Política

MinC volta a existir após protestos e ocupações

Com o afastamento da presidente Dilma Rousseff e a ascensão de Michel Temer à presidência, os cortes aos ministérios tomaram forma e o Ministério da Cultura (MinC) entrou na lista.

Marcelo Calero, novo ministro da Cultura, durante a cerimônia de posse. (Foto: Valter Campanato/Agência Brasil - http://agenciabrasil.ebc.com.br/politica/foto/2016-05/temer-da-posse-ao-novo-ministro-da-cultura-marcelo-calero, CC BY 3.0 br)

Marcelo Calero, novo ministro da Cultura, durante cerimônia de posse. (Foto: Valter Campanato/Agência Brasil)

 

Logo no primeiro dia do governo interino de Michel Temer, o corte do Ministério da Cultura foi anunciado. A pasta já havia sido cortada em 1990, no governo Collor, mas logo voltou a existir com a chegada de Itamar Franco à presidência, em 1992. A cultura, como outras áreas no Brasil, não anda em um ritmo crescente e constante. Nunca em primeiro plano e com o orçamento mais baixo do Planalto, tinha como destino o declínio progressivo com a extinção do MinC.

Segundo o jornal El País, o seu orçamento é de 2,4 bilhões de reais neste ano, contra 3,3 bilhões em 2015. Criado em 1985 pelo presidente José Sarney, em 2003, durante a gestão de Lula (PT), o ministério obteve um crescimento orçamentário sob o comando dos então ministros Gilberto Gil (PT) e Juca Ferreira (PT).

Para o cantor gaúcho Nei Lisboa, não era de se esperar atitude diferente do governo atual. “Dado o histórico, o posicionamento e a prática política dos golpistas que compõem esse governo interino e ilegal, não se pode esperar menos que desastres”, afirma o cantor.

Diversas manifestações ocorreram no Brasil desde o anúncio da extinção do MinC. Um exemplo foi a ocupação, por artistas, músicos e ativistas por todo o Brasil, de edifícios governamentais para protestar contra o governo interino. No vídeo a seguir é possível ver a repercussão que os eventos causaram. Em uma página norte-americana de notícias no Facebook, o vídeo publicado atingiu quase 6 milhões de visualizações.

 

 

É visível hoje que a cultura precisa de muito mais que financiamento e leis de incentivo. “A cultura merece o status de ministério porque nos alicerça como cidadãos. Tem tanto impacto para nossa identidade social e cidadania quanto a sustentabilidade alimentar, a questão da habitação, a educação ou a saúde”, complementa Lisboa.

Após muitas críticas, o interino Michel Temer decidiu devolver o status de ministério à pasta da Cultura e promoveu Marcelo Calero, então secretário de Cultura, a ministro, na terça-feira, 24.  O ministro da Educação, Mendonça Filho, divulgou uma nota comentando a recriação do MinC:  “É um gesto no sentido de serenar os ânimos e focar no objetivo maior: a cultura brasileira”.

Jéferson de Souza, também músico gaúcho, relata que a atitude de tentar excluir a Cultura mostra o quanto ela é desvalorizada pelo governo interino. “Não sou partidário. Mas o caminho que estavam seguindo, com políticas de incentivo, dando oportunidades aos pequenos projetos, era algo mais justo. A diversidade da cultura, o fomento, e a valorização mostram ao mundo o povo que somos. Todo mundo procura saber o que vem do Brasil. Se nós não valorizarmos nossa cultura, fica muito complicado de expandi-la para outros lugares. Somos muito mais do que futebol e Carnaval”, declara Jef, como é popularmente conhecido.

“É um governo que já não tem tanto apreço popular, sendo golpe ou não. Começar criando atrito com a classe artística, na sua maioria influenciadores, acaba sendo um grande tiro no pé. A gente não pode aceitar isso. A luta está acontecendo. Não podemos tolerar um país sem cultura. Educação sem cultura é ensino, saúde sem cultura é remediação, segurança sem cultura é repressão, economia sem cultura é acumulação, comunicação sem cultura é manipulação”, finaliza.

Mesmo com a volta da Cultura ao status de ministério, ocupações de prédios públicos ligados a ela estão acontecendo em todos os Estados brasileiros. Em Porto Alegre a ocupação está ocorrendo desde o dia 19 de maio, no prédio do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). E, segundo os participantes, o principal objetivo é protestar contra as medidas de austeridade do governo Temer em relação à Cultura, como sua tentativa de incorporação ao Ministério da Educação.

O Jornal do Comércio esteve presente na ocupação do Iphan e registrou o depoimento de alguns participantes, organizadores e também do superintendente do órgão. Confira abaixo.

 

 

O violinista, compositor e também humorista brasileiro Hique Gomez considera que a cultura é aquilo que traz discernimento para um povo. Quando não se quer que o povo tenha discernimento, tira-se a cultura dele e com isso as pessoas não podem fazer trabalhos que tragam reflexão à população, afirma. “Um filme de sucesso como Tropa de Elite, que denuncia o financiamento das campanhas eleitorais pelo tráfico de drogas, incomoda muito aos políticos. E aqueles que mantêm pessoas reféns da fé e vivem da extorsão do dízimo também evitam que a reflexão possa ser feita pelo povo. Ali a ditadura do fundamentalismo religioso, que já chegou a tantos extremos indesejáveis, acaba com o discernimento das pessoas”, afirma Gomez.

A quase extinção do Ministério é vista por muitos como um ato de ignorância do governo, que possui um desconhecimento total do que é a cultura. Para o músico, a fusão do MinC seria feita por pessoas que não consomem cultura, que não leem, nunca foram a um concerto, não assistem filmes – a não ser os grandes sucessos americanos – e não sabem o impacto que a cultura pode trazer a uma sociedade. “Não participam de eventos culturais. Não acham que é importante e não reconhecem a cultura como um setor de produção que dá emprego a muitas famílias e pode trazer divisas para um país.  Porque são pessoas desprovidas de qualquer talento. Nem mesmo têm talento político. A cobiça pelo poder é a única meta deles. Um político que tivesse esse entendimento estaria lutando por uma indústria cultural”, complementa, ainda ressaltando que os mais altos valores humanos que podem ser associados a Deus são a Justiça, a Liberdade e o Amor. Para ele, quando isso não aparece, e pior, quando a religião se mistura com a política, o caminho espiritual está comprometido pela disputa do poder material.  

Lida 1387 vezes

Comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Por favor resolva a equação * Time limit is exhausted. Please reload the CAPTCHA.