagem e na fidelidade à realidade os aspectos que a prenderam do começo ao fim. Na sua cabeceira está Manual da Faxineira, de Lucia Berlin. Esta é uma autora que foi redescoberta após uma reedição do livro e que vem ganhando espaço entre crítica e público. A obra chamou a atenção de Carol, que logo tratou de tentar descobrir o porquê de tanta histeria. Ela reconhece, no entanto, que isso se justifica.

Carol não gosta de definir público, mas acredita que seu público seja de pessoas na faixa dos 30 anos. Foto: Gustavo Schenkel/Beta Redação

Carol não gosta de definir o perfil, mas acredita que seu público seja de pessoas na faixa dos 30 anos. Foto: Gustavo Schenkel/Beta Redação

 

A paixão pela literatura vem de berço. Pais presentes e apaixonados por livros, incentivo escolar e acesso à literatura estrangeira: o cenário não poderia ser melhor. Talvez por isso não tenha se identificado com grandes nomes da literatura internacional. Diz não gostar de Machado de Assis e não faz questão de dedicar horas com escritores do século XIX. A preferência pelo contemporâneo sempre foi uma tônica. Gosta de Caio Fernando Abreu. Entre os novos nomes nacionais, cita Bernardo Carvalho, Daniel Galera e Michel Laub.

Observadora e fã de caminhadas por bairros próximos à sua casa, como Moinhos de Vento e Bom Fim, Carol se aventurou como cronista do jornal Zero Hora por um período. Depois de textos sobre arquitetura, urbanismo, problemas e soluções para Porto Alegre, decidiu parar. Uma das suas crônicas gerou tanta polêmica, e-mails e xingamentos nas redes sociais que assustaram a escritora de fala mansa. Carol ressalta que é escritora e quer ser vista dessa forma. A exposição de um cronista, a fragilidade ao ser mal interpretado e o compromisso de estar diariamente ou semanalmente na casa das pessoas não são para ela.

Sua rotina, no entanto, é rígida: logo após o café da manhã, se senta em frente ao computador e começa a trabalhar. Pesquisas, produções, rascunhos. Escreve. Apaga. Reescreve. É assim até pelo menos as 18h – quando ela, avessa a programas noturnos, começa a sentir leve sinais de sono e já não demonstra a mesma capacidade de concentração e de inspiração.

Tímida e reservada, deixou recentemente o Facebook. Acredita que um escritor precisa se manter à margem de discussões – uma constante das redes sociais. Teme que uma opinião fora de contexto ou uma frase aleatória possam ser utilizadas de maneira equivocada. No entanto, ela está no Instagram, local em que dá pistas sobre os próximos passos de sua carreira.

Embora admita que não se via morando em outra cidade que não Porto Alegre, a última experiência, no campo, a fez repensar. Tanto que deixa em aberto a possibilidade de no futuro intercalar momentos na cidade com períodos mais afastada, em contato com a natureza e com a serenidade de uma vida desacelerada.

 

O próximo lançamento

O Clube dos Jardineiros de Fumaça virá em uma edição com mais de 300 páginas – o maior da carreira de Carol. Ambientada em 2015, a obra de ficção retrata o período em que a utilização da maconha com fins recreativos ainda era proibida na Califórnia, medida aprovada a partir da eleição de Donald Trump no começo deste ano. Carol tratou de colocar uma nota de rodapé deixando isto claro.

Livro foi finalizado em maio deste ano, depois de três anos de produção. Foto: Instagram Carol Bensimon

Livro foi finalizado em maio, deste ano, depois de três anos de produção. Foto: Instagram Carol Bensimon

 

Ela adianta que o livro tratará de alguns conflitos históricos e com personagens de perfis bem distintos. Um hippie que chegou à região de Mendocino, entre as décadas de 1960 e 1970, uma mulher de meia idade, e seus conflitos e um brasileiro que foi tentar a vida a partir da comercialização da maconha são alguns do que ela já adiantou e que demonstra ter grande expectativa. Agora nos resta esperar o que o Clube dos Jardineiros de Fumaça nos reserva.

Mendocino é o próximo destino sugerido por Carol Bensimon. Foto: Reprodução

Mendocino é o próximo destino sugerido por Carol Bensimon. Foto: Arquivo Pessoal

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