Cultura

Memórias ressonantes de uma ex-musicista

Ao tocar um instrumento, a perfeição é uma meta utópica - sempre há algo passível de aprimoração

Durante anos, a viola foi uma companheira. Foto: Arquivo Pessoal

Durante anos, a viola foi uma companheira. Foto: Arquivo Pessoal

Cresci em torno da música. Meu pai adorava tocar uns acordes alegres no violão e sempre gostou de som no volume máximo. As melodias eram as mais variadas: de Beatles, até Cazuza e Beethoven. Em nosso apartamento modesto na Ipiranga, em Porto Alegre, nunca faltava ritmo. Nos mudamos várias vezes depois, mas a coleção de CD’s sempre ia junto.

Eu, porém, nunca imaginei que meu contato com a musicalidade seria tão intenso ao ponto de saber ler uma partitura. Lembro de ter feito algumas aulas de flauta doce quando ainda residia na capital, por volta dos 10 anos. Mas não me inspirava. Foi só quando nos mudamos para o interior que os laços com a música se estreitaram.

Vislumbre de um universo melódico

Em minha primeira turnê pela Europa, em 2008. Foto: Arquivo Pessoal

Em minha primeira turnê pela Europa, em 2008. Foto: Arquivo Pessoal

Quando meu pai se aposentou, Ivoti – pequena cidade de colonização alemã a 55 km de Porto Alegre – foi o local escolhido para morarmos na busca de uma vida mais tranquila. Na 5ª série, comecei a estudar em uma escola centenária do município, com tradição no ensino de música. Foi ali que a possibilidade de tocar um instrumento se tornou mais tangível.

Confesso que, aos 12 anos, não tinha ambições de me tornar musicista. Tão jovem, mal conhecia os instrumentos clássicos. Mas, como o ambiente em que eu estava inserida tinha até crianças de quatro ano tocando simpáticos “mini violinos”, decidi dar uma chance ao desejo da minha mãe, que com brilho nos olhos sempre insistia para que eu aproveitasse a oportunidade de aprender um instrumento.

A maioria das pessoas, quando pensa em instrumentos musicais clássicos, lembra do violino ou do violoncelo. Quando fui conversar com o professor de música da escola, atrás de uma sugestão sobre qual eu poderia escolher, surgiu um nome mais inusitado: a viola – comumente confundida com a viola caipira.

A viola de arco, embora este seja um fato desconhecido para quem não é familiarizado com a música clássica, é um instrumento de quatro cordas – lá, ré, sol e dó – que se toca com um arco, assim como o violino. A diferença está no som e no tamanho: a viola é ligeiramente maior e emite um som mais grave.

Não é à toa que poucas pessoas conhecem a viola. O instrumento sofre certo preconceito no meio profissional da música: entre as piadinhas internas que costumam circular, há uma bem cruel: a de que todas as pessoas que o tocam são violinistas frustrados.

É claro que eu não sabia disso aos 12 anos de idade. Então, lá fui eu me aventurar no som da viola. E assim começou uma jornada que transformou os anos seguintes da minha vida.

Dedicação e utopia

Talvez um dos legados mais importantes dos meus anos de musicista tenha sido o senso de responsabilidade que adquiri. É impossível crescer na música sem dedicação. No começo, tinha uma aula individual por semana e participava de uma aula grupal com outros músicos de primeira viagem. Mas as responsabilidades só aumentaram a partir daí.

Aprendi a tocar viola através do método Suzuki, uma metodologia de ensino de música desenvolvida pelo violinista Shinichi Suzuki, logo após a Segunda Guerra Mundial. Com ela, é possível começar a estudar música desde muito cedo, iniciando com músicas mais fáceis e evoluindo para outras com maior grau de dificuldade.

Cerca de meio ano depois de iniciar meus estudos de viola, eu já fazia parte da Orquestra de Iniciantes da Escola. Um ano depois, passei a integrar a Orquestra Sinfônica Jovem de Ivoti. E, quando menos esperava, já havia recebido um convite para participar da Camerata Ivoti – uma orquestra seleta, formada apenas por músicos de nível avançado.

Ao tocar um instrumento, porém, a perfeição é uma meta utópica. Não se pode negar que há músicos exímios, mas sempre há algo passível de ser aprimorado. Seja na forma de segurar o arco, na agilidade dos dedos, no vibrato ou na afinação da música.

Foi por isso que, quando cheguei na Camerata, os ensaios tornaram-se ainda mais intensos.

Voos alçados pela música

A Camerata Ivoti exige de seus músicos um preparo excepcional. Quando entrei no grupo, por volta do ano de 2008, eu já fazia ensaios individuais em casa duas horas por dia – de segunda a sexta -, além de aulas de Teoria Musical. Também integrava a Orquestra Sinfônica, com ensaios todas as segundas-feiras.

Como vários músicos da Camerata tinham uma agenda semelhante, os ensaios deste grupo eram aos sábados. Resumidamente, eu vivia e respirava música enquanto terminava o Ensino Fundamental. Mas o esforço recompensava por conta dos intercâmbios e viagens que eu tinha a oportunidade de fazer junto à orquestra, além de muitas amizades consolidadas nesses caminhos.

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No caminho da música, houve amizade e cumplicidade. Foto: Arquivo Pessoal

Em minha trajetória como musicista, participei de diversos encontros, percorri cidades pelo interior do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, Minas Gerais e São Paulo para me apresentar. Fiquei hospedada em inúmeras casas e conheci muitas pessoas hospitaleiras nesse caminho. Era cansativo, mas incrível.

O ápice da minha história na música foram os dois intercâmbios que fiz junto à Camerata pela Europa. Em 2008 e 2010, respectivamente, tive a oportunidade de percorrer durante um mês cidades da Suíça, Alemanha e Holanda, fazendo apresentações em diversas igrejas e centros culturais.

Com a Camerata Ivoti, na Embaixada em Frankfurt. Foto: Arquivo Pessoal

Com a Camerata Ivoti, na Embaixada em Frankfurt. Foto: Arquivo Pessoal

Nosso repertório era um verdadeiro carnaval de ritmos. Apresentamos aos europeus um pouco da essência brasileira, gaúcha e latino-americana, tocando desde arranjos de Chiquinha, Luiz Gonzaga e Borghetti até tangos de Piazzolla. Tivemos, inclusive, um gaiteiro tocando conosco na Europa.

Guardo vários registros daquele período na memória, especialmente os aplausos de pé e o olhar emocionado daqueles que assistiam aos concertos. Alguns brasileiros, que residiam na Alemanha, derramavam lágrimas ao ouvir os acordes tão característicos de seu país de origem.

Quem olha de fora, porém, talvez não compreenda a pressão que os músicos enfrentam. Apesar de ter feito muitos amigos no mundo na música, descobri também que existe muita rivalidade nesse meio. Dentro de uma orquestra, olhares indignados deduram quem desafina e há sempre alguém atrás de um destaque nos holofotes.

Toquei alguns solos durante os cerca de cinco anos em que fui violista. Era pavoroso. Só quem tem uma vocação legítima para a música é capaz de encarar a posição à frente de uma orquestra sem pesar. E foi a partir de constatações como essas que, aos poucos, fui percebendo que a música não era o meu destino final.

Eu vivi intensamente toda a experiência de tocar um instrumento. Mas não sou um talento nato. Não é a minha vocação. Foi por isso que decidi parar.

O último concerto

Para falar a verdade, não lembro do meu último concerto. Penso ter sido em Frankfurt. Foi uma decisão difícil abandonar a trajetória na música, depois de anos tão intensos junto à viola. Até hoje, guardo meu instrumento no quarto. Mas, depois que parei, nunca mais peguei o arco.

Não saberia dizer exatamente o porquê. Apenas guardei esse ciclo no coração e optei por não mais me aventurar nos acordes.

Hoje, quando vejo uma orquestra tocar, não escuto apenas a música. Reconheço os gestos e olhares alegres entre os músicos quando uma apresentação é excelente e o repertório sai como planejado. Reparo nos olhares emocionados – e também nos preconceituosos. A beleza e a tragédia do universo melódico estão nos detalhes.

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